COLE C A OFGVUNIVERSITARIACOLE C A OFGVUNIVERSITARIAPROJETOGRAFICOEARTE aspectos OUT-2014 www. aspectos. com. brIntroducao asCienciasSociaisCELSOCASTROJULIAODONNELLAcolecaoFGVUniversitariareunelivrosvoltadosparacursosdegraduacaoemadministracaodeempresaseeconomia. DesenvolvidosporprofessoresdaFundacaoGetulioVargas seustitulosoferecembaseteoricaatualizadaparaasdisciplinasligadastanto ascienciasexatasquanto ascienciashumanas comclarezaeobjetividade. AcolecaofoiidealizadaapartirdeumademandadoProgramadeCertificacaodeQualidadeFGV queprestaapoiopedagogicoacursosdegraduacaodetodoopais. LigadaaoInstitutodeDesenvolvimentoEducacional IDE ainiciativaalinha-se a premissadaFGVdeampliaroacessoaoconhecimentoecontacomoapoioacademicodetresrenomadasescolas EscolaBrasileiradeAdministracaoPublica Ebape EscoladeAdministracaodeEmpresasdeSaoPaulo Eaesp eEscoladeEconomiadeSaoPaulo Eesp. Periodicamente asinstituicoescertificadassaoavaliadasemtresniveis institucional docenteediscente. AspublicacoesdacolecaoFGVUniversitariacomplementamessesuporteeducacionaloferecidopelaFGVeavalizamacredibilidadedoensinodessasinstituicoes. Introducao asCienciasSociaisCELSOCASTROJULIAODONNELLRuaJornalistaOrlandoDantas 37 - BotafogoRiodeJaneiro RJ CEP 22231-010Tels. 0800-021-7777 21 3799-4427 Fax 21 3799-4430www. fgv. breditora E-mail editorafgv. brLIVRARIAFGVRuaJornalistaOrlandoDantas 44 - BotafogoRiodeJaneiro - RJ - CEP 22231-010Tel. 21 3799-5535 Tel. Fax 21 3799-5537www. fgv. brlivraria-rio E-mail livrariafgv. br05257595100COLE C A OFGVUNIVERSITARIACELSOCASTROJULIAODONNELLIntroducao asCienciasSociaisCastro Celso. Introducao ascienciassociais CelsoCastro JuliaODonnell. RiodeJaneiroEditoraFGV 2015. 226p. ColecaoFGVUniversitaria ISBN 978-85-225-1555-41. Cienciassociais. I. ODonnell Julia. II. FundacaoGetulioVargas. II. Titulo. CDD - 300Copyright 2015CelsoCastroeJuliaODonnellDireitosdestaedicaoreservados a EDITORAFGVRuaJornalistaOrlandoDantas 3722231-010 RiodeJaneiro RJ BrasilTels. 0800-021-7777 21 3799-4427Fax 21 3799-4430e-mail editorafgv. br pedidoseditorafgv. brwebsite www. fgv. breditoraImpressonoBrasil PrintedinBrazilTodososdireitosreservados. Areproducaonaoautorizadadestapublicacao notodoouemparte constituiviolacaodocopyright Leino9. 61098. Osconceitosemitidosnestelivrosaodeinteiraresponsabilidadedosautores. 1aedicao 2015. Revisaodeoriginais FernandaVillaNovadeMelloEditoracaoeletronica FAEditoracaoRevisao FatimaCaronieAleidisdeBeltranCapa aspecto designIlustracaodecapa FesouzaSumarioApresentacao Introducao asCienciasSociais7UNIDADEI OmundodasCienciasSociais11Secao1 AperspectivadasCienciasSociais12Secao2 AmodernidadeeosurgimentodasCienciasSociais15Secao3 AespecificidadedasCienciasSociais23Secao4 Aconstrucaosocialdarealidade33Secao5 Interacaosocial tipificacaoeinstitucionalizacao37Secao6 MaxWebereostiposideaisdedominacao43Secao7 Otipoidealdo homemcordial brasileiro55UNIDADEII Aconstrucaodaidentidadesocial relacaoentreindividuoesociedade67Secao8 Trajetoriapessoaletempohistorico68Secao9 Identidadeesocializacao76Secao10 Memoriaeidentidadesocial86Secao11 Disciplinaeenquadramentodosindividuos94Secao12 Asociedadedisciplinar100Secao13 Norma desvioedivergencia104UNIDADEIII Comoasociedadesemantem divisaosocialdotrabalho solidariedadeecoercao113Secao14 Adivisaodotrabalhosocial114Secao15 Thompsoneadimensaosocialdotempo122Secao16 Tempoelazer127Secao17 Aeticaprotestanteeoespiritodocapitalismo132Secao18 O espiritodocapitalismo 136Secao19 O fetichismo dascoisasnamodernidade141Secao20 Omododevidametropolitanoeaascensaodoindividualismo149Secao21 Aadministracao cientifica dotrabalhonamodernidade157UNIDADEIV Comoasociedadesetransforma omundodapolitica163Secao22 Democracia igualdade liberdadeeseusperigos164Secao23 Aideologiacomoinstrumentodedominacaodeclasse170Secao24 OManifestodoPartidoComunista omaterialismohistoricoealutapolitica175Secao25 Ateoriadaselites184Secao26 Democraciaeditadura193Secao27 Poliarquia199UNIDADEV OsmetodosdasCienciasSociais207Secao28 AsCienciasSociaiscomoumartesanatointelectual208Secao29 Aobservacaoparticipante212Secao30 Metodosquantitativosdepesquisa218Referencias223Introducao asCienciasSociaisCelsoCastroeJuliaODonnellApresentacaoOobjetivodestelivroeapresentaraperspectivadocientistasocialemrelacaoaomundoemquevive. Membrosdeumasociedadeespecificanumaepocadeterminada todosnosadquirimos aolongodenossafor- macao umavisaodesensocomum compressupostoshipoteticamente naturais acercadomundoemquevivemos. Esperamosquealeituradestelivroconduzaoleitoraexercitarumareflexaocriticaedesnatu- ralizadoraarespeitodeaspectosfundamentaisdesuavidacotidiana. Pretendemostambemquealeituraajudeadesenvolverasensibilidadenecessariaparaperceberadiversidadeearelatividadedasformasdavidasocial. Umlivrodeintroducao asCienciasSociais destinadoprincipalmen- teaestudantesdenivelsuperiordecursosdeoutrasareas nosquaisadisciplinaeobrigatoria podeserestruturadodemuitasmaneiras. Naohaumaformaunica privilegiadaousegurapelaqualsedevaseguir. Muitopelocontrario avisaocriticaedesnaturalizadoraacimamen- cionadaaplica-se a propriaapresentacaodadisciplina queesemprefeitadeformaparcialesegundodeterminadaperspectiva guiadapelasopcoesepreferenciaspessoaiseintelectuaisdosautores. Nessesentido qualquerintroducaoserasempreumadasmuitaspossiveisintroducoes asCienciasSociais. Porisso eimportanteapresentardesdeoinicioasopcoesfundamentaisquefizemos. Naopretendemosfornecer numunicolivro umavisaoabrangentedeumaareadoconhecimentotaovastaquantoasCienciasSociais 8Introdu c ao a sCi e nciasSociaisnoBrasil geralmentesaoincluidossobesterotulodisciplinasintima- menterelacionadas Antropologia CienciaPoliticaeSociologia. Poroutrolado esperamosquealeiturasejautilmesmoparaquemnaopretendeseguirseusestudosnaarea. Paratanto procuramosfugir a tentacaodeadotaralgunsmodeloscorrentesemlivrosdestinadosacursosuniversitariosdaarea como porexemplo apresentarumasucessao semprenecessariamenteincom- pleta deautores escolasdepensamento teoriasoutemas. Apartirdaleituradeumunicolivro acreditamosqueosalunos especialmenteaquelesquenaoobjetivamtornarem-secientistassociais teriamnaoapenasumavisaofragmentadadasCienciasSociaiscomotambemes- cassachancedequesualeiturativessealguminteresse. Emvezdeumlevantamentoenciclopedicoeexaustivodetemas autores obrasetradicoesintelectuais oquesepretendeesensibilizaroalunoparaoquepoderiamoschamarde perspectivasociologica ou olharsociologico. Seissoforminimamentealcancado olivroteracumpridoseupapel. Variosautoresconsiderados classicos datradicaodasCienciasSociaisestaopresentesnestelivro bemcomoteoriasetemasquelhessaocarac- teristicos masoobjetivoprincipal repetimos emenosorganiza-losnumesquemahistorico tipologicooutematicodasCienciasSociaisdoqueusa- loscomoformadeajudarosleitoresateremumavisaocritica desnatura- lizadoraesociologicamenteinformadadeaspectosimportantesdomundoemquevivem. OlivroestaorganizadoemtornodealgumasquestoescentraisdatradicaodasCienciasSociais. Pretendemosqueoleitorpossacomecaraexercitarumareflexaopessoalsobreessasquestoes equeasreconhecaemquestoesdebatidasnaatualidadeeemsuavidacotidiana. ObservacoesparaprofessoresAutilizacaodolivroemcursosseraenriquecidapelaleituraprevia pelosalunos detextosoriginaisdeautores classicos dasCienciasSociais indi- cadosnolivro equedevemserdiscutidosemsaladeaula. Alemdisso o9Apresentacaodialogocomosalunospoderaserestimuladopeladiscussaodepequenostextosrelacionadosaotemadaaula comotrechosdeobrasartisticas lite- rariasounoticiasdejornal. Deve-sebuscarsempreaparticipacaoativadosalunos quepodemserresponsaveisporpequenasexposicoessobretemas textosoufilmessele- cionadoscontraopanodefundodostextoslidosediscutidosduranteocurso. Eimportante noentanto queoprofessororienteosalunossobrecomoasexposicoesdevemserfeitas bemcomoasacompanheediscutadepoisdeterminadas. Oprofessordevecontextualizarcadaaulanoplanogeraldeestudoseaprofundarseuconteudo. Devetambemsentir-seestimuladoaproporperguntasedarsugestoesadicionaisparaleitura pesquisaoureflexao bemcomolevantarexemplosrelacionadosaocontextomaisimediatodavidadosalunos. OmundodasCienciasSociaisqAespecificidadedoolharqueasCienciasSociaislancamsobrearealidade. qProcedimentosanaliticosedemetodo relativizar distanciaroolhareestranharaquiloqueetidocomo natural. qContextohistoricodosurgimentodasCienciasSociais amodernidadeesuastransformacoes. qOobjetodasCienciasSociais asociedade vistacomoresultadodain- teracaoreciprocaentreosindividuos. qDiferencaentreCienciasNaturaiseSociais. AsCienciasSociaiscomocienciasdacompreensao buscandodesvendarossignificadosqueosho- mensatribuem assuasacoes. qAinteracaosocialnavidacotidianaealinguagemdasCienciasSociais tipificacoesetiposideais. qExemplos MaxWebereostiposideaisdedominacao obrasileirocomo homemcordial SergioBuarquedeHolanda. Unidadei12Introdu c ao a sCi e nciasSociaisSecaO1 AperspectivadasCienciasSociaisOPapalaguimora comoomarisco numacascadura evivenomeiodepe- dras talqualaescalopendra umaespeciedecentopeia entrefendasdelava compedrasemvolta dosladoseporcima. Acabanaemquemoraparece-secomumbaudepedraempe commuitoscompartimentosefuros. AgentedeslizaparadentroeparaforadacascadepedraapenasporumlugarqueoPapalaguichamaentradaquandovaiparadentro esaidaquandovemparafora emboraambasascoisassejamabsolutamenteumasoeamesma. Nestelugarexisteumagrandefolhademadeiraquesetemdeempurrarcomforcaparaentrarnacabana. Masistoesoparacomecar tem-sedeempurraraindaoutrasfolhasparaestar defato nacabana. Quasetodasascabanassaohabitadaspormaispessoasdoqueasquemoramnumasoaldeiasamoana . . . . Emuitocomumnemsaberemonomeumasdasoutras eseseencontramnoburacoporondeentramesaem cumprimentam-sedemavontade ouresmungamqualquercoisa talqualinsetoshostis dandoaimpressaodeestaremzangadasporteremdeviverpertoumasdasoutras. EsteeumtrechodeumdiscursodeTuiavii chefedaaldeiadeTiavea emSamoa Polinesia PacificoSul recolhidopeloartistaalemaoErichScheurmann 1878-1957 epublicadooriginalmenteem1920. Samoafoiumacoloniaalema atepassar a tuteladaNovaZelandiaem1920efinal- mentesetornarindependenteem1962. TuiaviifalaaseusconterraneossobreomundocotidianodoPapalagui oeuropeuouhomembranco queconheceuduranteumaviagem a Europa. Eledescreveavidanumametropole comseuspredioseaparta- mentos ruasebondes ruidoseconfusao bemcomoumtipodiferentedesociabilidade aconvivenciaanonimaepoucoamistosaentrevizinhoseadivisaodetarefasentrehomensemulheres. Elenaousa porem aspalavrasqueaprendemosausarparadesignares- seselementos edificio apartamento quarto rua etc. Tuiaviiprocu- ratraduziraquiloqueviuparaosconterraneosnalinguagemsamoana quenaotinhaessaspalavras e claro nemessamesmaexperienciaurbana. 13UnidadeI OmundodasCienciasSociaisOtextopermite atravesdesseefeito asvezescomico fazerumexerciciodevercomoutrosolhosnossarealidadecotidiana aquelaqueeconstruidapormeiodenossasocializacao omundonoqualvivemosemmodo pi- lotoautomatico. Eessemundoqueaprendemoscomo natural desdeainfancia eapartirdoqualpassamosajulgaraspessoasesociedadesquesaodiferentesdenos. Nessesentido podemosentenderquenaoesimplesoesforcode desnaturalizar nossavisaodemundo poisestamuitoarrai- gada naformacomoovemos naspalavrasqueusamosparadescreve-lo naquiloqueconsideramosocomportamento natural etc. Trata-sedaquiloqueosociologoamericanoC. WrightMillschamoudeimaginacaosociologica umaformadeveromundoquepermiteiralemdaslentesdanossapropriaconsciencia. Aprimeiraconquistadaimaginacaosociologicaseriaoentendimentodequeossereshumanossopodemcom- preendersuaexistenciaaoseperceberempartededeterminadocontextosocial. Comissovemosquenossasacoesinfluenciamesaoinfluenciadaspeladinamicadasociedade oquenospermiteolharalemdaesferadavidaprivada. Essae emsuma apromessadaimaginacaosociologica odesen- volvimentodacapacidadedemudardeperspectiva deestabelecerrelacoesentreasdiferentesesferasquecompoemohumanoesocial. Atravesdelapodemosvoltarasersurpreendidoscomarealidade estranharoquenosefamiliareampliarnossosquestionamentos passandoarefletirsobrearealidadesocialapartirdenovospressupostos. Nessemesmosentido osociologoAnthonyGiddens 2005 25 dizqueAimaginacaosociologica acimadetudo exigedenosquepensemosforadasnossasrotinasfamiliaresdenossasvidascotidianas afimdequeaobservemosdemodorenovado. Considereosimplesatodetomarumaxicaradecafe. Oquepoderiamosdizer apartirdeumpontodevistasociologico sobreesseexemplodecomportamentoaparentementetaodesinteressante Poderiamosassinalarqueocafepossuiumvalorsimbolicocomopartedenossasativida- desdiarias eumritualeconvida a socializacao. Segundo ocafeeumadrogalicita masexistemoutrasdrogasilicitas. Ossociologosestaointeressadosnoporque daexistenciadetalcontraste. E porultimo ohabitodebebercafeestarelacionadoaumaredeinternacionaleconomicadeimportacaoeexportacao etambemaumpassadohistorico. 14Introdu c ao a sCi e nciasSociaisPortanto vemosqueaimaginacaosociologicaconsiste emgrandeme- dida numexerciciodeestranhar derelativizar deafastaroolhardenossapropriasociedadee assim percebermelhorsuascaracteristicas. Aquiloqueefamiliarnaonosenecessariamenteconhecido. Atravesdoconhe- cimentoproduzidopelasCienciasSociais podemosrefletircriticamentesobrenossapropriarealidadesocialepercebermelhorseusmecanismosecaracteristicas. ComoolivroestadivididoOobjetivogeraldolivroeapresentaraperspectivadocientistasocialemrelacaoaomundoqueocercaedoqualtambemfazparte. Espera-sequeosleitoresexercitem aolongodesualeitura umareflexaocriticaedesna- turalizadoraarespeitodeaspectosfundamentaisdomundoemquevivem. Alemdisso queolivroajudeadesenvolverasensibilidadenecessariaparaperceberadiversidadeearelatividadedasformasdavidasocial tantoemsuadimensaohistoricaquantocultural. Porrazoesdidaticas olivroestadivididoemcincopartesindependen- tes masintimamenterelacionadasentresi. Aprimeira OmundodasCienciasSociais tratadoobjetodessecampodoconhecimento danaturezadacompreensaosociologica efor- neceumquadrogeralsobreocontextohistoricodosurgimentodadiscipli- naeadefinicaodealgunsdeseusconceitosemetodosfundamentais. Asegundaparte Aconstrucaodaidentidadesocial tratadarelacaoentreindividuoesociedadeatravesdostemasdasocializacaoindividual damemoriaedaidentidadesocial. Naterceiraparte Comoasociedadesemantem ostemascentraissaoadivisaodotrabalho asolidariedadeeacoercao. Aquartaparte Comoasociedadesetransforma abordaomundodapoliticaatravesdealgumasvisoesclassicassobreotema. Finalmente aquintaparte OsmetodosdasCienciasSociais tratadanaturezaartesanaldapesquisaemCienciasSociaisedesuasferramentas. 15UnidadeI OmundodasCienciasSociaisTemasparadiscussaoqAsobservacoesdeTuiaviiaindasaovalidasarespeitodavidaatualdoPapalagui qPodemosexercitaromesmoolhar estranhador emnossasociedadeatual qPodemosimaginargrupossociaisouestilosdevidaqueestaoproximosdenos comosquaistemosumarazoavelfamiliaridade masquenossaodesconhecidos Ousobreosquaistemosvisoespreconcebidas enaofrutodeconhecimentoefetivo SecaO2 AmodernidadeeosurgimentodasCienciasSociais1OcontextodosurgimentodasCienciasSociaisVoce sabiaqueaquiloqueconhecemoshojecomo CienciasSociais sosurgiunasegundametadedoseculoXIX Queantesdissonaohaviaqual- quersaberespecificoparaestudareconhecerasociedade Aperguntaime- diataquetaisinformacoesnoscolocame seavidaemsociedadejaexistedesdeostemposremotos seahumanidadesempreconviveucomquestoescomopoder cultura relacoesdegrupoetc. porquesoentaocriou-seumacienciadedicadaaoestudodetaisfenomenos AsCienciasSociaissaofrutodomundomoderno. SeusurgimentosopodesercompreendidodentrodocontextodasgrandestransformacoesquemarcaramaEuropadosseculosXVIIIeXIX alterandoprofundamen- teavidadaspessoas. Mastaistransformacoesnaoaconteceram porcerto deumahoraparaoutra. Saopartedeumlongocaminhoque conformeaprendemoscomoslivrosdeHistoria teveinicionoseculoXV quandoaconsolidacaodoprocessodeexpansaocomercialdascidadesdeixavadefi- nitivamenteparatrasomundofeudal dandoasboas-vindasaoque maistarde veioaserconhecidocomoaIdadeModerna. 1Textodereferencia Dawe 1980. 16Introdu c ao a sCi e nciasSociaisApesardefundamental a compreensaodaqueleprocesso oincrementodaatividadecomercialnaofoi certamente ounicofatordemudancas. Vinhaacompanhado entreoutrascoisas dodesenvolvimentodohuma- nismo nomepeloqualficouconhecidoomovimentoderedescobertadaAntiguidadeequetinhacomoeixoaideiadequeDeushaviafeitodohomemocentrodouniverso. IniciadonaPeninsulaItalicanoseculoXIV essemovimentointelectualabrangeuamaiorpartedaEuropaentreosseculosXVeXVI dandocorpoaomotedoantropocentrismoevalorizandoaspotencialidadesdarazaohumana. Naoporacaso ohumanismoestabeleceuosfundamentosdoRenasci- mento queemergiucomoumanovaposturaintelectualeartisticaemrela- cao asdoutrinasreligiosasvigentesaolongodetodaaIdadeMedia. Atravesdaarquitetura daescultura dapintura dasletrasedafilosofia osrenascen- tistasofereciamnovasalternativasdecompreensaodomundo explorandotemastaovariadoscomopolitica moral anatomiaetc. Avalorizacaodousodarazaocomomeiodealcancaroconhecimentoacaboupordarformaaoquehojeconhecemoscomo Revolucaocientifica processoiniciadoduran- teoRenascimento comCopernico DaVincieoutros equedeuorigem a ideiadecienciatalcomoaconhecemoshoje umsaberpautadonaneces- sidadedeobservarosfatoseosfenomenosedemonstrarasexplicacoesquelheseramatribuidas. Eimportantelembraraindaqueachegadados temposmodernos foimarcadatambempelaampliacaodoshorizontesgeograficosdoseuropeus queselancavamemgrandesexpedicoesmaritimas aoencon- trodenovasterrase consequentemente novospovos. Cercadedoisseculosmaistarde osurgimentodoIluminismoveioaprofundarosentidotransformadordaquelasmudancas defendendooli- vreexerciciodascapacidadeshumanaseoengajamentosociopolitico. NaspalavrasdofilosofoImmanuelKant 1784 OIluminismorepresentaasaidadossereshumanosdeumatutelagemqueestesmesmosseimpuseramasi. Tuteladossaoaquelesqueseencontramincapazesdefazerusodapropriarazaoindependentementedadirecaodeoutrem. E-secul- padodapropriatutelagemquandoestaresultanaodeumadeficienciadoenten- 17UnidadeI OmundodasCienciasSociaisdimentomasdafaltaderesolucaoecoragemparasefazerusodoentendimentoindependentementedadirecaodeoutrem. Sapereaude Ousesaber Temcora- gemparafazerusodatuapropriarazao esseeolemadoIluminismo. Aprofundavam-seoprocessodesecularizacaodasociedadee comele acrencanovalordoconhecimentocientifico. AEuropaviviaosefeitosdaRevolucaoIndustrial daIndependenciadosEstadosUnidos 1776 edaRevolucaoFrancesa 1789. Aurbanizacaoaceleradadavacorpoanovasformasdemoradiaenovosmodelosderelacaodetrabalho enquantooindividualismoganhavaespacocomoideologiadominante. Omundo en- fim setransformava. Aoladodacrencanoprogresso acompanhadadepertopelodesenvol- vimentodesaberescientificos omundomodernoapresentavaenormesdesafiosaoshomensdeseutempo. Paralelamenteaocrescimentodain- dustriaeaosavancoscientificos aEuropaassistiaaoaumentoexponencialdadesigualdade bemcomoaosurgimentodeumnovoeimportanteatorsocial amultidao. Aformacaodaclassetrabalhadoraurbanadeixavaclaroqueapobrezaeraparteconstitutivadaquelemundoqueseerigiraemtor- nodoidealdaigualdade. Ocotidianodasgrandescidadespassavaentaoaimporquestoesinescapaveis Comoexplicaretrataradesigualdade Comocompreenderadiferenca Comoexplicaramanutencaodasociedadedian- tedadesagregacaocrescente EmmeadosdoseculoXIX algunspensadoressepropuseramaenfren- taressasquestoes dandoformaaoquemaistardeseriaconhecidocomoCienciasSociais. InicialmenteinspiradoemsaberescomoaFisicaeaBio- logia onovocampodeconhecimentobuscava atravesdeumaanaliseobjetivadosfenomenosdasociedade enfrentarodesafiodecompreenderaquelasalteracoesprofundaserefletirsobreaformacomoaspessoasrea- giramaelas. AtentandoparaaimportanciadeentrelacarosurgimentodasCienciasSociaiscomocontextoemqueaconteceu osociologobrasileiroFlorestanFernandesasseveraquesetratavadeumaatmosferadealargamentodosniveisdepercepcaosocialdosujeito pautadoemtreselementos aseculariza- caodacultura odesenvolvimentodeumconhecimentodosensocomumeo18Introdu c ao a sCi e nciasSociaisfortalecimentodopensamentoracionalsistematico. Essestresfatoresteriamdadoorigemaum pontodevistasociologico ouseja umnovomododeverasociedadeepensarsobreela posteriormenteorganizadasobumaformacientifica. Enessesentidoqueoautorafirma Fernandes 1977 14 ASociologianaoseafirmaprimeirocomoexplicacaocientificae somentedepois comoformaculturaldeconcepcaodomundo. Foioinversoquesedeunarealidade. Elanasceesedesenvolvecomoumdosflorescimentosinte- lectuaismaiscomplicadosdassituacoesdeexistencianasmodernassociedadesindustriaisedeclasses. Conservadores reformistasourevolucionarios aspira- vamfazerdoconhecimentosociologicouminstrumentodaacao. ASociologiaconstituiumprodutoculturaldasfermentacoesintelectuaisprovocadaspelasrevolucoesindustriaisepolitico-sociais queabalaramomundoocidentalmo- derno. Noentanto paracompreenderosentidoprofundodaquelastrasnfor- macoesdequeaSociologiaefruto eimportanterefletirtambemsobreumaspectoelementardodesenvolvimentodomundomoderno osurgimentodanocaodeindividuo. OsurgimentodoindividuoQuandoaprendemossobreoprocessodedecliniodaIdadeMedia nosacostumamosaelencaraspectoscomoorenascimentocomercial aspesteserevoltasqueacabaramporatingiraessenciadosistemafeudal. Lembra- mo-nos assim doprocessodedesintegracaodashierarquiassociaisquecaracterizavamomododevidamedieval dofatodequeomododeprodu- caocapitalistasetornavadominanteedoprogressivoaumentodadivisaosocialdotrabalho. Estessao semduvida fatoresessenciais a compreensaodastrasnformacoesquelevaramaofimdaIdadeMediae a consequenteemergenciadomundomoderno. Ha contudo umfatorqueperpassato- dosessesfatoresdeformadeterminante eaoqualnaocostumamosaten- tar aseparacaoentregrupoepessoa ouosurgimentodoindividuo. SegundoosociologoAlanDawe ocolapsodomundomedieval aindaquetenhasidoumprocessogradualefragmentado representouumrom- 19UnidadeI OmundodasCienciasSociaispimentohistoricoradicalentredoismundos. Eosentidoprofundodetalrompimentopode segundoele serpercebidopelofatodequeofimdaIdadeMediatrouxeconsigouma inversaocosmica daideiadeindividuo comodefendeRaymondWilliams apudDawe 1980 492-493 Individual significa nopensamentomedieval inseparavel. . . Lentamente ecommuitasambiguidades desdeentao aprendemosapensarno individuoemsimesmo quandoantesfalarneleeradarumexemplodogrupodequeeramembro. Caracterizandoomundomedievalcomoumconjuntodecomunidadesfechadaseestaticas Dawechamaaatencaoparaacentralidadedogruponadinamicasocialdaquelecontexto. Pequenaepoucoabertaanovidades aaldeiamedievaltipicaseguiaumarotinamarcadapelaprevisibilidadeepelapreeminenciadavidapublica. Afinal numapequenacomunidadeemquetodosseconhecem cadavidaevividaemconjunto naohavendo portanto separacaopossivelentreasdimensoespublicaeprivada. Dawelembraaindaqueacentralidadedogruponasaldeiasmedievaiserareforcadapeladependenciaquepautavaasrelacoesentreseusmem- bros. Asatisfacaodasnecessidadesindividuais comooacessoaoalimento porexemplo dependiadotrabalhocoletivo enaodoacessoaindividuosespecializadosemdeterminadastarefas. Ditodeoutromodo nomundomedievalnaohaviaumaacentuadadivisaosocialdotrabalho Eisso eclaro edegrandeimportancia poisdadivisaodotrabalhodependeadiferenciacaodabiografiaedaexperienciaqueproduzosensodadiferencaemrelacaoaosoutros equeeaessenciadamodernaconcepcaodoindividuo. Semela experiencia biografiaevidapessoalcontinuamindiferenciadasdeumapessoaparaoutra. Semela portanto naopodehaverumaconcepcaodo individuoemsimesmo Dawe 1980 493. Aconscienciadesiera portanto determinadapelopertencimentoaogrupo semqualquerespacoparaoquestionamentodaordemvigente. Ohomemeravistocomoumamanifestacaodavontadedivina etoda20Introdu c ao a sCi e nciasSociaisagenciasobreomundocabiaunicaeexclusivamenteaDeus. Aohomemrestavaapenasaceitarviverconformeopapelaeledesignadonogrupo. Tratava-sedeummundofortementemarcadopelareligiaocrista. SegundoohistoriadorfrancesLucienFebvre ateofinaldaIdadeMediaareligiaocrista efetivamentedominavatodaavidadohomem tantoavidaprivadaquantoapublica. Naohaviaescolhaparaoindividuo todos desdeonas- cimento seencontravamimersosnumbanhodecristianismo Ocristianismoehojeumaprofissaodefeentrevariasoutras amaisimpor- tantedetodasaosnossosolhosdeocidentais somenteaosnossosolhos porem. Chegamosadefini-lonaturalmentecomoumconjuntodedogmasedecrencasbemdeterminadas associadasapraticasearituaisdefinidoshamuitotempo. Noquenaotemosplenamenterazao. Porque queiramosounao oclimadenossassociedadesocidentaissemprefoi profundamente umclimacristao. Antigamente noseculoXVI commaisfortesrazoesainda ocristianismoeraoproprioarrespiradoportodaaregiaoqueconvencionamosdesignarporEuropaequeconstituiaaCristandade. Umaatmosferaemqueohomemviviasuavida todaasuavida enaounicamentesuavidain- telectual tambemsuavidaprivadaemseusmultiploscomportamentos suavidapublicaemsuasdiversasocupacoes suavidaprofissionalondequerqueseenquadrasse. Tudoisto automaticamente sobqualquercondicao totaleindependentementedetodavontadeexpressadesercrente desercatolico deaceitaroudepraticarsuareligiao. . . Atualmenteseescolhe. Sercristaoounao. NoseculoXVInaohaviaesco- lha. Era-secristaodefato. Podia-sedivagarempensamentolongedoCristo jogosdeimaginacao semsuportevivoderealidade. Todavia naosepodiasequerdispensarapratica. Mesmonaoquerendo mesmonaoentendendoclaramente todos desdeonascimento seencontravamimersosnumbanhodecristianismo doqualnaoseescaparianemnahoradamorte jaqueestamorteeranecessariamente socialmente crista devidoaosritosaqueninguempodiasubtrair-se aindaqueestivesserevoltadoemfacedamorte aindaquetivessefeitogracejosesemostrassebrincalhaonosultimosmomentos. Donascimentoateamorte estabelecia-seumaimensacadeiadecerimonias detradicoes decostumesepraticasque sendotodascristasoucristianizadas 21UnidadeI OmundodasCienciasSociaisamarravamohomem mesmocontrasuavontade escravizando-oapesardesuaspretensoesdetornar-selivre. E acimadetudo cercavamsuavidaprivada Febvre 1978 38. ValeobservarqueateapropriacontagemdotempodependiadaIgreja osrelogioseramraros osrepiquesdossinosdaIgrejaequemarcavamotempo eoscalendariostambemeramexpressosemtermoscristaos Feb- vre 1978 37-53. SegundoAlanDawe oressurgimentodocomercio nabaixaIdadeMedia viriaferirdemorteessemundopordoismotivos primeiro porromperaospoucosoisolamentodasaldeias enfraquecendoaunidadeco- munitariasobreaqualsemantinhaaforcadogrupo e emsegundo porintroduzirapossibilidadedemobilidadesocial dandoahomensemu- lheresalternativasdepapeiseposicoessociaisparaalemdaquelaquelheshaviasidodesignadaaonascer. ComosublinhaDawe 1980 495 Emconsequencia aspessoaspodemcomecaraver-secomoagentesativosnacriacaodesuaspropriasvidascomotendoatributos capacidadeseidentidadespessoais distintasdequalquerpapelsocialfixo ecomisso comoocupantesnaosodeumaesferapublica socialecomunitaria mastambemdeumaesferapessoal individualeprivadadevida experienciaeatividade. Elaspodemconceber-secomo individuosemsi. Nascia assim oindividuo queseriadefinitivamenteempoderadopelohumanismoe maistarde peloIluminismo. Ogrupodeixavadeserare- ferenciainescapavel a definicaodesi eohomem cadavezmaiscientedesuaspotencialidades passavaaagirpormeiodarazaonummundopro- gressivamentesecularizado. Desintegravam-se deformagradual ashierar- quiassociaisquecaracterizaramomododevidamedievaleassociedadesdoAntigoRegime. Omododeproducaocapitalistatorna-sedominante comele haoexponencialaumentodadivisaosocialdotrabalhoedain- dustrializacao aurbanizacaocrescenteeodesenvolvimentodeummododevidaurbano. AsucessivaperdadepoderdaIgrejasobreavidacedialugaraopredominiodeideologiasligadasaocientificismoeaoindividua- 22Introdu c ao a sCi e nciasSociaislismo fazendocomqueracionalidadeeigualdadefossemafirmadascomovalorescentraisdaculturaocidentalmoderna. Naoqueissotenhaocorridoplenamente omundomodernovera aocontrario oacirramentodecrisessociaiseochoqueentrediferentesalternativaspoliticas. Eram enfim ostemposmodernosquenasciam e comeles asCien- ciasSociais. Temaparadicussao Temposdificeis CharlesDickens Coketown . . . eraotriunfodoFato . . . . Eraumacidadedetijolosvermelhos ouantesdetijolosquetinhamsidovermelhos seafumacaeascinzasotives- semconsentido mastalcomoestava eraumacidadedeumvermelhoeumpretoesquisitos semelhandoacarapintadadeumselvagem Eraumacidadedemaquinasealtaschamines dasquaissaiamincessantementeserpentesin- terminaveisdefumaca quejamaissedesenroscavam. Tinhaumcanalnegroeumriomanchadoderoxoportintasmalcheirosaseimensaspilhasdeedificioscheiosdejanelas ondetodoosantodiahaviaruidosestremecidoseondeos em- bolosdasmaquinasavaporsubiamedesciammelancolicamente semelhante a cabecadeumelefantemelancolicamentelouco. Paraessagente cadadiaeraigualaoanterioreaoseguinteecadaanoidenticoaoultimoeaoproximo. EssesatributosdeCoketowneramnofundoinseparaveisdaindustria queconstituiaoseusustentaculo artigosdeconfortodavidaaespalharem-sepelomundointeiroeeleganciasdavidaquefaziam naodiremosemqueme- dida abelezadasdamasquedaterranaoqueriamnemouvirfalar. NaosevianadaemCoketownquenaofosseseveramentelaborioso. . . . Fatos fatos fatos taleraoaspectomaterialdacidade fatos fatos fatos portodaparte noimaterial. 1950 25. Exercicio Facaumaanalisedotextoacima identificandoelementosdocontextoculturalquelevaramaosurgimentodasCienciasSociais. 23UnidadeI OmundodasCienciasSociaisSecaO3 AespecificidadedasCienciasSociais2Asociedade objetodacienciaQuandofalamosem CienciasSociais nosreferimosaumconjuntobas- tanteamplodedisciplinas noBrasil emgeral aSociologia aAntropolo- gia aCienciaPolitica que normalmente sepropoemidentificareexplicarfenomenosrelativosaoconjuntodepessoasinterligadasnoquechamamos sociedade. Comovimosnasecaoanterior essecampodeconhecimen- tovoltadoaoestudodosaspectospropriamentesociaisdavidadossereshumanossurgiunofinaldoseculoXIX nocontextodocrescimentodascidadesedoadventodomundomoderno erelaciona-se portanto aumprocessodemultiplicacaoecomplexificacaodomundosocial. Naopode- mosesquecer noentanto queasCienciasSociaissurgemnummomentoemqueasditasCienciasNaturaisjaseencontravambastanteestabelecidaselegitimadasemtornodecamposcomoaBiologia aQuimicaeaFisica quesedispunhamainvestigar earevelar causasefenomenosrelaciona- dosaocorpohumanoe a natureza valendo-sedemetodoseprocedimen- tosbaseadosnoprincipiodaobjetividade. Ficaclaro assim queasCienciasSociaissurgemdiantedodesafiodeseestabelecercomoumramodeconhecimentoque adespeitodocaraterabstratoefluidodeseuobjeto asociedade pretendiaserreconheci- docomoumaciencialegitima. Mascomoalcancartallegitimidadecien- tificase diferentementedascelulas atomoseorgaosquesaoobjetosporexcelenciadasCienciasNaturais asociedadeeomundosocialnaopodemseranalisadosemlaboratorios Comodesenvolverobjetividadecientificaperanteumobjetodoqualoproprioobservador ocientistasocial fazparte istoe avidasocial Essaquestaopercorreugrandepartedostrabalhosempreendidospelosprimeiroscientistassociais preocupadosemgarantiralegitimidadedasCienciasSociais. Forammuitasasmaneirasencontradaspordiferentescientistassociaispararesponderaessasquestoes. Cadaqualprocuroudebater edefender 2Textosdereferencia Schutz 1979 Simmel 1983. 24Introdu c ao a sCi e nciasSociaisalegitimidadecientificadoestudodasociedade apresentandometodosereflexoesque noseuconjunto revelamumgrandeinvestimentoemcom- provaraespecificidadedeseuobjetoe consequentemente anecessidadedodesenvolvimentodemetodospropriosparasuacompreensao. Apartirdessasconsideracoespodemospartirparaaperguntaqueper- meiatodaessadiscussao quaissao afinal osprincipioscientificosqueembasamoestudodasociedadee portanto alegitimidadedasCienciasSociais AfrasedofilosofoAlfredSchutz 1979 267 nosdaumbompon- todepartida asprincipaisdiferencasentreasCienciasSociaiseasNatu- raisnaotemdeserprocuradasnumalogicadiferentequeregecadaramodoconhecimento. Issosignifica emlinhasgerais quetantoasCienciasNaturaisquantoasSociaispartemdeummesmocompromissocomoprincipiologicodoconhecimentoe ainda queambascompartilhamdomesmorigornautili- zacaodosmetodosdeinvestigacao. Ouseja apesardediferentes cadaumdessesramosdeconhecimentoeigualmentevalidocomoestudocientifico. MasessaconstatacaodeixaaindaemabertoaquestaosobreaespecificidadedasCienciasSociais ou emoutraspalavras sobrecomooobjetodeestu- dodesseramodeconhecimentopodesertratadodeformacientifica. AlfredSchutzdaoutrapistaaoafirmarque apesardedividircomasCienciasNaturaisprincipiosdalogicaedorigormetodologico asCien- ciasSociais porpossuiremumobjetoproprio deveminvestirtambememmeiosedispositivosespecificosparadarcontadouniversoquepretendeinvestigar. Aindasegundooautor essadiferencademetodosopodeserdevidamentecompreendidaseanalisarmosafundoaespecificidade eacomplexidade doobjetodeestudodocientistasocial. EapartirdessapropostaqueSchutzapresentaoqueacreditaseradife- rencafundamentalentreasCienciasNaturaiseasCienciasSociais ofatodeque nestasultimas ocampodeobservacaodocientista arealidadesocial temumsignificadoprevioparaeleproprioeparaaspessoasquesaoobjetodainvestigacao. Issosignificaque qnasCienciasNaturais ocientistapodedefinirsozinhooqueerele- vanteparaoestudo construindoseuobjetodeacordocomoquelhe25UnidadeI OmundodasCienciasSociaisparecermaisapropriado. Issoporqueomundodanaturezanaoeprevia- menteinterpretadoporseuselementos jaqueele nada significa paraasmoleculaseatomosaiexistentes Schutz 1979 268 qnasCienciasSociais porsuavez arealidadeaserobservadapelocien- tista arealidadesocial temumsignificadopreviamentedeterminadopelaspessoasquenelavivem pensameagem. Assim ocientistasocialconstroiseuobjetodeestudobaseadonasconstrucoesfeitasporaquelesquevivemnomundosocialaseranalisado. EnessesentidoqueSchutzafirmaqueocientistasocialtemodesafiodeinterpretarconstrutosdesegundograu ouseja analisarasinterpretacoesdosvariosatores inclusivedeleproprio sobrearealidadesocialquesepropoeestudar. AsCienciasSociaiscomocienciasdacompreensaoEmlinhasgerais podemosdizerqueasCienciasSociaissecaracterizamporbuscarentenderosprincipiospelosquaisaspessoasorganizamsuasvidasnodiaadiae demaneiramaisampla comoseestruturaavidaemsociedade. Paraisso comovimosanteriormente ocientistadevecontarcommetodosapropriadosparaanalisartaisprincipios japreviamenteinterpretadoseexperimentadospelosatoresquepovoamomundosocial. Podemosafirmar poressasrazoes queasCienciasSociaislidampre- dominantementecomouniversodacompreensao enaodaexplicacao comonocasodasCienciasFisicaseNaturais ouseja quesebaseiamnopropositodecompreenderomundosocialeque aomesmotempo essacompreensaosefundamentanacompreensaoqueaspessoastemsobreessemesmomundosocial porelasvividoeexperimentadodiariamente. Parececomplicado massepensarmosseparadamenteemdoisniveisdacompre- ensaoaquestaoficamaisclara qnumprimeironivel acompreensaoea formaparticulardeexperienciapormeiodaqualopensamentodosensocomumtomaconhecimentodomundosocialecultural Schutz 1979 269. Ouseja eoprincipio26Introdu c ao a sCi e nciasSociaisqueorientaaspessoasnomundosocialnoqualestaoinseridas fazendocomqueintegrantesdeumasociedadeinterpretemarealidadeaoseuredor agindosobreeladeacordocomseupontodevista qnumsegundonivel acompreensaoeometododocientistasocial ouseja eomeiopeloqualelebuscaapreenderosignificadodasacoesdosindividuos. Nessesegundonivelha portanto umduplomovimento opesquisadordesenvolveapropriacompreensaosobreacompreensaoqueaspessoastemdomundosocial. EnessesentidoqueSchutzafirma conformemencionado queodesafiodocientistasocialeodeinterpre- tarconstrutosdesegundograu. Dessemodo aespecificidadedasCienciasSociaisestanofatodequesuaselaboracoeseseusconceitossaonecessariamentebaseadosnaselabora- coeseconceitosqueosindividuosfazemsobresuasexperienciasdiarias. Essaafirmacaodeixaemaberto noentanto umaimportantequestaoacercadalegitimidadedasCienciasSociaisenquantoconjuntodepostu- ladoslogicosdenaturezacientifica comoepossivelestabelecerprincipiosobjetivosnotratamentodacompreensaodosindividuossobreomundoqueoscerca SeraquepodemosfalaremobjetividadedasCienciasSociais umavezqueseuuniversodeestudoefundamentalmentebaseadonossig- nificadossubjetivosqueosindividuosconferemaomundosocial Pararesponderataisquestoes Schutzretomaadiferenciacaoentreosdoisniveisdecompreensao. Segundooautor osconstrutosdesegundograu atravesdosquaisasCienciasSociaisdesenvolvemanalisessobreomun- dosocial seriamconstrucoescientificas ouseja feitas deacordocomasregrasdeprocedimentovalidasparatodasascienciasempiricas. Issosignificaqueessasconstrucoescorrespondem a elaboracaodeesquemasdetipificacaoeclassificacaoquepermitemqueocientistasocialanaliseecompreendaasacoessubjetivasdosindividuos. Portanto apesardeasCienciasSociaistrabalharemcomumameto- dologiabaseadasobreomesmoprincipiodeseuobjeto oprincipiodacompreensao ofatodeelassepautarememelaboracoesdesegundograu ouseja emcompreensoessobreacompreensaodosindividuos lhespos- 27UnidadeI OmundodasCienciasSociaissibilitamantercientificidade. Issoporque apartirdessascompreensoesdesegundograu ocientistapodetrabalharcomsistemasteoricosehipotesesgeraisque comoemqualquermetodologiacientifica permitemobservardiferentesfenomenosatravesdeprincipioscomuns. AinteracaosocialUmavezestabelecidasasespecificidadesdasCienciasSociaiscomocampodeconhecimentoeosprincipiosmetodologicosatravesdosquaisomundosocialpodesercientificamenteobservado eprecisoatentarparaaspeculia- ridadesdoobjetodeestudodocientistasocial. Oquee afinal asociedade Quaissaooselementosconstitutivosdarealidadesocialasercompreen- didapelopesquisador Dequemaneirapodemosrelacionar paraefeitosteoricosemetodologicos osindividuoseasociedadequeformamepelaqualsaoformados OsociologoalemaoGeorgSimmel consideradoatualmenteumdosfundadoresdaSociologia articulaumarespostaaessasquestoesemtornodaelaboracaodeumconceitocrucial odeinteracao. Emtermosgerais podemosdefinirainteracaocomoumprocessonoqualduasoumaispessoasagemnumarelacaoreciprocaemdeterminadasi- tuacao. Assim diferentementedocomportamento queincluitudoqueumindividuofaz secocar estudar brincar ainteracaotemumcomponenteessencialmentesocialquefazcomqueasacoessejambaseadasemtrocasdesignificadoscomasdemaispessoasenvolvidasnaquelasituacao. Nesseprocesso osindividuosinfluenciam-sereciprocamente. Porexemplo quan- dovamosaumrestauranteagimosdeacordocomnossospressupostosarespeitodoconjuntodesignificadosquefazempartedestasituacaosocial recebemosocardapio escolhemosoprato somosservidos comemosepedimosaconta. Alemdisso nosvestimosdedeterminadomodoconsi- deradoapropriado noscomportamos a mesasegundohabitosaprendidosanteriormenteefalamoscomosgarconseoutraspessoaspresentesnores- taurantededeterminadamaneira. Todasessasacoessebaseiamnaquiloquepensamosqueelassignificaraoparaasoutraspessoasqueparticipamdasituacao ouseja esperamosquenossasacoessejamentendidase res- 28Introdu c ao a sCi e nciasSociaispondidas conformeocontextosocial. Eclaroqueascoisaspodemnao funcionar domodoqueimaginamos. Podemsurgirdesentendimentosoumesmoconflitosarespeitodocomportamentoadequadoacadasitua- cao. Comisso ospressupostosquetemosarespeitodoquedeveaconte- ceremcadasituacaosocialpodemsermodificadosnapropriainteracaosocial. Todososdiasinteragimoscomdiferentespessoas emdiferentessitua- coes. Movidosporimpulsos quepodemserpraticos eroticos religiososetc. ouporpropositos dedefesa deataque deajudaetc. estamosemper- manenteconvivenciacomoutrosindividuos influenciando-osesendoporelesinfluenciadosdediversasmaneiras. Somosentaorecorrentementelevadosabuscarinteracoescomomeiodesatisfazerosmaisdiversosinte- resses criandoumaverdadeiraredederelacoesentreindividuos. Eaessarede resultadodauniaoentreindividuoseminteracao queSimmelchamade sociedade umaunidadefeitadeindividuosque movidosporseusimpulsosepropositos estaoemconstanteprocessodetroca. Nessavisao asociedadenaoealgoqueexiste acima dosindividuos tampoucoummero somatorio deindividuos. Simmelafirmaqueaso- ciedadeexisteondequerquevariosindividuosentrememinteracao oquerevelaque paraoautor ainteracaoeapropriaessenciadasociedade seuelementocentral Sociedadee assim somenteumnomeparaumcirculodeindividuosqueestao deumamaneiradeterminada ligadosunsaosoutrosporefeitodasrelacoesmutuas equeporissopodemsercaracterizadoscomoumaunidade damesmamaneiraqueseconsideraumaunidadeumsistemademassascorporaisque emseucomportamento sedeterminamplenamentepormeiodesuasinfluenciasreciprocas Simmel 2006 18. Essaperspectivaapontaaindaparaumavisaoacercadolugardosindi- viduoscomoelementosdaanalisesocial naodevemserconsideradosentesabstratos isolados massimagentesdainteracao. Emoutraspalavras osindividuosdespontamcomoelementosdareflexaosociologicadesdequesejamtomadosemrelacao. Enessesentidoqueasociologiadevesercom- preendidanaocomooestudodavidadosindividuos oquecaberia a Bio- 29UnidadeI OmundodasCienciasSociaislogiaou a Psicologia massimcomooestudodarealidadesocialformadaapartirdasrelacoesporelesestabelecidas. Tendoemvistaqueassituacoesdeterminadasporacoesreciprocasen- treosindividuossefazemedesfazemcontinuamente deacordocomassituacoescotidianasdecadaumdosagentes ficaclaroqueaperspectivadelineadaporSimmelleva a definicaodasociedadecomoalgomaleavel sempreinacabadoeempermanentemovimento. Vejamos porexemplo adinamicadodiadeumestudante aosairdecasaparair a faculdade tomarumcafenapadaria pegarumaconducaoeentrarnasaladeaula. Inumerasmicrointeracoes emdiferentessituacoesecomdiferentespessoas foramestabelecidaseencerradas. Assim aoto- marasociedadecomoresultadodessasinumerasecontinuasinteracoes Simmelacabapordefini-lacomoumprocessoinesgotaveleininterrupto comoumconstanteacontecer enaocomoalgofixoouacabado daielepreferirmesmofalaremsociacao paraenfatizaranaturezaprocessualdavidasocial. AsformassociaisPartindodopressupostodequeasCienciasSociaisestudamasociedadeeque porsuavez asociedadeeoresultadodomovimentoininterruptodein- teracoes podemosconcluir logicamente queocientistasocialdeveseocu- pardoestudoedacompreensaodetaisinteracoes. Noentanto sabemosqueacadaminutoincontaveisrelacoessaofeitasedesfeitas ligando desligandoereligandoinumeraspessoaspelosmaisdiferentesmotivos. Issonoslevaaosseguintesproblemas comodesenvolverumconhecimentoobjetivosobreasociedade umavezqueseriaimpossivelinvestigarcadaumadessasinumerasinteracoesnasuasingularidadepara apartirdeseuconjunto elaborarumareflexaoacercadotodosocial Como entao abordarcientificamenteesseobjetoquesedefineporseucaratermultiploefluido SimmelrespondeessasquestoespropondoqueaSociologiaatueapar- tirdeummetodoquesepare apenasparafinsanaliticos oconteudoeasformasdasinteracoessociais. 30Introdu c ao a sCi e nciasSociaisqOsconteudos oumaterias dainteracaoseriamtudoaquiloqueexistenosindividuos comoinstintos interesses finalidades inclinacoes esta- dopsiquicoetc. equeoslevaaoriginaracoessobreoutrosindividuosou ainda arecebersuasinfluencias. Osconteudosseriam emsuma asmotivacoesqueprovocamainteracaoepodemsemanifestarcomofome amor trabalho religiosidade medoetc. Noentanto essasmate- riasnaotemsignificadosocialporsiso abstratamente. Elassoadquiremsignificadoquandoatuamcomoconteudodeinteracoesentresujeitos. qAsformassociaisseriamasdiferentesmaneiraspelasquaisosindividuosorganizamasinteracoes deacordocomamotivacao oconteudo easituacao asconfiguracoesmomentaneasdeumcomplexodemovi- mentos. Simmeldaonomedesociacao asformasatravesdasquaisosindividuosestabelecemasinteracoesdodiaadia. Assim asociacaoeaforma realizadadediversasmaneiras naqualosindividuosconstituemumaunidadedentrodaqualserealizamseusinteresses. Antesdepassarmos a avaliacaodaspossibilidadesqueessadiferencia- caoentreformaeconteudoofereceaoestudocientificodasociedade eimportantelembrarqueessaseparacaoexisteapenasnoniveldaabstracaoanalitica. Sempreinteragimosdedeterminadaforma movidospordeter- minadomotivo emrelacaoadeterminadapessoa grupoouobjeto. Por- tanto narealidadeconcreta essasduasinstanciassaoindissociaveis naoexisteformasocialdesligadadeconteudo bemcomoumamaterianaopodeseexpressarsocialmentesemumaformaqueaveicule. Voltandoaoexemploabstratodorestaurante emborapossamosima- ginarformasgeraispelasquaisasinteracoessedesenvolvemnessasituacaosocial aatualizacaodessasformas istoe comoefetivamenteacontecem emcadacaso esempresingular. Cadavisitaacadarestaurante pormaisquepossaguardarsemelhancas ediferente. Muitasvezes comojachama- mosatencao ainteracaomodificaospressupostosquetinhamosantesdeentrarnessasituacao. Uminteresse umafinalidadeouummotivoestaosempreligadosaumaformamomentaneaespecificadeinteracao umaformasocial emcujafiguraaqueleconteudoalcancarealidadesocial Simmel 2006 61. 31UnidadeI OmundodasCienciasSociaisEntaose comoditoanteriormente eimpossiveldarcontadatotalidadedasmotivacoesqueoriginamcadaumadasinteracoesqueconstituemasociedade cabe a sociologiainvestirnoestudodasformasgeraispelasquaisaunidadesocialseviabiliza. Ouseja seoobjetodasociologiaeasociedadepropriamentedita seumetododeveprivilegiaracompreensaodasformassociaisque napratica daocorpo a expressaodosconteudosindividuais. EnessesentidoqueSimmel 2006 61 afirma Separarporabstracaocientificaestesdoiselementos formaeconteudo quesaonarealidadeinseparavelmenteunidos sistematizaresubmeteraumpontodevistametodico unitario asformasdeinteracaoousociacao mentalmentedesligadasdosconteudos quesopormeiodelassefazemsociais mepareceaunicapossibilidadedefundarumacienciaespecialdasociedadecomotal. Apartirdessafrasepodemosverquale paraSimmel opropositoeapeculiaridadedeumacienciaquetenhaporobjetoasociedade ofatodeserumestudodeterminadonaopelaanalisedeumconteudoespecifico comoeocasodaEconomia daTeologiaetc. maspeloestabelecimentodeumpontodevistaque pormeiodaabstracao privilegiaaanalisedasformassociaisquefazemcomqueasociedadesejapossivel. Nessesentido aespecificidadedaSociologiaestarianaadocaodeummetodoquepermiteaseparacaoentreosmuitosevariaveisconteudosdavidasocialeasformaspelasquaisosindividuosserelacionam. EssaperspectivanospermiteentenderporqueSimmelpreferefalarem sociacao apropriamenteem sociedade seasociacao quecorresponde asformassociaisnoseusentidoabstrato eoobjetoprivilegiadodainves- tigacaodocientistasocial esobreela enaosobreasociedade uniaoqueresultadaquelesperenesprocessosdesociacao quedeverecairofocodesuaatencao. AperspectivasociologicaporSimmelestafundadanacompreensaodequeohomemsedefineporvivereminteracaocomoutroshomens. Essaposturafazcomqueapropostateoricaemetodologicaapresentadapeloautorsejaporvezesconsideradadenaturezamicrossociologica jaquesepropoecompreenderarealidadesocialapartirdospequenosmovimentosquesesucedemeacumulamacadainstante asinteracoes enaoapartir32Introdu c ao a sCi e nciasSociaisdegrandesestruturasouinstituicoes oEstado asclassessociais afa- miliaetc. poiselassaoapenasoresultado comoque cristalizado deinumeraserecorrentesmicrointeracoescotidianas. Trata-se naspalavrasdoproprioSimmel 2006 71 dedescobrirosdelicadosfiosdasrelacoesminimasentreoshomens emcujarepeticaocontinuasefundamaquelasgrandesformacoesquesefizeramobje- tivasequeoferecemumahistoriapropriamentedita. Partindodaanalisedessespequenosfiostecidospelasinteracoes econ- siderando-ospequenaspartesdoprocessoformalmaisamplodesociacao aSociologiapode pormeiodoestudodeinstanciasaparentementetaoinsignificantes descobrir afinal oquefazcomqueasociedadesejapos- sivel. TemasparadiscussaoqUsandooexemplodaidaaumrestaurante comopodemosdesenvolverumaperspectivasociologicasobreoqueacontecenessasituacaosocial Perceber primeiro quetodosjatemosalgumavisaopreviaarespeitodoquedeveacontecernaidaaumrestaurante poroutrolado cadaexemplosingularenvolveinteracoesespecificasquepodemalterarnos- sospressupostos. Aprendemosaclassificaretipificardiversostiposderestaurante diversosmotivospelosquaisvamosaumdeles eoquees- peramosencontraremcadacaso. Explorartambemexemplosespecificosdedesentendimentos gafes incompreensoesouaprendizagemsobre comosecomportar ou comoascoisasfuncionam numrestaurante. Esteexemplopodeseradaptadoparaoutrassituacoessociais aidaaumcultoreligioso umareuniaopolitica umacerimoniafunebre umafestadeaniversarioetc. 33UnidadeI OmundodasCienciasSociaisSecaO4 Aconstrucaosocialdarealidade3AquestaodarealidadesocialNasecaoanteriorvimoscomoasCienciasSociaisseestruturaramemtor- nodoestudodeumobjeto asociedade partindodaobservacaoecompreensaodeumadimensaoespecificadeanalise arealidadesocial. Vimosaindaqueaabordagemcientificadetalobjetotemumapeculiari- dade ofatodeeleserpreviamentedotadodesignificadoparaaspessoasqueoconstituem. Issofazcomqueocientistasocialtenhadelidarcomduasdimensoesdecompreensao asuapropriaeadosagentesenvolvidosnasacoesquebuscaanalisar. UmavezcompreendidososprincipiossobreosquaissebaseiamasCi- enciasSociais adentremosagoraemumaanalisemaisdetidaacercadoob- jetodeestudo. Oquee afinal a realidadesocial Como ondeequandoelaseconforma QuaisdesuasmanifestacoessaoincorporadasaouniversodeinteressedasCienciasSociais PararesponderataisquestoeseprecisoretomarapremissaapontadaporGeorgSimmel segundoaqualaSociologiaseocupa primordialmente doestudodosindividuosemrelacaounscomoutros. Issosignificaqueoestudodasociedadesedefinepelaatencao asinteracoesestabelecidaspelosindivi- duosnocursodesuavidacotidiana apartirdasquaisseformaessetodocontinuoqueidentificamoscomo mundosocial ourealidadesocial. Per- cebemos portanto queoestudodasociedadeseamparaemtreselementosessenciaiseindissociaveis realidadesocial vidacotidianaeinteracao. Acompreensaodasociedadecomoobjetopassiveldesercientifica- menteestudadodemanda inicialmente aanalisedecadaumdessestreselementos-base bemcomodarelacaoentreeles. Assumirtalpontodepartidaimplica entreoutrascoisas admitirqueasociedadeeumprodutohumanoequeoconhecimentosobreela sejaelecompropositoscien- tificosoumeramentepraticos paraefeitosdesobrevivencia eumfatorfundamentaldoprocessodeconstrucaodotodosocial. Talconstatacao3Textodereferencia BergereLuckmann 2002 46-53. 34Introdu c ao a sCi e nciasSociaispodeparecerumtantoabstrata mas seatrouxermosparaoplanodanos- savivenciadiaria asproposicoesficam certamente bemmaisclaras. Iniciemoscomaanalisedeumdaqueleselementos justamenteoqueparecemaisimediatoeatemesmomaisconcretoentreostres anocaoderealidade. Voce sabedefiniroqueearealidade Podemosdizer demaneirabastantesimples queeaquiloqueexiste oqueestaaonossoredoreque palpavelounao sabemosqueestaali. Masseraqueessadefinicaoesufi- cienteparaentendermosoconceitode realidadesocial DeacordocomossociologosPeterBergereThomasLuckmann emseuclassicolivroAconstrucaosocialdarealidade anocaoderealdevesertomadasempreemrelacaoaoutroconceito odeconhecimento BergereLuckmann 2002 11 qarealidadeeuma qualidadepertencenteafenomenosquereconhece- mosteremumserindependentedenossapropriavolicao naopodemos desejarquenaoexistam qoconhecimentoe acertezadequeosfenomenossaoreaisepossuemcaracteristicasespecificas. Arealidadeaparece nessesentido comoprodutodeumaconstrucaoso- cialespecifica baseadanumcorpodeconhecimentoscontextualmentedeter- minadosqueareconheceenquantotal. Porexemplo aquiloqueummongetibetanotomacomo real podenaoser real paraumexecutivonorte-ame- ricano cujoconhecimentoremeteaumlequedevaloresereferenciasbastantediversodaquelevivenciadopelomonge. Seusconhecimentossaodiferentes oqueacabapordeterminarquesuasconcepcoesderealidadesejamigualmentediversas. Daipodemosconcluir comopontodepartida que qtantoarealidadequantooconhecimentosaorelativos ounaoabsolutos qtantoarealidadequantooconhecimentosaoconstruidossocialmente qessaconstrucaoeinfluenciadapelocorpodeconhecimentosdogrupoqueadefine. Porisso emvezdeafirmaraexistenciadeumaunicarealidadesuige- neris deexistenciauniversaleinquestionavel asCienciasSociaiselaboram35UnidadeI OmundodasCienciasSociaissuaobservacaoesuaanaliseemtornodaideiaderealidadesocial. Issosignificaque paraocientistasocial arealidadenaoetomadacomoumdadoemsi mascomoalgosocialmenteproduzidoepartilhadoentreosdiferentesindividuosquecompoemogrupoaoqualserefere. Eimportan- teatentarmosparaofatodequearealidadesocialdeveser pordefinicao partilhada mesmoquedeformaconflituosaoudesigual ouseja dequeumacrencaindividualnaopode nostermosdaanalisesociologica sertomadacomoarealidadesocial. Apartirdessasconsideracoespodemosnosperguntarsobreoprocessodeconformacaodarealidadesocialdeumcontextoespecifico. Comoelaseestabelece Dequemaneiraosdiferentesindividuosdeumamesmasociedadecriamrelativoconsensoemtornodaideiadoqueearealidade ApartirdaobradeBergereLuckmann podemosidentificartresetapasfundamentais a constituicaodarealidadesocial. Saoelas qexternalizacao oestabelecimentodeumarealidadesocialdependedequeosindividuossecomuniquemfisicaementalmentecomoutraspes- soasdesuasociedade ouseja dequehajainteracao qobjetivacao arealidadesocialseformaapartirdomomentoemqueossignificadossubjetivossetornamcoisasfactiveis objetivas. Porexemplo opapel-moedapassaacarregarobjetivamenteovalorquelheeconferi- dodeacordocomumsistemasubjetivodeatribuicao qinternalizacao arealidadesocialsecristalizaquandoosindividuosaelareferidosincorporamossignificadosobjetivados comoovalordopapel-moeda assuasestruturassubjetivas consciencias fazendocomquetaissignificadosconduzamsuasacoesnoprocessodeinteracao. Aexternalizacao aobjetivacaoeainteriorizacaofuncionamcomoumcicloininterrupto atravesdoqualarealidadesocialeincessantementepro- duzidaereproduzidapelosmembrosdasociedade. Noentanto oesquemaacimapropostodeixaaindaabertaaseguintepergunta comoossignifica- dossubjetivossetransformamem coisas objetivas Ou emoutraspala- vras porqueomundosocialparecerealparaaspessoasquedeleparticipam Essaquestaonoslevadiretamente a analisedosegundoelementoso- breoqualseamparaoestudodasociedade avidacotidiana. Conforme36Introdu c ao a sCi e nciasSociaisdestacamBergereLuckmann arealidadesocialcorresponde a realidadedavidacotidianaeeprodutodiretodoconhecimentoqueregeacondutadosindividuosemsuavivenciadiaria. Ou naspalavrasdosautores BergereLuckmann 2002 36 o mundodavidacotidiananaosomenteetomadocomoumarealidadecertapelosmembrosordinariosdasociedadenacondutasubjetivamentedotadadesentidoqueimprimemasuasvidas maseummundoqueseoriginanopen- samentoenaacaodoshomenscomuns sendoafirmadocomorealporeles. Porisso aindadeacordocomosautores BergereLuckmann 2002 40-41 Arealidadedavidacotidianaeadmitidacomosendoarealidade. Naorequermaiorverificacao queseestendaalemdesuasimplespresenca. Estasimples- menteai comofacticidadeevidenteporsimesmaecompulsoria. Seiqueereal. Issosignificaqueenaesferadavidacotidiana no ambitodasmicror- relacoeseinteracoesdiarias quearealidadesocialpassaaatuarcomoumrepertoriovalidoeconcretoparaseususuarios engendrandoinfinita- menteosprocessosdeexternalizacao objetivacaoeinternalizacao. Nessesentido avidacotidianacorresponde a propriarealidadeparaosindivi- duosquedelaparticipam. Issoporque independentementedascrencasecertezasindividuais nouniversodainteracaocotidianaexisteumarea- lidadeprimordial umarealidadepreviamenteordenadaeobjetivada daqualparticipamosmaisdiversosmembrosdaquelasociedade. Omundodavidacotidianaseapresentataorealparamimquantoparaosoutros eummundoemcomum. Essascaracteristicasfazemcomquearealidadedavidacotidianasejaapresentadaacadaumdenoscomoummundointersubjetivo ouseja ummundodoqualparticipamosjuntamentecomoutraspessoas. Quandosonhamos porexemplo vivenciamosumarealidadecujossignificadosdi- zemrespeitoapenas a nossaconscienciaindividual oquenaoacontecenas37UnidadeI OmundodasCienciasSociaisatividadesquetomamlugarnonossodiaadia. Nasacoescotidianas ape- sardeagirmosconformemotivacoesproprias subjetivas estabelecemosinteracoesfeitasapartirdepadroescomunsdeconduta cujossignificadosfazempartedeumarealidadecompartilhada. Eimportanteperceber noentanto queessecaratercoletivodareali- dadecotidiana quefazdelaarealidadesocial naosetraduznumahomogeneizacaodaspercepcoesdessamesmarealidade. Cadaindividuotemumaperspectivasobreomundosocialdiferentedosdemais apre- endendooselementosaseuredorconformeum aqui eum agora quedizemrespeitoapenas a suavivenciasubjetiva. Justamenteporseconstituirnummundofeitodesubjetividadesemconstantedialogoenegociacao es- tabelecidasconformeumconhecimentoeumalinguagemcomuns avidacotidianadevesertomadacomoumarealidadeintersubjetiva. Masdequemaneiraacontecemessesdialogosenegociacoesentredi- ferentessubjetividades Comoseestabeleceessaverdadeirateiaintersub- jetivaderelacoes semquesejapostaemriscoasupremaciadarealidadesocial oudarealidadedavidacotidiana Asperguntasnoslevam a analisedoterceiroelemento-baseaoestudodasociedade ainteracao. Veremos naproximasecao dequeformaBergereLuckmannabordamessaquestao. SecaO5 Interacaosocial tipificacaoeinstitucionalizacao4InteracaosocialetipificacaoPartindodoprincipiodequearealidadesocialdequetrataaSociologiacorresponde a realidadedavidacotidiana equeesta porsuavez sedefineporserpartilhadaentreeueosoutros restasaberdequemodoosoutrossaoexperimentadosnavivenciadiariadecadamembrodasociedade. Emou- traspalavras paracompreendermosarealidadesocialquetomamoscomoobjetodeestudo eprecisopensarsobreasinteracoespormeiodasquaisosindividuosconstroemsuarealidadecotidiana. 4Textodereferencia BergereLuckmann 2002 77-95. 38Introdu c ao a sCi e nciasSociaisBergereLuckmannsugeremabordaressaquestaoatravesdaanalisededuasformaselementaresderelacaoeu-outro equerepresentamosdoispolosdeummesmocontinuo asinteracoesfaceafaceeasinteracoesdeanonimato. Deacordocomosautores 2002 47 amaisimportanteexperienciadosoutrosocorrenasituacaodeestarfaceafacecomooutro queeocasoprototipicodainteracaosocial. Nessetipoderelacao duasoumaispessoascompartilhamummesmopresente contrapondo simultaneamente seus aquieagora. Haumanegociacaodiretadesubjetividades. Porexemplo nocasodeumaconversaentreAeB emqueosinterlocutorescaptamassucessivasmanifestacoeseexpressoesdooutroapartirdesuasimpressoessubjetivas numprocessosimultaneoe sobretudo reciproco AdizalgoparaBque porsuavez respondecomumsorriso areacaoprovocaumsorrisoemA oquelevaBafazerumcomentario eassimpordiante. Noentanto apesardeasrelacoesfaceafaceconstituiremomodelomaistipicodeinteracaocotidiana eserem portanto oprincipalveiculododialogointersubjetivoqueconformaarealidadesocial ofatodese- remextremamenteflexiveisfazcomqueelas porsisos naodeemcontadeimporospadroesnecessariosaoestabelecimentodeumaestruturasocial oudeumarealidadecomumaosintegrantesdaquelasociedade. Quandoconversamoscomalguem oferecemoserecebemoscontinuamenteinu- merossignificadossubjetivos oquefazcomquenossasimpressoessobreooutropossamvariarinumerasvezesaolongodainteracao. Numasituacaofaceafaceecomum porexemplo mudarmosnossaopiniaopreviasobrealguem oquenoslevaareveraexpectativainicialcomaqualnosaproxi- mamosdaquelapessoa. Dequemaneira entao arealidadedavidacotidianasemantemcomoalgovalidoecompartilhadoentreosmuitosmembrosdeumgrupo Comoepossivelidentificarumpadraoderealidadesocialsesuasubstanciamaisimediata asinteracoesfaceaface saotaosuscetiveisamudancas BergereLuckmannrespondemataisquestoesafirmandoquetodasasinteracoessaomediadasporesquemastipificadores quepadronizamasrelacoesemcursonavidacotidiana oferecendoaosinterlocutoresumcor- 39UnidadeI OmundodasCienciasSociaispopredeterminadodeconhecimentosatravesdoqualcadaumvivenciaaexperienciadooutro. Deacordocomosautores BergereLuckmann 2002 49 a realidadedavidacotidianacontemesquemastipificadoresemtermosdosquaisosoutrossaoapreendidos sendoestabelecidososmodoscomolidamoscomelesnosencontrosfaceaface. Issosignificaque antesmesmodeentraremcontatocomooutro temosprenocoessocialmentecompartilhadasquenoslevamave-loinicialmentecomoum tipo nosentidodeserrepresentanteconsiderado tipico deumgrupoquetornamosmaishomogeneodoqueasinumerasvariacoesexistentesnarealidadeparaquepossamosmelhorcompreende-la. Assim quandoestabelecemosumainteracaocomalguemquenaoconhecemos nosapegamosaclassificacoescomo mulher homem velho estu- dante comerciante adolescente europeu caipira etc. moldandonossocomportamentoconformeoqueacreditamosserascaracteristicasdacategoriaatribuidaaointerlocutor. Destamaneira ooutroesemprepercebidodeacordocomtipificacoessocialmenteconstruidas queatuamcomo padronizadores doqueacon- tecenavidacotidiana. Noentanto apesardeosesquemastipificadoresafetaremcontinuamentenossasinteracoes eimportanteperceberquetambemsaopassiveisdeseralteradosnopropriocursodainteracao. Pode- mos porexemplo nosdirigiraalguempornostipificadocomo velho e aolongodaconversa perceberqueointerlocutornaoseencaixabemnascaracteristicasqueatribuimos a categoriainicialmenteimputadaaele. Damesmaforma somosapreendidospelosoutroscomotiposepodemos nodecorrerdainteracao modificaroesquemasegundooqualfomosinicial- menteclassificados. Issomostraqueosesquemastipificadoresestaoemdialogoconstanteereciproco fazendocomquearealidadesocialsejaincessantementenego- ciadaeconstruidanocursodasinteracoesfaceaface. Eoqueacontececomastipificacoesnocasodasinteracoesmarca- daspeloanonimato ouseja aquelasemqueooutroepercebidocomoum merocontemporaneo alguemcomoqualcompartilhoapenasummesmotempoeespaco Osautoresafirmamque naimpossibilidadedanegociacaodiretaproporcionadapelainteracaofaceaface astipificacoes40Introdu c ao a sCi e nciasSociaissetornamprogressivamenteanonimas passandoasereferiratiposcadavezmaisgenericos. Apesardetodatipificacaoter naturalmente umgraude anonimidade inicial atravesdoqualmoldomeucomportamentoimediatocomrelacaoaosoutros asrelacoestravadasnocontatodiretopermitemqueostipossejamflexibilizadoseatemesmoalterados. Janasinteracoesmarcadaspeladistancia oumesmopelafugacidade nasquaisnaoexistecontatodiretoeouprolongadocomasubjetividadedooutro astipificacoestendemasemantermaisgenericaseestaticas. Daisurgemti- pificacoescomo porexemplo osinglesessaopontuais ospaulistassaoapressados osbaianossaopreguicosos asmulheresdirigemmal etc. BergereLuckmannnoschamamaindaaatencaoparaofatodequetaistipificacoesderivamdediferentesgrausdeanonimato haaquelaspessoascomquemencontroregularmentesemque noentanto estabelecaumarelacaodiretamaisprofunda comoogarcomdeumbarquefrequentoouumcolegadafaculdadecomoqualnuncaconversei aquelascomquemencontreiumavezeepoucoprovavelquevolteaencontrar comoumpas- sageirosentadoaomeuladono onibus ouaindaaquelascujaexistenciameebastanteconcreta apesardemuitodistante comoopresidentedosEstadosUnidosouumastrodofutebol. Nessesentido arealidadesocialdavidacotidiana enquantocons- trucaointersubjetiva epercebidapelosmembrosdasociedadecomoum continuodetipificacoes quesevaotornandoprogressivamenteanonimas a medidaquesedistanciamdo aqui e agora dasituacaofaceaface Ber- gereLuckmann 2002 52. Vejamos agora dequemaneiraastipificacoesconseguemoperarpadronizacoesaceitaspelotodosocial demodoacons- tituir apartirdasinteracoescotidianas a estruturasocial deumgrupo. InteracaosocialeinstitucionalizacaoPareporumminutoereflitasobreseudiaadia. Quantasdassuasacoessaorepetidascotidianamente feitasdamesmaforma numaacaoquaseautomatica Aessasatividadesfrequentementerepetidasdeacordocomumpadraochamamos habito eelaspodempermeartantoasacoesso- 41UnidadeI OmundodasCienciasSociaisciaisquantoasindividuais. Emsuma podemosdizerquetodaatividadehumanaestasujeitaaohabito. Masqualopapelsocialdohabito Porqueoincluimosdemaneirataoprofundaemnossasvidascotidianas Pensemosemumasituacaobastantetrivial osatosquesesucedementreomomentoemqueacordamoseasai- daparaafaculdade. Dovestir-seateoescovarosdentes passandopelocafedamanha cadaumadessasatividadespodeserfeitadeinumerasmaneirasdistintas. Quandorealizamoscadaumadessasacoesdeacordocomumhabitojapreviamenteestabelecido estreitamossobremaneiraolequedeopcoes livrando-nosdacargade diariamente tomardecisoessobrecomoprocederemcadaumadasetapasdarotinamatinal. Ohabitoforneceumpadraoapartirdoqualosagentesaprendem comoascoisassao semquecadasituacaotenhadeserdefinidadenovo etapaporetapa cadavezqueacontece. Portanto podemosdizerque diantedassituacoesapresentadasnodecorrerdavidacotidiana recorremosaum es- toque socialdeconhecimentoqueforneceosesquemastipificadoresparaasprincipaisrotinasquepreenchemodiaadia. Issosignificaqueastipificacoesnaoserestringemao ambitodasinteracoessociais valendotambemcomoinstrumentodepadronizacaodeacontecimentoseexperiencias. EaessesprocessosdeformacaodehabitosqueBergereLuckmannde- nominaminstitucionalizacao ouseja afirmamqueasinstituicoestemori- gemnatipificacaodeacoeshabituais. Vejamosabaixoquaissao deacordocomosautores asprincipaiscaracteristicasdessasinstituicoes. qDevemseracessiveisatodososmembrosdogruposocialemquestao. Sao portanto necessariamentepartilhadasetemnoprincipiodareciproci- dadeumelementofundamental. qTipificamosatoreseasacoesindividuais. Issosignificaqueosatoresen- volvidosnainstituicaoseraotipificadosdeacordocomsuasregras oqueserefletiranasacoesquecadaumdesenvolvera. qImplicamhistoricidade. Ouseja saocriadasaolongodeumahistoriacompartilhadapelosmembrosdogrupoqImplicamcontrolesocial. Estabelecempadroespredefinidosdecondutahumana exercendo assim controlesobreosindividuos. 42Introdu c ao a sCi e nciasSociaisUmavezobedecidosessesquatroprincipios asacoestipificadaspassamaatuarcomoinstituicoessociais. Asrotinasqueabrigamtaisacoessao entao tidascomo certas e naturais pelosatores queaspraticamdeformaquaseautomatica conferindo-lhesbaixoindicedeatencao. Eimportantetambementenderoprocessoatravesdoqualasinstituicoesseconsolidam deixandodeserumaentreastantasopcoesparafigurarcomoamaneiracorretadefazertalcoisa. Segundoosautores asinstituicoessecristalizam a medidaqueserepetemevao poucoapouco abarcandoumnumerocadavezmaiordepessoasemseuspadroesdeconduta chegandoaatuarsobrediferentesgeracoes. Conformeganhamhistoricidade asins- tituicoespassamaserexperimentadascomoalgoqueexisteparaalemdosindividuos comosepossuissemvidapropria. Comisso asinstituicoeseoshabitosqueacompoem aoseremtoma- doscomoalgo natural emesmo automatico porseusagentes acabamporapresentarumfortecaratercoercitivo jaqueparecemexistirindepen- dentementedesuasacoes. Quandonasceumacrianca omundoquelheeapresentadopelospaispareceumarealidadejadadae portanto omundosocialseapresentaaelacomoalgopronto compadroesdecondutajaes- tabelecidosedentrodosquaiseladeverasesocializar. EnessaperspectivaqueBergereLuckmanndefendemquesoepossivelfalaremum mundosocial nosentidodeumarealidadeamplaedada comaqualoindividuosedefrontademaneiraanaloga a realidadedomundonatural. Omundoinstitucionale portanto vivenciadonaexperienciacotidianacomoumarealidadeobjetiva. Dessaforma asinstituicoes bemcomonadefinicaode realidade apresentadanoiniciodocapitulo saofenomenosquereconhecemosserindependentesdenossavontade ouseja saoexte- rioresaoindividuoeresistemasuastentativasdealtera-lasoudeignora- las. Ouseja asinstituicoessaopartefundamentaldaquiloquechamamosde realidadesocial. Masnaopodemosperderdevistaque apesarda naturalidade comqueasinstituicoesseapresentamcomofatosreaisaosindividuos elassaopartedomundosociale portanto produtodasinteracoeshumanas. Nessestermos osautoresalertamparaofatodequeoprocessodeinstitucionali- 43UnidadeI OmundodasCienciasSociaiszacaooriginaumparadoxo queconsistenofatodeohomemsercapazdeproduzirummundoqueemseguidaexperimentacomoalgodiferentedeumprodutohumano BergereLuckmann 2002 87. Diantedaarmadilhadanaturalizacaoproporcionadapelainstituciona- lizacaodedeterminadastipificacoes cabeaocientistasocialteremmentequearelacaoentreohomem produtor eomundosocial seuproduto eessencialmentedialetica. Emoutraspalavras ocientistasocialdeveolharparaohomemeparaomundosocialcientedequeatuamreciprocamenteumsobreooutro. Naopodemos portanto refletirseparadamentesobreasestruturassociaiseaconscienciaindividual umavezquesaoinstanciasintrinsecamenterelacionadaseconstituem ambas fatoresdeigualimpor- tancianoprocessodeconstrucaosocialdarealidade. TemaparadiscussaoqUtilizandocomobaseaideiadetipificacaoapresentadaporBergereLuckmann pesquiseemmateriasdejornaiserevistasexemplosdetipifi- cacoessobreindividuosouinstituicoes. SecaO6 MaxWebereostiposideaisdedominacao5SobreorigornacienciaOescritorargentinoJorgeLuisBorges 1889-1986 autordeumadasmaisimportantesobrasdaliteraturamoderna escreveuumpequenopo- remmuitointeressanteconto Dorigornaciencia NaqueleImperio aArtedaCartografiaalcancoutalPerfeicaoqueomapadeumaunicaProvinciaocupavatodaumaCidade eomapadoImperio todaumaProvincia. Comotempo essesMapasDesmesuradosnaoforamsatisfatorioseosColegiosdeCartografoslevantaramumMapadoImperio quetinhaotamanho5Textodereferencia Weber 1979 128-141. 44Introdu c ao a sCi e nciasSociaisdoImperioecoincidiapontualmentecomele. MenosAfeitasaoEstudodaCartografia asGeracoesSeguintesentenderamqueessedilatadoMapaeraInutilenaosemImpiedadeoentregaram asInclemenciasdoSoledosInvernos. NosdesertosdoOesteperduramdespedacadasRuinasdoMapa habitadasporAnimaiseporMendigos emtodooPais naohaoutrareliquiadasDisciplinasGeograficas. Obrascompletas v. 2 SaoPaulo Globo 2000 OcontodeBorgestratadoslimitesdoconhecimentoemgeral daci- enciaemparticular edaimpossibilidadedeatingirmosumconhecimentoquesejaumareproducaoperfeita umacopiadarealidade. ParaBorges aciencianaodevepretendercoincidirpontualmentecomarealidade. Elaimplicasempreummovimentodereducao deselecaoeexagerodede- terminadosaspectos. Sodessaformao real podeserintelectualmenteapreendido. AcienciasocialweberianaOcontodeBorgeseaquiloquefoidiscutidonoscapitulosanterioresso- breasCienciasSociaiscomocienciasdacompreensaoeosprocessosdetipificacaoeinstitucionalizacaoinerentes a vidaemsociedadeajudam-nosamelhorcompreenderaperspectivasociologicaadotadapelosociologoalemaoMaxWeber. Weberfoiumdos paisfundadores dadisciplina. Suagrandecontri- buicao a disciplinafoiodesenvolvimentodeumolharsobreasociedade cujoenfoquerecaisobreaacaosocial rejeitandoaexterioridadedocien- tistasocialemrelacaoaoseuobjetodeestudo. Consideradacondutahumanadotadadesentido aacaosocialeoob- jetoprivilegiadodaSociologiadeWeber quelevaaocentrodareflexaoainstanciadasubjetividade. Issosignificaque naSociologiaweberiana aso- ciedadenao paira sobreosindividuosnemlhesesuperior. Aorganizacao45UnidadeI OmundodasCienciasSociaissocial nassuasregrasenormas evistacomoresultadodeumconjuntocomplexodeacoesnasquaisosindividuosescolhemdistintasformasdeconduta. Eimportantelembrarquenemtodocomportamentopodeserqualificadocomoacaosocial portantocomoobjetosociologico masapenasaquelascondutas asquaisoatoratribuiumsignificado ousen- tido proprio relacionando-ocomocomportamentodasdemaispessoas ouseja comomundosocial. Porexemplo quandoumapessoapiscasemintencao porumtiquenervosoouporcausadeumairritacaonosolhos naoexisteumacondutasocialmentesignificada poroutrolado quandoalguempiscaumdosolhoscomointuitodecomunicar-sesilenciosamentecomseuinterlocutorexisteumsimbolismosocialmentereconhecidonapiscadela que nessecaso constituiumaacaosocialpassiveldeanalisepelopesquisador. Emoutraspalavras paraWeberaSociologiaeumacienciaqueprocuraentenderaacaodosindividuosenquantocondutasocialmentesignificada. Porisso eletomaoindividuoesuasacoescomochaveprivilegiadadaana- lise evidenciandoopontodepartidaparaasuaSociologia acompreensaodosentidoqueapessoaatribui a suaconduta inevitavelmentereferidaaocontextotemporaleespacialdoagente. Ejustamenteessa enfasesobreacompreensaodossentidosconferidospelosatores a acaosocialquefazcomqueaperspectivaweberianasejaconsiderada sociologiacompreensiva ou sociologiadaacao. WebereaobjetividadenasCienciasSociaisOdominiodotrabalhocientificonaotemporbaseasconexoes objetivas entreas coisas masasconexoesconceituaisentreosproblemas Weber 1992 121. OcompromissodaSociologiaweberianarecaisobreoestudode ho- mensreais queagememcondicoessociaisemomentoshistoricosdefini- dos. IssoficaclaroemsuaafirmacaodequeaCienciaSocialquepretendepraticareuma cienciadarealidade. Ficaassimexplicitasuapreocupa- 46Introdu c ao a sCi e nciasSociais caocomaanalisederealidadesempiricasconcretas tornadassignificativasporagenteshistoricamentesituadoscujasacoescompoematotalidadedomundoasercompreendido. TaiscaracteristicasrevelamaponteentreuniversoteoricoerealidadesocialqueperpassatodoopensamentodeWeber paraquemnenhumfe- nomenopodeserexplicadoporsuaessenciaabstrata. Saoosagentescon- cretos historicamentelocalizadoseagindoconformevaloresdiversosqueconstroem demodomaisoumenosconsciente tudooqueesocialeculturalmentesignificativo. NaanalisedeWeber categoriasconceituaissociologicascomoEstado nacaooufamiliasaoformuladastendoemvistasuarelacaocomasacoessociaisconcretas. Comessapostura WeberabreasportasdaSociologiaaouniversosub- jetivodasmotivacoesevaloresindividuaissem noentanto perderdevistaocenariomaisamplodasociedadecomoumtodo. MascomomanteropostuladocientificonumaSociologiaquepartefundamentalmentedaanalisedasacoesdaspessoas AntesderesponderaessaperguntanostermosdeWeber eprecisoreforcarque paraele naohaneutralidadenoconhecimentosociologico pois qosfatossociaisnaosaocoisas. Saoacontecimentosqueocientistaperce- beetentadesvendar qtodocientistaageguiadoporseusmotivos porsuacultura porsuatra- dicao. Eimpossiveldescartar-secompletamentedesuasprenocoes masapenascontrola-las. Webernaohesitaemafirmarqueepossiveldesenvolverumconheci- mentoobjetivo cientifico semabrirmaodopostuladodequeaanalisesociologicasoeviavelsereferidaavaloreseinteresses. Oautorlembra ainda queessesmesmosvaloreseinteressesnaopodemserentendidoseclassificadossegundocriteriosobjetivos. Estariamos portanto diantedeumimpasse seoobjetodasociologiaeassumidamentesubjetivo comoextrairdeleumacompreensaoqueresponda asambicoesobjetivistasdaciencia 47UnidadeI OmundodasCienciasSociaisWebernaoencontraasolucaoparaessaquestaonaeliminacaodetodaequalquerreferenciaavaloresoupelabuscaporumolharimparcial. Tam- poucoresolveoproblemahierarquizandoouescolhendoumentreosmui- tosvaloreseinteressesemjogocomoomaisverdadeirooulegitimo. Comessasnegativas tiradasCienciasSociaisqualquerproposicaoquebusquedefinirdemodogeralqualalogicadahistoria qualosentidoestrutu- raldasociedadeouqualadinamicaultimadasacoesindividuais. Aceitarissolevaria a suposicaodeumarealidadeatemporalenaturalmentedada subjacenteedeterminantedosfenomenosempiricos. Webernaoacreditanessesdeterminantesedefendequenaoseriapossiveldefini-losdemodoobjetivo verificavelsegundoasregrasdaciencia. ArespostadeWeber a aparentecontradicaodoproblemadaobjetivi- dadedoconhecimentosociologicosesituanoplanometodologico. EnametodologiaqueaSociologiaweberianaencontrainstrumentosparaqueocientistapossaestudarfenomenosparticularesesubjetivossemperderareferenciaaotodosocialeaoprocessohistorico. Oprincipalemaisco- nhecidoinstrumentometodologicodeWebereotipoideal querespondeaduasfuncoes qselecionareexplicitaradimensaoaserestudadadoobjetoemanalise qapresentaradimensaoselecionadadeforma pura livredassuasparti- cularidadesconcretas. Comometodode construcaodetiposideais Weberpartedaacaosocial suaunidadeanaliticabasica paraalcancarunidadeslogicasmaisabrangentes. Ostiposideaissurgementaocomoguiadeorientacaoaocientistanacompreensaodaacaosocial fazendodometodoacondicaodecientificidadedaSociologiaweberiana. 48Introdu c ao a sCi e nciasSociaisOstiposideaisWeberpartedapremissadequeomundoconceitualnuncapoderadarcontadomundoreal masapenasfornecerbonsinstrumentosparacom- preende-lo. Foicomesseprincipioquedesenvolveuotipoideal ouIdeal- typ nooriginalemalemao comosolucaoparaodebateentre qumacienciasocialdetendenciaindividualistaeparticular qumacienciasocialpositivista preocupadaemdescobrirleiscientifi- casgeraisaplicaveis a dinamicadasociedade. Ostiposideaisaparecementaocomomediacaoconciliadoraentreosdoispolosdaanalisesociologica ogeraleoparticular. Aferramentadotipoidealaplica-se portanto asmultiplassituacoesconcretasdarealidadesocial taodiversasemutaveis semperdersuadimensaoparticularizante. NaspalavrasdeWeber aconstrucaodetipospermitetrabalharumaabstracaoqueconvertearealidadenumobjetocate- gorialmenteconstruido. Nessasuarelacaoinstrumentalcomomundoreal ostiposideaissaoconcebidosapartirdecaracteristicasselecionadasdeumdadofenomenosem noentanto assumiratotalidadedostracosdeumcasoparticular. Issosignificaqueotipoidealnaooperaatravesdaeleicaodeummodelojaprontoexistentenarealidadecomoexemplooumetonimia tampoucoseconfundecomumapropostadeperfeicao dedeverseroumesmoumadescricaodamedia. Emsuma ousodotipoidealcomometododeapreensaoeinterpretacaodefenomenossociaispropoereunirelementoscomuns a maioriadoscasosobservados demodoa decertamaneira acentua-lose exagera-los. Assim busca-seconstruirummodeloconcei- tualinexistentenoplanodoreal poremverossimilenquantoferramentacientificaqueauxilieacompreensaodarealidade. Obtem-seumtipoidealmedianteaacentuacaounilateraldeumouvariospontosdevista emedianteoencadeamentodegrandequantidadedefeno- menosisoladamentedados difusosediscretos quesepodemdaremmaioroumenornumerooumesmofaltarporcompleto equeseordenamsegundo49UnidadeI OmundodasCienciasSociaisospontosdevistaunilateralmenteacentuados afimdeseformarumquadrohomogeneodepensamento. Torna-seimpossivelencontrarempiricamentenarealidadeessequadro nasuapurezaconceitual poissetratadeumautopia. Aatividadehistoriograficadefronta-secomatarefadedeterminar emcadacasoparticular aproximidadeouafastamentoentrearealidadeeoquadroideal . . . Ora desdequecuidadosamenteaplicado esseconceitocumpreasfuncoesespecificasquedeleseesperam embeneficiodainvestigacaoedarepresenta- cao Weber 1986 106. Poressascaracteristicas otipoideal enquantometodo apresentasig- nificativasvantagenssobreconceitosexcessivamentegeneralizantesouabs- tratosetambemsobreosinumerosexemploshistoricosespecificos. Aocondensargeneralidadeeparticularidade oinstrumentoweberianopodeserusadotantonareflexaosobrefenomenosamplosesupra-historicos comoocapitalismo quantonaleituradecontingenciasespecificas comoarelacaoentreaeticadoprotestantismonasuarelacaocomodesenvolvi- mentodocapitalismomoderno. UmavezexpostosoobjetoeometodoporexcelenciadaSociologiaweberiana aacaosocialeaconstrucaodetiposideais respectivamente podemospartirdeumaconstrucaotipologicadoproprioautorparaexem- plificarcomoessasduasdimensoesinteragemnasuapropostadeanalisesocial. Aodividirasacoessociaisentreosquatrotiposaseguir Weberdaumaamostradecomoseuinstrumentoconceitualpodeserempregadonainvestigacaodefenomenosparticularesdemodoaprotegeropesquisadordeseperderemmeio a infinidadedeseusaspectosconcretos. qAcaoracionalrelativaaumobjeto zweckrational eumaacaoconcretacomfimespecificoesecaracterizapelaescolharacionaldemeiosade- quadosparaalcanca-lo. Ocriterioparaselecaodosmeioseexclusiva- menteacapacidadederealizacaodoobjetivotracado e nessesentido qualquermeioevalidodesdequeeficiente. Exemplos oengenheiroqueconstroiumaponte oempresarioquevisamultiplicaroslucrosetc. qAcaoracionalrelativaavalores wertrational aocontrariodotipoan- terior aquiofimaseralcancadoeumvalorquepodeterconteudoeti- 50Introdu c ao a sCi e nciasSociaisco moral religioso politicoouestetico. Aacaoeguiadaracionalmentepelosvaloresqueaorientame desdequefielaeles ocomportamentoevalidoporsimesmo. Essetipodeacaosocialpodependerparaairra- cionalidadeconformeoniveldeadesaodoatoravaloresabsolutos umavezqueseuobjetivoultimoeodepermanecerfiel a honra. Exemplos opoliticoqueprefereperderaseleicoesarenegarsuaideologia osoldadoquedecidemorreremcombateparanaoseentregaraoinimigoetc. qAcaoafetiva affektual esseeumtipodeacaonaoracional mobiliza- daporemocoesimediatas taiscomovinganca desespero admiracao orgulho medo invejaouentusiasmo. Naacaoafetivaoatorsegueumimpulsoenaoelaboraasconsequenciasdasuaacao. Ediferenteda ra- cionalreferenteavalores porque nestaultima oagenteelaboraracio- nalmenteosentidodesuaacaodemodoquesuacondutasejafielaosvaloresqueomobilizam. Aacaoafetivapartedeumareacaoemocionalemdadacircunstanciaenaoemrelacaoaumobjetivoouaumsistemadevalor. Exemplo umcrimepassional. qAcaotradicional traditional assimcomoaacaoafetiva aacaotradicio- nalnaoeracional. Editadapeloshabitos costumesecrencastransfor- madosemreflexospelapraticarecorrente. Essetipodeacaocorresponde a continuidadedeumatradicaoporsiso semqualquervinculodiretocomumobjeto valorouemocao. Exemplo pessoasquesecasamnaigrejaebatizamosfilhossemnuncateremsidoreligiosas masapenasporque todomundo ofaz. Comopodemosver otipoidealnaodescreveumcursoconcretodeacao massimumdesenvolvimento objetivamentepossivel damesma. Enessesentidoquepodemosafirmarqueotipoidealeumconceitovaziodeconteudoreal motivopeloqualnaoconstituiumahipoteseouumapropo- sicao massimumguiaparaelaboracaodehipoteseseproposicoes. Poressarazao aotipoidealnaocabemqualificacoescomo falso ou verdadeiro sendomaisadequadosadjetivoscomo valido ou naovalido conformesuautilidadeparaacompreensaosignificativadosacontecimentosestuda- dospeloinvestigador. Assim osquatrotiposdeacaosocialdescritossao segundooproprioWeber puramenteconceituaisenaosaoencontrados51UnidadeI OmundodasCienciasSociaisnasociedadeemsuaformapura. Aocontrario quandoanalisadassegundoessatipologia asatividadesencontradasnomundosocialrevelam-secon- figuracoeshibridascomgrandefluideznasfronteirasentreostipos. Podemaproximar-semaisoumenosdecadaumdostiposdeacao combinando- oscommaiselementosdeumoudeoutro. Emsuma ostiposideaisweberianossaoinstrumentosheuristicos ser- vemparaproduzirconhecimentosobredeterminadotema. Issosignificaquenaoseconfundemcomadescricaodeumaspectodarealidadeoucomumexemplodamesma. Enquantofim enaoenquantomeio ostiposideaisauxiliamnadescricaoenaexplicacaodofenomenoanalisado reafir- mandoapremissaweberianadequeaobjetividadedapesquisasociologicaestaemseumetodoenaonaobjetividadepuradosfatos. Umexemplo ostiposideaisdedominacaolegitimaEntreastantastipologiasdesenvolvidasporWeberapartirdametodologiaantesdescrita amaisconhecidadelase semduvida aquelareferenteaofenomenodadominacaolegitima. Sempreatento asacoeshumanaseseussignificadossociaisesubjetivos Weberencontrou noexerciciodopoder edoseuespelhoinvertido asubordinacao umariquissimafontedeanalise. Adominacao enquantomobilizacaodavalidadedeumaordemlegitima eonipresentenasorganizacoessociaisesemanifestasobasmaisdiversasformasconcretas correspondendoaumaclaramediacaoentreosplanosindividualesocial. Aquemseobedece Porque Qualanaturezaeaformadessaobediencia EssassaoalgumasdasinumerasquestoesenfrentadaspelaSociologiadiantedaorganizacaopolitico-socialdeumgrupo. Aousaroinstrumentodostiposideaisparaabordaressaquestao Webercentrou-senumunicoelementoapartirdoqualproblematizouadominacaocomofenomenocarregadodesignificadosocial afontedalegitimidadedopoderemexercicio. Antesdepasssarmos asdescricoesdecadaumdostiposdesenvolvidosporWeber eimportantedestacarcomoesseautorentendeadominacaodentrodospressupostosdasuaSociologiacompreensiva. SegundoWeber oconceitodedominacaodesignaaprobabilidadedeencontrarobedienciaa52Introdu c ao a sCi e nciasSociaisumaordemdedeterminadoconteudo. Ficaclaroqueessadefinicaoimplicaaexistenciadeumdominanteeumdominado numaestruturafundamen- talmenterelacionalqueressalta maisumavez oenfoqueweberianosobreasmalhasdeacoesquemedeiamadialeticaentreosocialeoindividual. Assim aocriartiposdedominacaolegitima Weberacabaporoferecertambemumatipologiadasubordinacao umavezquealegitimidadeeefetividadedaordemdependemdemotivacoesquedeterminamavontadedeobedecer. Demaneirageral podemosdizerqueaobedienciaaumaor- dem eoconsequentesucessodadominacao observadoisprincipiosbasicos qpodefundar-seemdiversosmotivosdesubmissao interesses costumeouafeto qacrencanasualegitimidadeefundamentalaoseuexercicio. Alegitimidadedaautoridadedaqualemanaaordemaserseguidaetra- tadaporWebercomoumacrencasocialcompartilhadapelogrupodispos- toaobedecer. Nessesentido aosubmeter-se a dominacaodeoutrem osindividuosagemconformeessacrenca quecorrespondeaumapredispo- sicaoaendossaropoderconcentradonasmaosdosdominantes. Apartirdessasconsideracoes oautordelineoutrestiposideaisparadescreveressefenomeno acentuandodeliberadamentecertostracosdecadaumdeles conformeaspremissasdasuametodologia. qDominacaolegal Nessetipodedominacao alegitimidadeprovemdeumpoderabstratoeimpessoal. Issosignificaqueopoderficafunda- mentalmenteligado a funcaoexercidapelaautoridade dissociando-sedapessoaqueaencarna ouseja obedece-senao a pessoaemvirtudedeseudireitoproprio mas a regraestatuida Weber 1979 129. Tipicadasorganizacoesmodernas adominacaolegalencontrasualegitimidadenacompetenciaeracionalidadecomqueefeitaaadministracao mantendo- sefielaoprincipiodeque qualquerdireitopodesercriadoemodifica- domedianteestatutosancionadocorretamentequanto a forma ibid. p128. Poressascaracteristicas podemosconsideraradominacaobu- rocraticacomoamaispuracorrespondenciadessetipoidealnarealida- 53UnidadeI OmundodasCienciasSociaisde umavezqueexaltaoprofissionalismocomoregradelegitimidade. Aestruturaburocratica portanto viabilizaadominacaolegal organi- zandoquadrosadministrativosnumerososehierarquicamentearticula- dos. Nessesentido nadominacaolegal aadministracaoetomadacomoumtrabalhoprofissional semamenorinfluenciademotivospessoaiseseminfluenciassentimentais ibid. p. 129 numadinamicaquefazdadisciplinadoservicoabasedoseufuncionamento. Exemplos aestruturamodernadoEstadoedomunicipio empresascapitalistasprivadas. qDominacaotradicional Alegitimidadeprovemdatradicao comorespos- tadosseguidores a crencananaturalidadedospoderessenhoriais. Essetipodedominacaopressupoeobediencia a pessoaimbuidadepoder naoporsuascaracteristicasindividuais esimporsuadignidadeenquantorepresentantedeumatradicaosocialmenteaceitaereafirmada. Emou- traspalavras aquiasubmissaoconfunde-secomafidelidadeaumsiste- mahierarquicopreexistente baseadonumadinamicafeitade senhores e suditos. Adominacaotradicionalencontrasuamanifestacaomaispuranopoderpatriarcal queseguiapelosprincipiosdaeticaedaboavontade mantendo-sealheio a logicadadisciplina centralnotipolegaldedominacao. Issopodeservistonacomposicaodoquadroadminis- trativo noqualosservidoressaofrequentementedependentespessoais familiares amigosetc. oupessoasligadasaodetentordopoderporvinculosdefidelidade comovassalos deixandoclaroque nessetipoideal alogicamaterialprevalece a formalnaatividadeadministrativa. Exemplos afamilia opatriarcadoruraleofenomenodocoronelismo. qDominacaocarismatica Assimcomonadominacaotradicional tambemnacarismaticaopoderepessoal referido aquelequedetemopoderenao a instituicaoqueelerepresenta. Noentanto senotipotradicionalalegitimidadeefrutodeumafidelidadeaumsistema notipocarismaticoelavemdasqualidadesexcepcionaisdolider independentementedesuaposicaoestatuidaoudesuadignidadeprofissional. Ouseja adomina- cao easubordinacao temcaraterafetivo marcadoporumadevocaoaosenhoreaseusdotessobrenaturais carisma. Essetipodedominacaoe assim compostoporumliderqueordenaeapostolosqueobedecem numadinamicaemqueaautoridadenaoderivadoreconhecimentopor54Introdu c ao a sCi e nciasSociaispartedossubmetidos. Combasenafedosseguidores alegitimidadedopodercarismaticonaoconsideraacompetenciaracionalouadignidadeprovenientedatradicao assumindoumafeicaoextremamenteconjun- tural. Issosignificaque umaveznascidodaexcepcionalidadedolider ofenomenodadominacaocarismaticasoduraenquantoocarismaqueosuscitouforcapazdemanter-sevivoemobilizaracrencadeseussegui- dores. Emsuaformapura essetipoidealtemcaraterautoritarioedomi- nador. Exemplos liderancasreligiosas profetas politicosdemagogosecaudilhos. Demaneirageral aobradeWeber voltada a viabilidadecientificadasubjetividadesociologica busca emsuasmuitasfacetasetemas perseguirumaquestaocentral anaturezasocialdomundomoderno. DiantedodesenvolvimentovertiginosodocapitalismonaEuropa acompanhadopelointensocrescimentourbanoe emsemelhantemedida pelastrans- formacoesnasrelacoesdetrabalho Weberseproposdesnaturalizareproblematizararacionalidadecomomedidauniversaldasrelacoeseor- ganizacoessociais. Munidodoprincipiodacompreensao oautoralemaoanalisouasacoessociaistransformadas emseusignificado peloavancodaeconomiademercado quetrouxeconsigofenomenoscomoaindus- trializacao oaparelhamentodoEstadoealaicizacaodasociedade. Comessapostura Weberacaboupordarcontribuicoesimprescindiveisaode- senvolvimentodasCienciasSociaiscomocampoespecificoediferenciadodeconhecimento alemdeproverimportantesesquemasanaliticosparaumaquestaocujaatualidadenuncaseesvai asingularidadedasociedadeocidentalmoderna. TemaparadiscussaoqTenteidentificar tiposideais emnoticiasdamidiaarespeitodeperso- nagenspresentesoupassadosdahistoriabrasileira. 55UnidadeI OmundodasCienciasSociaisSecaO7 Otipoidealdo homemcordial brasileiro6OBrasilpeloolhardasCienciasSociaisNassecoesanterioresvimoscomoasCienciasSociaisseconsolidaramcomocampoautonomodeconhecimentoatravesdoestabelecimentodemetodoseparadigmaspropriosaoestudodasociedade. Deixandoumpoucodeladoaabstracaodosconceitosedaspremissasmetodologicas atentemosagoraparanossapropriasociedade comoostrabalhosdaquelesestudiosos taodistantesdenosnotempoenoespaco podemajudaracompreendernossarealidade Dequemaneiraaquelasideiasseaplicamaumestudosistematicodasociedadebrasileira EimpossiveltrataraquidetodososautoresquerefletiramsobreoBra- silapartirdeum olharsociologico. Saoinumerosospensadoresquebus- caram atravesdediferentestradicoesteoricaseprincipiosmetodologicos entenderdistintascaracteristicasdasociedadebrasileira tentandodesatarverdadeirosnosquehistoricamentefazempartedanossarealidade. Comoexplicar porexemplo adesigualdadesocial Quaisascondicoesdemanu- tencaodepeculiaridadescomooclientelismoe demaneiramaisampla acorrupcaoemnossosistemapolitico Quaissaoosdeterminantesdafragi- lidadedaigualdadegarantidapornossaConstituicaoFederal Assimcomoasperguntas asrespostastambemsaomuitas. Porissonosconcentraremosaquinoexemplodeumautorespecificoque atravesdeumlivroseminal cunhouumconceitoqueacabouporsefirmarcomoumadasprincipaismatrizesinterpretativasdoBrasil. Trata-sedeSergioBuarquedeHolanda nolivroRaizesdoBrasil comoconceitode HomemCordial. Publicadoem1936 RaizesdoBrasilfoilancadonumperiododegrandemobilizacaopoliticaesocial marcadopelavitoriadaRevolucaode1930. AstransformacoestrazidaspelofimdaPrimeiraRepublica chamadapormuitosde Velha epelacrescenteurbanizacaodopaisexplicitavamten- soessociaisepunhamnaordemdodiaquestoescomoaestruturaeco- nomicabrasileira profundamentemarcadapeloconflitoentrealogica6Textodereferencia Holanda 2005. 56Introdu c ao a sCi e nciasSociaiscapitalistaeaproducaoagrariamaistradicional ofuturodademocracianacional frequentementeameacadopeloperigodoautoritarismo e emtermosmaisamplos todaadinamicasocialherdadadopassadocolonial patriarcaleescravocrata. Modernidadeeidentidadenacionalpassavamafazerpartedosdebatespoliticoseintelectuaisdoperiodo numcontextoquefezsurgiralgunsdosmaioresclassicosdatradicaodenossopensamen- tosocial. FoinessecenarioquevieramapublicoautorescomoGilbertoFreyre comaobraCasagrande senzala de1933 CaioPradoJr. comFormacaodoBrasilcontemporaneo 1942 eSergioBuarquedeHolanda comRaizesdoBrasil querapidamentedespontaramcomoosprincipais interpretes dopais apresentandoanalisesigualmenteinovadorasedeinestimavelsofisticacaoanalitica. NocasodaobradeSergioBuarquedeHolanda seuimpactodeve-se emgrandemedida adoisaspectos qoformatoensaisticodeseulivro quetraziapoucascitacoeseaderiaaumalogicamaislivredearticulacaodeideias qoempregoinovadordosprincipiosdaSociologiadeMaxWeberparapensararealidadebrasileira adaptandoametodologiadostiposideaisaumaanalisedasnossas raizes sociais. Eestesegundoaspectoquenosinteressaaqui umexemplodecomoautoresclassicosdaSociologia nocaso MaxWeber podemserapropria- dosnatentativadecompreendernossasociedade. ValelembrarquepoucoantesdeescreverRaizesdoBrasil SergioBuarquedeHolandahaviapassa- doumalongatemporadanaAlemanha ondetevecontatodiretocomasobrasdeMaxWeber. Naoedificil portanto entenderagrandeinfluenciaqueasideiasdosociologoalemaotiveramsobreopensadorbrasileiro quefezdelasopontodepartidametodologicopararefletirsobreoprocessodeformacaodenossasociedade. 57UnidadeI OmundodasCienciasSociaisRaizesdoBrasileaSociologiadohomembrasileiroApesardeprofundamentecomprometidocomaperspectivasociologica e maisespecificamente comatradicaoweberiana RaizesdoBrasilpodeserlido noseuconjunto comoumlivrosobreaHistoriadoBrasil. Issoporqueoautorbuscaemnossopassado emnossasraizes asorigensdarealidadequeencontravanopresente semprecomoobjetivodeclaradodeapontarcaminhosparaofuturodesenvolvimentopoliticoesocialdopais. Emoutrostermos podemosdizerqueSergioBuarquedeHolandasugereumaequacaonaqual paraefeitosmetodologicos oconhecimentodopassadodeveestarvinculadoaosproblemasdopresente AntonioCandi- doapudHolanda 2005 20. Masdequemaneiraoautorlevaacaboesseverdadeiroexerciciodetransposicaotemporal Comoahistoriapodeserusadanaconstrucaodeumareflexaosociologicamaisabrangente SergioBuarquedeHolandaen- contrarespostaparaessedesafioepistemologicoarticulandosuaanaliseemtornodabuscadoqueacreditavaseraessenciadohomembrasileiro Quaissaoassuasorigens Comoelesedesenvolveu Quaissuasprincipaiscarac- teristicas Esseseria paraele ocaminhoparaacompreensaodaidentidadenacionale consequentemente paraodesenvolvimentodepropostasparaofuturodanacao. EapartirdessaperspectivaqueoautorentrelacaumarecuperacaodaHistoriadoBrasilcomosprincipiosdasociologiadeWeber oqueficaclaronofatodetodaaanaliseempreendidaemRaizesdoBrasilserestru- turadaemtornodaelaboracaodetiposideais ou maisprecisamente daelaboracaodeparesdetiposideais. DeacordocomareflexaodeSergioBuarque ofator dominanteemaisricoemconsequencias dasorigensdenossasociedadeeofatodesermosfrutodatentativadeimplantacaodaculturaeuropeiaalem-mar. Issorevelaopapelcentralqueoautorconfereaoprocessodecolonizacaonaformacaodobrasileiro oqueficaaindamaisnitidonotrechoaseguir Somosaindahojeunsdesterradosemnossaterra. Podemosconstruirobrasex- celentes enriquecernossahumanidadedeaspectosnovoseimprevistos elevar a perfeicaootipodecivilizacaoquerepresentamos ocertoequetodoofrutodenosso58Introdu c ao a sCi e nciasSociaistrabalhooudenossapreguicapareceparticipardeumsistemadeevolucaopropriodeoutroclimaedeoutrapaisagem Holanda 2005 31. EnessesentidoqueSergioBuarquerecorreanossaorigemmaisremo- ta aPeninsulaIberica queenglobaPortugaleEspanha paraidentificarosprimeirostracosdoqueviriaaseroperfilsociologicodohomembrasi- leiro. Paradefinirnossosantepassadosdemodoacompreendersuaatitudebasicanomundosocial oautorapresentaoprimeiropardetiposideaissobreosquaisconstroitodaaanalisearticuladaaolongodolivro oaven- tureiroeotrabalhador. qAventureiro tipoidealrepresentadopelosibericos. Movidoporvalorescomoaaudacia aimprevisaoeairresponsabilidade oaventureiroagedeacordocomumaconcepcaoespacialdomundo. Naspalavrasdoautor essetipoidealsecaracterizapor ignorarfronteiras eporguiar-sepeloidealde colherosfrutossemplantaraarvore. Seuimediatismocorres- pondeaumcapitalismonaoracional queresultounumacolonizacaofeita comdesleixoecertoabandono. qTrabalhador tipoidealrepresentadopeloseuropeusdoNorte. Valorizaaestabilidade apaz asegurancapessoaleoesforcosemperspectivadeproveitomaterialimediato agindoconformeumaconcepcaotemporaldomundo. Otrabalhadoreaquelequeve primeiroadificuldadeavencer enaootriunfoaalcancar. SergioBuarquedeHolandapropoeessatipologiabaseadonoqueiden- tificacomodoisdiferentesprincipiosderegulacaodasatividadesdosho- mens. Essesprincipioscorrespondem narealidade aduaseticasdistintas acatolicaeaprotestante respectivamenteassociadasaoaventureiroeaotrabalhador. Paraalemdaspeculiaridadespropriamentereligiosasdecadaumadessaseticas oautorsepautanassuasrelacoescomotrabalho e demaneiramaisampla comocapitalismo paradesenvolvercadaumdostiposideaisapresentados. Deformaresumida podemosdizerqueotrabalhadorcorrespondeaotipoidealdospovosquepassarampelaReformaprotestante quetinhaen- 59UnidadeI OmundodasCienciasSociaistreseusprincipiosaexaltacaodotrabalhocomoummeiodeaproximacaodohomemparacomDeus. Jaoaventureiro tipoidealdepovosque comooportugues mantiveramocatolicismoprofundamentearraigado naosecaracterizapelavalorizacaodotrabalho eporissomantemumare- lacaomenosracionalcomadinamicacapitalista orientando-semaispeloimprovisodoquepelocalculopremeditado. TalassociacaoentreaeticaprotestanteeodesenvolvimentodocapitalismofoidesenvolvidadeformapioneiraporMaxWeber emquemSergioBuarquedeHolandaexplicita- mentesebaseianaarticulacaodoargumento comoveremosmaisadian- te nassecoes17e18. Eimportantelembrarque comotiposideais tantoo trabalhador quantoo aventureiro soexistemnomundodasideias. Saorepresentacoessupraindividuaiscujousosejustificaporseuvalorinstrumental metodo- logico. Enessesentidoqueoautorafirma Holanda 2005 44 Entreessesdoistiposnaoha emverdade tantoumaoposicaoabsolutacomoumaincompreensaoradical. Ambosparticipam emmaioroumenorgrau demultiplascombinacoeseeclaroque emestadopuro nemoaventureironemotrabalhadorpossuemexistenciarealforadomundodasideias. Mastambemnaohaduvidaqueosdoisconceitosnosajudamasituareamelhorordenarnossoconhecimentodoshomensedosconjuntossociais. Asociedadebrasileirateria deacordocomesseesquema nascidocomofrutodaeticadaaventura quefezcomqueoportugueschegasseaoBrasilembuscaderiqueza masriquezaquecustaousadia naoriquezaquecustatrabalho Holanda 2005 49. Issoexplica entreoutrascoisas ocaraterextrativistadaeconomiaaquiimplantadanosprimeirosseculosdacolo- nizacao marcadamentecomprometidocomumavisaoimediatista semplanejamentosparaolongoprazo. Mas comovimos otipoidealdoaventureirorepresentatantooportu- guesquantooespanhole portanto naoesuficienteparacaracterizarso- ciologicamenteohomembrasileiroemsuaspeculiaridades jaquesereferetambem a colonizacaodetodaaAmericaespanhola. Poressarazao Sergio60Introdu c ao a sCi e nciasSociaisBuarquedeHolandapropoeumsegundopardetiposideais osemeadoreoladrilhador operandoumadivisaodentrodotipodoaventureiro Seoaventureiroeotrabalhadorsedefinemporeticasdistintascomrelacao a racionalidadecapitalista osemeadoreoladrilhadorsaocaracte- rizadosporsuasrespectivasposturasperantearacionalidadedoempreen- dimentourbano. IssosignificaqueocriterioadotadoporSergioBuarquedeHolandanodesenvolvimentodessasegundatipologiabaseia-senaideiadecidadecomoinstrumentodedominacaocolonial. qSemeador Tipoidealrepresentadopelosportugueses. Caracteriza-sepelaausenciaquasetotaldeplanejamentoepeloinvestimentona riquezafa- cil quaseaoalcancedamao. Osemeadornaove nacoloniaumprolon- gamentodametropole esimumlugardepassagemvalidoapenascomopolodeexploracaocomercial. Talfaltade vontadecriadora setraduziu deacordocomoautor numacolonizacaoprimordialmentelitoraneanaqualascidadesnasciamaleatoriamente comosementesespalhadas. Naoha portanto nosemeador aperspectivaracionaldapermanenciaoudacriacaodeumaculturanoterritoriocolonial donderesultouumapredo- minanciadomundoruralnodesenvolvimentodoBrasilcolonia. qLadrilhador Tipoidealrepresentadopelosespanhois. Caracteriza-sepeloinvestimentonodominiomilitar economicoepoliticoatravesdacriacaoplanejadadenucleosdepovoacao. Noladrilhador operfilaventureirodo61UnidadeI OmundodasCienciasSociaisprimeiromomentodaconquistacolonialdeulugar a maofortedoEsta- do quesefezsentirnoimpetoemordenaredominarasnovasterras apartirdeumplanoinicial fazendodelasumacontinuacaodametropole. Aocontrariodosemeador essetipoidealsedefinepeloapego a ordemracionalepeladeterminacaoemsubmeteranatureza assuasvontades. Ascidadesespanholasnasciam assim daimposicaodosladrilhosdocoloni- zadorsobrea fantasiacaprichosadapaisagemagreste. Comopodemosver essesegundopardetiposideaisbaseia-senapos- turadecadaumdoscolonizadoresperanteaurbanizacao aquitomadacomoumaformadeocupacaoquedepende sobretudo davontadeedoempreendimento. SemperderdevistaqueoobjetivodeSergioBuarquedeHolandaeoferecerumacompreensaosociologicasobreoBrasilatravesdoestudotipologicodohomembrasileiropodemosnosperguntar quale afinal avalidadeinterpretativadetaisparesdeoposicao Arespostaaessaperguntaedadanocapitulo5deRaizesdoBrasil noqualoautorapresentaoconceitomaisconhecido ecertamenteumdosmaisempregados denossasCienciasSociais odeHomemCordial. O homemcordial Vimosque paraSergioBuarquedeHolanda acompreensaodasociedadebrasileirapassanecessariamentepeloestudosociologicodenossahistoria pelabuscadenossasraizessocioculturais. Vimostambemque deacordocomasduastipologiaspropostaspeloautor oBrasilefrutodeumaco- lonizacaofeitapelotipoidealdoaventureiroe numsegundoplano dosemeador jaqueamboscorrespondemaoportugues primeiramentecomoibericose depois nassuaspeculiaridadespropriamentenacionais. Assim podemosdeduzirqueo produtofinal dahistoriabrasileira seguindoametodologiaadotadanaanalise deveserumatipologiaqueresultedascaracteristicasdenossostiposdeorigem AventureiroSemeadorTipoidealdobrasileiro62Introdu c ao a sCi e nciasSociaisEnessesentidoqueSergioBuarquedeHolandadesenvolveaideiade HomemCordial obrasileirotipico frutodacolonizacaoportuguesaerepresentanteconceitualdenossasociedade. Masantesdeentendermososentidosociologicodapropostaeprecisoatentaraosentidodaexpressaoescolhidapeloautor Porque cordial Deacordocomosensocomum cordial remeteagentileza polidez etiqueta. Masseraqueessessinonimossaorealmentefieis a origemdapa- lavra aoseusentidoetimologico Vejamos Cordialprovemdapalavralatinacordialis quesignifica relativoaocoracao. Cordialis porsuavez derivadecor queemlatimdesigna coracao. EaessesentidooriginarioqueoautordeRaizesdoBrasilserefereemsuaconceituacao usandoaexpressao HomemCordial paraindicarumtipoidealcaracterizadoporagirdeacordocomum fundoemotivotrans- bordante porguiar-seconformemanifestacoesespontaneas. O HomemCordial e portanto oexatoopostodohomemafeito asboasmaneirase a civilidade quecontemsuasemocoesemnomederituaiseregrasdecon- viviosocial. Acordialidade talcomoempregadanaanalise sugere assim aversao a reverenciae a impessoalidadeeseexpressanodesejopermanentedeestabelecerintimidade pondooslacospessoais ouocoracao comointermediodasrelacoes. Acordialidadepode detalmodo virtravestidadeumapolidezaparen- te superficial quemuitasvezesseapresentacomosimpatia. Daiderivamtracoscomunsaoestereotipodobrasileiro comoagenerosidade aalegriaeahospitalidade usadoscomomecanismosdeaproximacao decriacaodeintimidadeedequebradeimpessoalidade eque portanto saomani- festacoesdacordialidade. Pensemosnonossodiaadia. Quaissao deacordocomascaracteris- ticasapontadas asmanifestacoescotidianasdessacordialidadeanalisadaporSergioBuarquedeHolanda Oautordestacaoempregorecorrentedediminutivos inho comomeiodefamiliarizacaocompessoasecoisas atendenciabrasileira a omissaodonomedefamilia sobrenome notra- tamentosocial e nocamporeligioso ainformalidadeperanteosagrado 63UnidadeI OmundodasCienciasSociaisque permitetratarossantoscomumaintimidadequasedesrespeitosa Holanda 2005 163. Podemosconcluir assim queoHomemCordialcaracteriza-sefundamentalmentepelarejeicao asdistanciaseaoformalis- monasrelacoessociais. Dequemaneira entao oHomemCordialemergecomoresultadodacolonizacaorealizadapelostiposdoaventureiroedosemeador Ou parapensarmosemtermossociologicos oqueoHomemCordial enquantotipoideal nospermiteinferirsobrenossasociedadeeseusmecanismos Umavezcompreendidosaescolhaeosignificadodaexpressaousadapeloautor busquemosagoraentenderseualcanceanalitico. Otrechoqueabreocapitulo Ohomemcordial ofereceumaboadicasobreosentidointerpretativoadotadonaconstrucaodoconceito Holan- da 2005 141 OEstadonaoeumaampliacaodocirculofamiliare aindamenos umaintegra- caodecertosagrupamentos decertasvontadesparticularistas dequeafamiliaeomelhorexemplo. Naoexiste entreocirculofamiliareoEstado umagradacao masantesumadescontinuidadeeateumaoposicao. Ora comovimosanteriormente acolonizacaodoBrasilfoifeitaapartirdodesleixodoaventureiroedafaltadeinvestimentoemdominioestatalporpartedosemeador numacombinacaoquefezcomquenos- sasociedadeseorganizasseprecisamenteapartirdosinteressesfamiliares privados. Deixandodeestabelecerumaestruturapolitica economicaemi- litarnacolonia ereduzindo-aaostatusdepolocomercial osportuguesesacabarampornaodesenvolveraquiumaesferapublicaquetomasseparasiocontroledasfuncoesdoEstado. Aonaosefazerempresentescomoau- toridadeestatal deixaramvaziososespacosdeatuacaodopoderpublico permitindoquefossemocupadosporiniciativasparticulares. Talconfigu- racaosetraduziunaformacaodeumasociedadeprofundamentemarcadapeladificuldadededistincaoentreosuniversosdopublicoedoprivado oquefezcomqueafamiliaassumisseopapeldereferenciamoralparaalemdo ambitodomestico. 64Introdu c ao a sCi e nciasSociaisDessaforma asatitudeseprincipioscarosaouniversointimodafami- liaacabaram nocasobrasileiro portransbordarparaaesferapublica fa- zendocomqueoEstadoaquiseconformasseapartirdecaracteristicasquedeveriamseralheias a suanaturezaburocratica. EnessesentidoqueSergioBuarquedeHolandasugereaclassificacaodoEstadobrasileirocomo pa- trimonial numaclaraalusao a diferenciacaofeitaporMaxWeberentreburocraciaepatrimonialismo acercadostiposideaisdedominacao versecao6. qOpatrimonialismoseenquadranotipoidealdedominacaotradicional. Nosestadosregidosporesseprincipio agestaopoliticaetomadaporseusfuncionarioscomoumassuntodeinteresseparticulareaconfiancapessoaleoprincipalcriterioparaaescolhadoshomensqueiraoexercerasfuncoespublicas exemplos cargodeconfianca nepotismoetc. . qAburocraciaeoprincipioordenadordotipoidealdedominacaolegal. Nosestadosburocraticososprincipiosordenadoressaoaimpessoalida- deearacionalidade eaescolhadosfuncionariosefeitadeacordocomsuascapacidadesproprias. Comopodemosver numasociedadeorganizadasegundoalogicapatri- monialoshomenspublicosatuamnaesferaestataldeacordocomregrasevaloresdaesferadomestica transportandooslacossentimentaisefamilia- resparaoambientedoEstado. Assim ondedeveriamreinarosprincipiosdaracionalidadeedaimpessoalidadeacabamporimperarcriterioscaros a cordialidade nosquaisocoracao enaoarazao estanocomandodasrelacoessociais. Vemos portanto queoconceitodeHomemCordialsepresta a com- preensaodeumasociedadecujaordenacaosepautanumaindiferenciacaofundamentalentrepublicoeprivado. Resultadododesenvolvimentopre- carioetardiodaurbanizacaobrasileira emfuncaodalogicadosemeador acordialidadesurge entao dapreservacaodopoderdascelulaspatriarcais familiares em ambitosquedeveriamserdedominioexclusivamentees- tatal. OHomemCordial tipoidealdobrasileiroeprodutosociologicodenossahistoria e nessestermos osimbolodeumasociedadebaseadano65UnidadeI OmundodasCienciasSociaispredominiodasrelacoeshumanasdiretas quesetraduznumaculturadefortestracospersonalistasepatrimonialistas. Dessamaneira aocontrariodoquepodesugerirosentidomaisco- mumdaexpressao oconceitodeHomemCordialeapresentadocomoumtracoproblematicodenossanacionalidade. Issoporque aoprezarpeloper- sonalismoemdetrimento asregrasabstrataseimpessoais acabaporferirosprincipiosdahorizontalidadeedaigualdade taocarosaodesenvolvimentodacidadaniaedademocracia e emtermosmaisamplos a consolidacaodeumEstadopropriamentemodernoeeficaz. NasociedadedoHomemCordial naqualoespacopublicoetomadocomoumprolongamentodoespacoprivado fenomenoscomoocoronelismo oclientelismo onepotis- mo o jeitinho eacorrupcaopoemosinteressespessoaisacimadobemcomum. Escrevendoem1936 SergioBuarquedeHolandaacreditavaqueacordialidadeseriasuperadacomoavancodaurbanizacao quelevariaaoprogressivodesenvolvimentodaimpessoalidadenasrelacoespessoais Ho- landa 2005 145 odesenvolvimentodaurbanizacao quenaoconsisteapenasnodesenvolvi- mentodasmetropoles masaindaesobretudonaincorporacaodeareascadavezmaisextensas a esferadainfluenciametropolitana ohomemcordialseachafadadoprovavelmenteadesaparecer ondeaindanaodesapareceudetodo. Aurbanizacao frutodiretodaindustrializacao seria assim umgolpefatalnasrelacoescalcadasnacordialidade fazendocomqueessetracohisto- rico-culturalficasseesquecidonumpassadodearcaismoeruralismo. Pense- mossobreoBrasildehoje. Podemosdizerquea profecia secumpriu TemasparadiscussaoqO nepotismo napoliticaseriaumexemplodoqueSergioBuarquedeHolandafalasobreadificuldadeemsedistinguirosdominiosdopubli- coedoprivado 66Introdu c ao a sCi e nciasSociaisqAexpressao Voce sabecomquemestafalando seriacaracteristicado homemcordial qGeralmentetendemosaverapenasoladonegativoda burocracia. Contrastadocomomundodominadopelopatrimonialismo noqualpredominamasrelacoespessoais quaisseriamascaracteristicaspositi- vasdaburocracia UnidadeiiAconstrucaodaidentidadesocial relacaoentreindividuoesociedadeqConjuncaoentretrajetoriapessoaletempohistorico nocaodecampodepossibilidades. qOprocessodesocializacao. qSocializacaoprimaria afamiliaeainteriorizacaodarealidadenainfan- cia. qSocializacaosecundaria. qMemoriaeidentidadesocial. qDisciplinaeenquadramentodosindividuos. qNorma desvioedivergencia aimposicaoderegrasesuastransgres- soes. 68Introdu c ao a sCi e nciasSociaisSecaO8 Trajetoriapessoaletempohistorico7IndividuoesociedadeNaunidadeanteriorvimoscomoomundodasCienciasSociaissediferen- ciadouniversodeconhecimentodasCienciasNaturaisatravesdadelimi- tacaodeumobjetoedeumametodologiaproprios. Vimostambemquaissaoaspeculiaridadeseaspremissasdeanalisedaquiloqueconhecemoscomonossavidacotidiana eque paraaquelesqueestudamasociedade seapresentacomoa realidadesocial. Agora jamaisfamiliarizadoscomosobjetos objetivoseprincipiosqueordenamtodoessecampodeconheci- mento passemosaoestudodeumadimensaoimportantissimadentrodasCienciasSociais arelacaoentreindividuoesociedade. Emmaisdeumadassecoesanteriores temascomoainteracaosocialeaconstrucaosocialdarealidadetocaram aindaquebrevemente naquestaodadialeticafundamentalqueregeadinamicaentreotodosocialeosindi- viduosquedelefazemparte. Nessasecaoenasqueseseguemexploraremosessaproblematicadeformamaisdetida atentandoparaosmecanismosdeconstrucaoda IdentidadeSocial ouseja analisandoosmeiospelosquaisosindividuosconstroemsuasmemorias trajetoriasepersonalidadesindividuais empermanenteinteracaocomomundosocialaoseuredor. Comecemoscomumareflexaoacercadarelacaosociologicaentreastraje- toriaspessoaiseotempohistoricodoqualfazemparte. Voce japensoucomoseriaternascidoemoutraepoca Jaimaginoucomoseriavivernumtempodevaloreseideiascompletamentediferentedosnossos permeadoporpossibilidadeseopcoesimpensaveisparaosdiasdehoje Reflitaporummomentosobrecomoseriavivernummundonoqualasmulhereseramimpedidasdetrabalhar ouatemesmodeestudar. Ouentao porexemplo numtempoemquenaohouvesseliberdadedeexpressao oumesmonumaepocadeguerra quandotodasasprioridadesficassemvoltadas a garantiadecondicoesminimasdesobrevivencia. Sua7Textodereferencia Hughes 2005 163-173. 69UnidadeII Aconstrucaodaidentidadesocialvidacertamenteseriabastantediferente assimcomosuasvontades suasambicoeseseusprojetos. Emresumo suaidentidadesocialseriainevitavel- menteafetadapelascondicoesoferecidasporaquelescontextos. Hojeemdia porexemplo umajovemde18anosdeidadepodeso- nharemestudaradministracaodeempresas emespecializar-seemgran- destransacoesnomercadofinanceiroeemtrabalhardesuapropriacasaatravesdainternet. Taisplanossaoperfeitamentepossiveisnummundonoqualasmulheresconcorrememcondicaodeigualdadenoingresso asuniversidades omercadodeacoesmobilizaaeconomiae finalmente uminstrumentocomoainternetpermitequesepossatrabalharemqualquerlugarondehajaconexao. Ouseja emnossomundosocialtalprojetoeperfeitamenteviavel. Essasconsideracoesapontamparaalgoque decertaforma fazpartedosensocomum masque seanalisadonostermosdeumareflexaosocio- logica podenosdaralgumaspistasimportantessobrearelacaoindividuo sociedade ofatodequenossosprojetosetrajetoriasnaodependemapenasdenossasvirtudesedesejos masestao emgrandemedida condicionadospelocontextosocialdoqualfazemosparte. Essapercepcaoarespeitodocruzamentoentretrajetoriapessoaletem- pohistoriconaoenova. Aparece porexemplo numapassagemdeOprin- cipe 1513 deNicolauMaquiavel 1469-1527 umdosmaisimportanteslivrossobrepoliticajaescritos. EmseucapituloXXV Maquiaveltratadamedidaemquenossasvidassaoresultadodaconjuncaoentreafortuna istoe oacaso asorte fenomenosquenaodependemdenossavontade eavirtu literalmente virtude quecorresponde a parceladelivre-arbitriodequedispomos Julgopoderserverdadequeasortesejaoarbitrodametadedasnossasacoes masqueaindanosdeixegovernaraoutrametade ouquase Maquiavel 2010 99. Procuraremos aseguir darumafunda- mentacaosociologicaaessapercepcaodeMaquiavel. ProjetosecampodepossibilidadesUmavezadmitidoqueomundosocialquenoscercatemgrandeinfluen- ciasobrenossasvidas pensemosumpoucosobrecomosedaoprocessode70Introdu c ao a sCi e nciasSociaisconstituicaodaidentidade. Oqueeaidentidadedeumindividuo Comoelaseconforma Partindodoprincipiodequearelacaoentreoindividuoeasociedadesedaemtermosdialeticos marcadaporumainfluenciare- ciprocaeincessante naoedificilperceberporque paraocientistasocial oestudodaidentidadeeinevitavelmenteremetidoaoseucaratersocial. Emoutraspalavras podemosdizerqueoestudodaindividualidadeedaidentidadepessoalinteressaparaasCienciasSociais a medidaqueelaeconsideradaprodutodeumdialogoentreaspulsoessubjetivasdecadaumeascondicoesoferecidaspelaestruturasocialdentrodaqualsemovem. Porisso paraocientistasocial aidentidadee sobretudo umaidentidadesocial. DeacordocomoantropologobrasileiroGilbertoVelho essasques- toespodemserentendidasnostermosdosconceitosdeprojetoecampodepossibilidades. Utilizadascomoinstrumentosdeanalise taisnocoespermi- temumaaproximacaoaouniversodasrelacoesentreindividuoesociedadeatravesdeumaperspectivaqueprivilegiasuareciprocidadee sobretudo suaindissociabilidade. Oconceitodeprojetopodeserdefinido emtermosamplos comouma condutaorganizadaparaatingirfinalidadesespecificas Velho 2003 40. Ouseja correspondeaumconjuntodeacoesindividuaisarticuladasemtornodeumobjetivomaisoumenosclaroparaseuagente. Apesardeoprojetoenvolver emtodososseusniveis aconscienciadequemovivencia elenaoe denenhumamaneira frutodeumcalculoracional. Issosignifi- cadizerqueeleenvolveemocoes valoresepreconceitos apresentando-secomofrutodeumasubjetividadeprofundamenteremetidaaomundoso- cialdoqualfazparteseuagente. Emoutraspalavras podemosdizerqueoprojetoedesenvolvidonumprocessodeinteracaosocial. Issoficamaisclarosepensarmosquequalquerprojeto pormaispes- soalqueseja deveencontrarumsignificadosocialparaquepossaserco- municadoe principalmente efetivado. Imagine porexemplo ajovemanteriormentemencionada cujoprojetoeraodetrabalharnomercadofinanceiroviainternet. Seusplanos pormaisindividuaisquesejam foramelaboradosdentrodeumuniversosocialnoqualaqueleselementostemumsignificadobastanteevidente. Seessamesmajovemfosse poralguma71UnidadeII Aconstrucaodaidentidadesocialrazao vivernumatriboindigenasemcontatocomaculturaocidental aqueleprojetonaoencontrarianenhumacorrespondenciacomomundosocialaoseuredor noqualosvalores significadoseatemesmoascondi- coesmateriaisnaopermitiriamqueeletransbordassedavontadeindividualparaarealidadesocial. Ouseja umprojetosopodeserpostoempraticaseseusentidonaoselimitar a subjetividadeindividual articula-se portanto noplanodaintersubjetividade Pormaisveladoesecretoquepossaser eleeexpressoemconceitos palavras categoriasquepressupoemaexistenciadoOutro. Mas sobretudo oprojetoeuminstrumentodenegociacaodarealidadecomoutrosatores individuosoucoletivos Velho 2003 103. Percebemos assim queoprojetoultrapassao ambitopuramenteindi- vidual apresentando-secomoalternativaviavelapenas a medidaquedia- logadiretamentecomosparametrosdarealidadesocialdaqualseusujeitofazparte. TaisparametroscorrespondemaoqueGilbertoVelhoidentificacomocampodepossibilidades conceitoqueserefere asalternativasconfigu- radaspeloquadrosocio-historicoeculturaldecadasociedade dentrodasquaissedesenrolamastrajetoriasindividuais. Ocampodepossibilidadesatua portanto comoumaespeciedemoldu- radentrodaqualseconformamasdiferentesidentidadesdentrodeumgruposociale porconseguinte seusmultiplosprojetos. Podemosdizer assim queoprojetoefrutodeumadeliberacaoindividualque apesardeconsciente temeficaciaecomunicabilidadecondicionadasaocampodepossibilidadesnoqualoindividuoestainserido. Emresumo essesconceitospermitempensarastrajetoriasindividuaiscomofrutodarelacaoentreosprojetospessoaiseomundosocial. Aiden- tidadeemerge destaforma comoprodutodeumprocessodepermanenteconstrucaosocial sendoelaboradanostermosdeumdialogoininterruptoentreindividuoesociedade. Umavezapresentadoouniversoteoricoeconceitualmaisamploquebalizaessasquestoes vejamos agora ascorrespondenciasmaisimediatasentreastrajetoriasdevidaeotempohistoricodentrodoqualtranscorrem. 72Introdu c ao a sCi e nciasSociaisCarreiras trajetorias ciclosdevidaDequemaneiranossasvidaspodemsertomadasenquantoobjetodeanalisesocial Emquetermosnossasbiografiasindividuais comsuastantasidasevindas servemcomopontodepartidaparaumareflexaomaisamplaacercadomundosocialdoqualsomosparte Essaspergun- tasnosremetemdiretamenteaouniversodequestoesquepermeiamadialeticaindividuosociedade masapontamdiretamenteparaarelacaoentreduasdimensoesmuitocaras a nossarealidadecotidiana tempohis- toricoetrajetoriapessoal. Todohomemnasce viveemorrenumtempohistorico. A medidaqueelepercorreociclodavidacaracteristicodanossaespecie cadafasedesseciclosejuntacomeventosnomundo Hughes 2005 163. Afraseacima escritapelosociologoamericanoEverettHughes ebas- tantesimpleseexpressaumaideiafamiliaratodosnos adequenossavidaecompostaporsucessivosciclosque emmeioaoseventospropriamentebiologicosqueosdeterminam transcorremdentrodeumatemporalidademaisampla compartilhadacomomundosocialaonossoredor. Tentemos contudo suplantaranaturalidadecomqueincorporamosessaspremissasemnossocotidiano transpondo-asparaoplanodaanalisesociologicae maisprecisamente daproblematicadaconstrucaosocialdaidentidade. EverettHughes emseutexto Ciclos pontosdeinflexaoecarreiras empreendetalexerciciode desnaturalizacao sugerindoumaabordagemsociologicamenteorientadaarespeitodaconjuncaoentreosciclosdevida nossatrajetoriapessoaleotempoemquevivemos. Dispostoaanalisaras juncoesdavidadeumhomemcomeventos pequenosegrandes oautordestacaocaratersocialdosmarcosqueentrecortamedefinemosciclosdevidaemumasociedade lembrandoquesao antesdetudo relativosaocontextoculturalqueosdefine. EsseinteressedeHughespelaanalisesocialdastrajetoriaspessoais queficouconhecidocomo metodobiografico setraduz noreferidotexto numareflexaoacercadanocaode ciclo emsuasmultiplaspossibi- lidades ciclonatural ciclobiologico ciclodeposicoessociais etc. . Entendendoavidacomoumatotalidadecompostaporetapassucessivas73UnidadeII Aconstrucaodaidentidadesocialordenadasatravesdotempo Hughespensasobreosmarcosquedefinemapassagemdeumaetapaparaaoutraemdiferentessociedades oschama- dospontosdeinflexao ou nooriginalingles turningpoints atentandoparaosvariadoscriteriosquedefinemofinaldeumcicloeoiniciodeoutronastrajetoriaspessoais. Emnossasociedade porexemplo avidatranscorreemcicloscrono- logicoscompostosporfaixasetariasmaisoumenosdefinidas infancia adolescencia vidaadulta velhice e emgrandemedida emciclosrefe- ridos a vidaprofissional estudante estagiario empregado aposentado. Masseraqueepossiveldeterminarcomprecisaoquandoumapessoadeixadesercriancaepassaafazerpartedomundoadulto Qualopon- todeinflexaoquedeterminaessapassagem Paraalgunseumaquestaoquedizrespeitoapenasaodesenvolvimentobiologicodecadaum paraoutrosavidaadultateminiciocomoingressonauniversidadeou ainda comoiniciodavidaprofissional. Jaemcertosgrupos ofinaldainfanciatemmomentopredeterminadoparaacontecer osjudeus porexemplo marcamainiciacaodavidaadultacomumacerimonia obarmitzvah queaconteceaos12anosparaosmeninoseaos13paraasmeninas batmitzvah nessecaso. Percebemos assim quetodasassociedadestemfasesepontosdein- flexaovariadosentresi poremmaisoumenosprevisiveisparaavidadeseusmembros. Hughesnosalertaaindaparaofatodequeosciclosquedeterminamoritmodocursodavidapodemsertantoindividuaisquantocoletivos. qOscicloscoletivosobedecemaoestabelecimentodeumcalendarioso- cialespecifico quepreve osritosquemarcammomentos-chaveparacadacultura exemplos natal reveillonetc. . Demaneirageral essesritosproporcionamsentimentodeseguranca jaquecorrespondemaumavivenciapartilhadacomoutrosindividuos. qOsciclosindividuaissesucedemdeacordocomritosdepassagemquemarcamavidadosmembrosdasociedadedeformaindividualizada exemplos nascimento casamento morteetc. . Essesritoscorrespon- dem a expressaoinstitucionalizadadecertossentimentosassociados a 74Introdu c ao a sCi e nciasSociaispassagemdeumstatussocialparaoutro esaovivenciadosporcadaindividuodeformamaisoumenosdistanciada. Emambososcasos osciclossaodeterminadosporpontosdeinflexaosocialmenteestabelecidoseque portanto tambemestabelecemumelobastantesolidoentreaexperienciasubjetivaeacoletividade ouentreotempohistoricoeatrajetoriapessoal. Eimportanteatentartambemparaofatodequeasfaseseosmarcosdavidasocialnaosao deformaalguma imutaveis. Tantoosciclosindividuaisquantooscoletivospodemseraltera- dospormudancassociais tendosuaduracao seusignificadoeseuspontosdeinflexaomodificados. Aampliacaodaexpectativadevidadoserhumanoaolongodasultimasdecadas porexemplo temgeradoumaprofundareestruturacaonosciclosdeterminadospelatrajetoriaprofissional. Issoserefletetambemnumamu- dancanapropriaconcepcaode velhice senoiniciodoseculoXXumhomemde60anosestavairremediavelmenteclassificadocomo velho hojeemdiapode semdificuldade fazerpartedapopulacaoconsiderada madura ou simplesmente adulta. Nocasodoscicloscoletivos essastransformacoespodem comosugereHughes sernotadasemmovimentosrevolucionarios politicosoureligio- sos que emgeral procuramrompercomocalendariosocialanterior. TomemoscomoexemploocasodaRevolucaoFrancesa quandoosres- ponsaveispelanovaordemdeterminaramaalteracaodosnomesdosdiasdasemanaedosmesesdoano buscandoesvaziarosignificadosocialdaantiganomenclatura. Masporqueessapreocupacaotaoprofundacomocalendario Hughes 2005 169 respondeaessaquestaoafirmandoque Ocalendarioeaurdiduradotecidosocial percorrendolongitudinal- menteotempoecarregandoepreservandoatrama queeaestruturadasrelacoesentreoshomenseascoisasquenoschamamosdeinstituicoes. Emoutraspalavras comosistemasinstitucionalizadosdeorganizacaodosciclosindividuaisecoletivosdasociedade oscalendariosatuamcomoverdadeirosportadoresdamemoriasocial. Issoporque atravesdeles astrajetoriasindividuaistranscorremdentrodeumaestruturacompostaporciclos e portanto significados socialmentecompartilhados. Pode- 75UnidadeII Aconstrucaodaidentidadesocialmosassimperceberqueastrajetoriaspessoaisseconstroemnumaperma- nenteinteracaocomotempohistoricodentrodoqualsedesenvolvem. Entreoscicloscoletivoseindividuais eentreostantoscriteriosquedeterminamospontosdeinflexaoquepontuamocursodeumabiografia construimos poucoapouco aquiloqueHughesidentificacomocarreira. Estetermo cujosignificado nosensocomum remeteaosrumostomadosnavidaprofissional eusadopeloautorcomoumconceitoqueenglobaosmuitosciclosquemarcamatrajetoriadeumindividuo profissional bio- logico afetivoetc. . Aideiadecarreira talcomoformuladaporHughes correspondeaoconjuntodeetapasordenadasquecompoematrajetoriasingulardecadaindividuo istoe umacarreiraeumciclodevidapercorri- dodentrodeumasociedadeespecifica aolongodedeterminadotempo. Podemosperceber emsuma quetantoosconceitosdeprojetoecampodepossibilidadesquantoaideiadecarreirapermitempensaraquestaodaidentidadeedatrajetoriaindividuaisnostermosdeumaanalisesociolo- gica. Atravesdessesinstrumentosteoricos biografias valoreseescolhaspessoaisdespontamcomoelementosque adespeitodaaltacargadesubje- tividadequeosdefine oferecemimportantesperspectivassobreomundosocial. TemasparadiscussaoqPensardiferentestiposde rituaisdepassagem emnossasociedade situacoesemquehamudancadestatussocial passagemdeumasituacaoaoutra casamento servicomilitar iniciacaoreligiosa trotenafaculdadeetc. qPensarcomoessesrituaisdepassagemmudaramcomopassardotempo. qOsanos1960ficaramfamosospelosmovimentosdecontraculturaqueseopuseramadiversoscomportamentos tradicionais repressaosexual usodedrogas formasdesevestirecomportar oposicaoaoservicomi- litaretc. Qualseriaoequivalente hoje dessesmovimentos 76Introdu c ao a sCi e nciasSociaisSecaO9 Identidadeesocializacao8IdentidadeeprocessosocialUmavezdiscutidodequeformaastrajetoriasebiografiaspodemserpensa- dasnostermosdarelacaoindividuosociedade vamosagoraanalisaroutroaspectodessemesmouniversodequestoes aformacaodaidentidade. Atequepontonossaspredisposicoesindividuaissaomoldadaspeloentornosocial Dequemaneiraoambienteemquecrescemosevivemosinfluenciaaconstituicaodaidentidadedecadaum TaisperguntaspodemparecerumtantoabstratasededificilrespostapelasCienciasSociais afinal eimpossivelacompanharcadapessoaindividualmenteparaavaliar casoacaso oprocessodeformacaoidentitaria. Noentanto seficarmosatentos ascaracteristicasdosprocessossociaisemjogo podemosabordaraidenti- dadecomoalgoquenascefundamentalmentedoentrelacamentoentreasdisposicoesindividuaisearealidadesocial. Antesdepassarmos a reflexaopropriamentesociologica valerelembrarosentidodessapalavraquenosetaocomumemdiferentesaspectosdoco- tidiano identidade. Deacordocomosdicionarios essetermoserefereaoconjuntodeelementosquepermitemsaberquemumapessoae ouseja indicaareuniaodecaracteristicaspropriaseexclusivasdeumindividuo taiscomonome profissao sexo aspectofisico impressoesdigitaisetc. quesaoconsideradasquandoeleprecisaserreconhecido. Poroutrolado aidentidadepodeapontartambemaconscienciaquecadaumtemdesi aquiloquesubjetivamenteacreditamosserocernedenossaindividualida- de. Vemos portanto queosvariadosusosdapalavrasugeremodestaqueeomapeamentodaspeculiaridadesdecadapessoa ressaltandoprecisamen- tesuasdiferencascomrelacaoaosdemaismembrosdasociedade. Partirdestaconstatacaoimplica naturalmente aelaboracaodeques- tionamentosacercadavalidadedoestudodaidentidadecomomeiodereflexaosobreotodosocial seaidentidadeejustamenteaquiloquecadaindividuotemdeparticular deexclusivo dequemaneirapode8Textodereferencia BergereLuckmann 2002 173-195. 77UnidadeII Aconstrucaodaidentidadesocialserutilizadacomoobjetodeanalisesociologica queprivilegiaprecisa- menteoestudodasociedadecomoumtodo Maisumavezarespostaaessequestionamentoremete a dinamicacomplexaentreindividuoesociedade que conformeditoemsecoesanteriores caracteriza-sepelareciprocidadee sobretudo porumarelacaoessencialmentedialetica. Comoveremos nocasoespecificodousodaidentidadecomoelementodeanalisesocial essaproblematicapodeserbastanteelucidadapelosestudosdePeterBergereThomasLuckmannarespeitodaconstrucaosocialdarealidade. Nassecoes4e5 observamoscomoessesautorespartemdarelevanciadasinteracoescomomateria-primadasociedadeparaarticularumainte- ressantereflexaosobrearealidadeenquantoprodutodaconstrucaosocial. VimosaindaqueBergereLuckmannafirmamqueoprocessodeconstru- caodarealidadepelainteracaoentreoshomensobedece demaneirageral aumciclocompostoportresmovimentossimultaneoseininterruptos aexternalizacao aobjetivacaoeainteriorizacao. Enessesentidoque sereferindoespecificamenteaocaraterdialeticoquemarcaainsercaodecadamembroindividualnasociedade osautoresdefendemquecadaum ex- teriorizaseupropriosernomundosocialeinteriorizaesteultimocomorealidadeobjetiva BergereLuckmann 2002 173. Afrasedeixaclaraaideiadequeosindividuoseomundosocialin- fluenciam-seconstanteereciprocamente masnaoelucidacomosedaoprocessodeinsercaodoindividuonadinamicadescrita. Ora sabemosqueasociedadeeanterioreposterior a trajetoriadetodosnos istoe quejaexistequandonascemosesegueexistindodepoisquemorremos. Restaentaosaberdequemaneiracadaum individualmente tomalugarnessefluxocontinuoqueearealidadesocial atuandosobresuaconformacaoe emigualmedida sendoporelaconformado. Eclaroquecadasociedade ouatemesmocadagrupodentrodeumamesmasociedade temformaserituaispeculiaresquemarcamachegadadeumnovomembro. Obatismo acircuncisaoouatemesmootroteuniversitariosaoalgunsexemplosdecomoachegadadenovosindividuosadeterminadarealidadesocialimplica destarte umprocesso78Introdu c ao a sCi e nciasSociaisdeaprendizadosobreamesmaporpartedosnovatos. AseguintefrasedeBergereLuckmann 2002 173 marcabemessaideia Oindividuonaonascemembrodasociedade. Nascecomapredisposicaoparaasociabilidadeetorna-semembrodasociedade. Cabe agora entendercomosedaesseprocessode tornar-semembrodasociedade aoqualtodoserhumanoenecessariamentesubmetidodes- deomomentodonascimento. Comecemoscomumexemplobastanteconhecido Mogli o meninolobo personagemdeOlivrodaselva 1894 doescritoringlesRudyardKipling 1865-1936 adaptadoparaocinemapelaDisneyem1967. NaIndiadoseculoXIX umbebe edeixadonafloresta ondeeacolhidoporlobosquepassamacria-locomoumdosseus. Omeninoviveconformeasregrasecomportamentosaprendidosentreosanimaisateque certodia decideirateaaldeiadehomens. Diantedanovidade oursoBallo preocu- padocomodestinodoamigo exclama vaoestraga-lo vaofazerdeleumhomem . AhistoriaseguecomasperipeciasdeMogliaprendendoafalareaportar-secomoumhumano ateintegrar-seplenamente a sociedadedoshomens. Nadiscussaoqueaquiinteressa aquestaoqueanarrativasuscitae porqueMogli umhumano naoagiacomoseussemelhantesantesdechegar a aldeiadehomens SeguindoapropostadeBergereLuckmann pode- mosdizerquesuapercepcaodarealidadedava-sedeacordocomoqueaprenderaentreosanimais seus outrossignificativos eque portanto suacompreensaodasacoescotidianaseradistintadaquelapraticadapelosdemaishumanos. Daipodemosver aindaacompanhandoapropostadossociologos queMogliinicioutardiamenteoprocessode tornar-semem- brodasociedadehumana umavezque atetravarcontatodiretocomoutroshomens ouinteragircomeles omeninonaotinhameiosparaaprendersobreomundonoqualseussemelhantesjaviviam. EaessacompreensaoimediatadenossossemelhantesedomundocomorealidadesocialdotadadesentidoqueBergereLuckmannchamamdeinteriorizacao. Elaconstituiaprimeiraetapadoprocessodetomarpartenasociedade nummovimentoqueimplica necessariamente participacaoereciprocidade. Assim podemosdefinirainteriorizacaocomoaexperiencia79UnidadeII Aconstrucaodaidentidadesocialinauguraldeapropriacaodomundosocialporcadaindividuoparticular numexerciciocontinuodedotacaodesentido. Eapartirdainteriorizacaoqueosindividuospassamaconferir progressivamente significadossocial- mentecompartilhados asacoesqueobservamaseuredor. Napalavradosautores ainteriorizacaoe aapreensaoouinterpretacaoimediatadeumacontecimentoobjetivocomodotadodesentido istoe comomanifestacaodeprocessossubjetivosdeoutrem quedestamaneiratornam-sesubjetivamentesignificativosparamim BergereLuckmann 2002 174. VoltemosaoexemplodeMogli antesdeencontrarcomosdemaishu- manos omeninonuncahaviafeito porexemplo umarefeicao a mesae portanto certamenteficouconfusoquandoviupelaprimeiravezartefatoscomocadeiras talheres loucasetc. Noentanto comopassardotempo Moglipodeinteriorizarossignificadosdecadaumdaquelesobjetos atri- buindo-lhessentidonumpanoramasocialmentecompartilhado. Apartirdesseaprendizadoinicial aquelasociedadequeateentaolheeraestranhadeixoudeserumdadomeramenteobjetivo exterior paratornar-setam- bemumarealidadesubjetiva comsignificadosinteriorizadosnasuaapre- ensaoimediatadomundoedeseussemelhantes. BergereLuckmannchamamaatencaoparaofatodequeainteriori- zacao e porconseguinte oprocessodetornar-semembrodeumasocie- dade ocorreemmeio a interacaoininterruptaaqueestamossubmetidosdesdequenascemos. Aesseprocessoamploecontinuopeloqualelabora- mosaspercepcoessobreossignificadoscompartilhadoscomogruposocialaoqualpertencemososautoreschamamdesocializacao. Asocializacaoconsiste emsuma napermanenteinterpretacaodareali- dadeobjetivaesuasimultaneainteriorizacaocomorealidadesubjetiva for- mandoabaseparaquecadaindividuocompreendaaspessoaseomundoaoseuredor. Enessesentidoqueosautoresdefinemasocializacaocomoa amplaeconsistenteintroducaodeumindividuonomundoobjetivodeumasociedadeoudeumsetordela BergereLuckmann 2002 175. Naopodemosesquecer contudo queainterpretacaodarealidadenaoseprocessadamesmamaneiraparatodososmembrosdeumasociedade muitopelocontrario. Diantedeumamesmarealidadesocial cadaindivi- 80Introdu c ao a sCi e nciasSociaisduoestabeleceseusvaloresepreferencias manipulandosubjetivamenteoscodigosesignificadoscompartilhadoscomosdemaismembrosdogruposocialnoqualseinsere. Nessesentido podemosdizerqueaidentidadeeformadaatravesdoprocessodesocializacaotalqualvivenciadoporcadaindividuo. Epreciso agora entendercomoaidentidadeseconformanojogoindividuosociedade emmeioaosmuitosmecanismosdesocializacaoqueencontramosaolongodavida. AsocializacaoprimariaDispostosaanalisarmaisdetidamenteofenomenodasocializacao BergereLuckmannpropuseramumadiferenciacaoentreduasformasbasicasdeintroducaodosindividuosnasociedade asocializacaoprimariaeasociali- zacaosecundaria. Comopontodepartida podemosafirmarque qAsocializacaoprimariaeaprimeirasocializacaoexperimentadapeloin- dividuoeaconteceaolongodesuainfancia. qAsocializacaosecundariaequalquerprocessoposteriorqueintroduzoindividuojasocializadoemnovossetoresdesuasociedade. Taldiferenciacaoremete primeiramente a ideiajaapontadadequeasocializacao e consequentemente aintroducaodeumindividuona dialeticadasociedade eumprocessopermanente. Assim apesardeconcluidaaetapadainteriorizacao distintasformasdesocializacaosesucederaocomopassardotempo definindoeredefinindonaoapenasnossainsercaonotodosocial comotambemaconstituicaodaidentida- deindividual. Sabemosquenaosomosimutaveis. Nossosgostospessoais escolhasprofissionaiseposicionamentospoliticosereligiosospodemvariaraolon- godotempo fazendocomquesejamosidentidadesempereneprocessoderedefinicao. Noentanto certosaspectosdenossapercepcaodomundoob- jetivo e portanto denossaidentidade segueminalteradosmesmodiantedasmudancasexperimentadasnodecorrerdenossatrajetoria. Deacordo81UnidadeII AconstrucaodaidentidadesocialcomBergereLuckmann essapermanenciasedevefundamentalmente a importanciadasocializacaoprimaria. Vejamososmotivos. Osautoresafirmamqueasocializacaoprimariasedefinepelaimersaodacriancanummundosocialporelavividocomoounicomundoexistenteeconcebivel enaocomoumuniversopossivelentretodososexistentes. Paraacrianca omundosocialresume-se aquiloquelhefoiapresentadopelosresponsaveisporsuasocializacao comosuafamilia. Assim oindividuoeapresentadoaomundosocialatravesdosparametrosaprendidosentreessesoutrossignificativos pais irmaos avosetc. queeleencontraquandovemaomundo. Emresumo Todoindividuonasceuemumaestruturasocialobjetiva dentrodaqualencontraosoutrossignificativosqueseencarre- gamdesuasocializacao BergereLuckmann 2002 175. Portanto nasocializacaoprimaria oindividuosetornamembrodasociedade a medidaquecompreendearealidadeeasdemaispessoasaoseuredor fazendocomqueomundonoqualfoisocializadosetorneoseumundo. BergereLuckmanndestacam nessesentido ofatodequeosoutrossignificativosnossaoimpostosquandonascemos oquesignificaquenaopodemosescolheraestruturasocialobjetivaouomundosocialobjetivodentrodoqualsomossocializados nostermosdeMaquiavel seriampartedanossafortuna. Daiofatodequeoconteudodasocializacaoprimariavariaemfuncaodalocalizacaodesses outrossignificativos naestruturasocialmaisampla exemplo aclassesocialaquepertencemos. Eimportantedestacarqueapercepcaodomundosocialpelosindi- viduosnaoeexclusivamentecondicionadapeloposicionamentodeseusoutrossignificativosnaestruturasocial. Cadaqual filtra arealidadedentrodaqualesocializadotambematravesdesuaspeculiaridadesindividuais conformeabiografiadecadaum caracteristicasfamiliaresetc. . Assim duascriancasdamesmaclassesocialnaoterao necessariamente amesmaperspectivasobreomundosocial. Outroaspectorelevantedasocializacaoprimariaeofatodequenaoserestringeaoaprendizadopuramentecognitivodomundosocial poistam- bemvemimbuidadeumafortecargaemotiva pormeiodaqualacriancasesenteafetivamenteligadaaosseusoutrossignificativos. Deacordocomosautores essaligacaoemocionaleessencialaosucessodasocializacao 82Introdu c ao a sCi e nciasSociaisumavezque apartirdela acriancapassaaseidentificarcomosoutrossig- nificativos comoospais porexemplo absorvendoseuspapeiseatitudese consequentemente interiorizando-os. Assim pormeiodaidentificacaoemocionalacriancaseapropriadorepertoriomanipuladoporseusfami- liares numprocessoque poucoapouco permitequeelaadquirauma identidadesubjetivamentecoerenteeplausivel BergereLuckmann 2002 177. Eclaroqueesseprocessodeconstituicaodaidentidadepormeiodasocializacaonaoeunilateral outrossignificativos individuo tampoucomecanico meuspaissaoassim logosereiassimtambem. Pelocontra- rio eumprocessoessencialmentedialeticoqueenvolveaidentificacaodacriancapelosoutrose simultaneamente suaautoidentificacao ouseja acontecenumbalancoentre aidentidadeobjetivamenteatribuidaeaidentidadesubjetivamenteapropriada BergereLuckmann 2002 177. Issonosmostraque conformeditonoiniciodasecao aidentidadeseconformaemmeioaodialogopermanenteentreindividuoesociedade umavezquesedefinesempredentrodohorizontedeummundosocialespecifico pormeiodasocializacao esopodesersubjetivamenteapropriadajuntamentecomestemundo BergereLuckmann 2002 177. Emmeioaesseprocesso acriancaassumeumaidentidadepropria passandoaselocalizarnummundosocialdentrodoquallheeatribuidoumlugares- pecifico. Diantedessacaracterizacaodasocializacaoprimaria podemosques- tionar Quandoelatermina Quaissintomasnospermitemverqueumindividuojaestaplenamenteinseridoemsuasociedade SegundoBergereLuckmann asocializacaoprimariasecompletaquan- doacriancafindaoprocessopeloqualprogressivamenteabstraiospapeiseatitudesdosoutrossignificativos passandoaserelacionarcomooutrogeneralizado conformeasseguintesdefinicoes qoutrossignificativos responsaveispelasocializacaoprimariadecadain- dividuo pais irmaos avosetc. qoutrogeneralizado abstracaodospapeiseatitudesdosoutrossignifica- tivosconcretos. 83UnidadeII AconstrucaodaidentidadesocialEmoutraspalavras asocializacaoprimariaterminaquandoacriancadespersonalizaumaatitude comoumabroncadadapelamaediantedeumamalcriacao percebendoquearepreensaocorrespondeaumaregrasocial istoe acriancapercebequenaoapenassuamae masasociedadeemgeralcondenaaquelaatitude. Aooperaressaabstracao acriancaformaemsuaconscienciaesteoutrogeneralizado identificando-senaomaisapenascomseusoutrossignificati- vos suamae seupaietc. mastambemcomasociedadecomoumtodo. Podemosdizer assim queooutrogeneralizadoeosomatoriodepapeiseatitudesqueacriancapresenciaeassimila eatravesdosquaisaprendeasprincipaisregrassociais. Apartirdaiacriancapassaasepercebercomomembrodeumasociedade umavezquesuaidentidadejanaodizrespeitosomenteaseusoutrossignificativos e agora umaidentidadeemgeral diantedetodaasociedade. Portodasassuascaracteristicas asocializacaoprimariae paraBergereLuckmann responsavelporumaconcepcaodemundomaisforteearraigadadoquetodasasdemaisqueoindividuovenhaaconhecerposteriormente. Assim omundointeriorizadonasocializacaoprimariapermanecefirme- mentemarcadonaconscienciaindividual correspondendo a referenciafun- damentalnoprocessodepermanenteformacaodaidentidadepessoal. Porem asocializacaoprimarianaoeaunicaqueconhecemosnocursodenossasvidas. Todasassociedadestemmecanismosdedivisaodotraba- lhoededistribuicaodeconhecimentoe poucoapouco osindividuosvaotravandocontatocomoutrasredesdereferencia. Porisso comoprogres- sivoamadurecimentodoindividuo oprocessodesocializacaomodifica-seeevoluideprimarioparasecundario. Vejamos aseguir quaisascaracteris- ticasdessesegundotipodesocializacaoeseusefeitossobreaconstituicaoidentitaria. AsocializacaosecundariaQuandoumacriancacomecaavidaescolar emseusprimeirosanosdevida naodemoraaperceberqueomundosocialnaoserestringe aquelarealidadeapreendidajunto a familia. Surgem deimediato outrossignifi- 84Introdu c ao a sCi e nciasSociaiscantes comocolegaseprofessores e comeles novasregrasepadroesdeconduta. Sabemos noentanto quaodificilpodeserachegadadeumacrianca a escola. Muitasvezeselapassaporumperiodomaisoumenoslongodeadaptacao duranteoqualospaisaacompanhamdepertoemsuainsercaononovomundorepresentadopelaescola. Asituacaodescritaacimaebastantefamiliaratodosnos. Quantasvezesnaonossentimosinsegurosouatemesmoacuadosaochegaraumnovouniversodesocializacao comoumanovaescola aentradanauniversida- de umnovotrabalho Taissituacoessesucedemininterruptamenteaolongodenossasvidas eeaelasqueBergereLuckmannsereferemaofalaremsocializacaosecundaria. Emlinhasgerais asocializacaosecundariapodeserdefinidacomoaconstanteesucessivainternalizacaode submundossociais porpartedeumindividuojasocializado. Issosignificaque umavezcompletadoopro- cessodesocializacaoprimaria oindividuo naomaisrestritoaoseuuniver- sofamiliar passaaadquirirnovosconhecimentosrelacionadosafuncoesespecificas sendointroduzidoemnovossetoresougruposdesuasocieda- de. Progressivamente omundodaescolaedotrabalho comseusdiversospapeis substituemafamilianatonicadoprocessodesocializacao. Asocializacaosecundariasecaracteriza portanto pelainternalizacaoderegrassociaispropriasacadagruponoqualoindividuoseinsere. Asre- grasvalidasnaescolanaocorrespondem certamente aospadroesdecom- portamentoesperadosnumainstituicaomilitar numclubedefutebolouatemesmonumauniversidade. Noentanto ummesmoindividuopodeparticipardetodosesses submundos aolongodavida acumulandooaprendizadoreferenteacadaumdeles. BergereLuckmannchamamaatencaoparaofatodeque conformemencionado oingressoemumnovouniversodereferenciassociaisnaoenecessariamentefacil. Nasocializacaosecundaria oindividuopercebeque aocontrariodesuacertezainicial omundointernalizadonasocializacaoprimarianaoeounicoexistente percebeque naverdade aquelemundoeapenasoprimeiroqueconheceuentreosmuitosoutrosdisponiveis. As- sim aoporemcontatoospadroesnormativosaprendidosentreosagentesdesuasocializacaoprimaria afamilia emespecial comospadroesnorma- 85UnidadeII Aconstrucaodaidentidadesocialtivosvigentesnasinstituicoesdasocializacaosecundaria oindividuopodeenfrentarumaseriedeconflitosidentitarios. Osensocomumarespeitodasdificuldadesenfrentadasnaadolescenciapodeservirdeexemplo natransicaoparaavidaadulta ojovemjanaorestringeseuuniversodereferenciassociais a familiae a escola passandoaparticipardecadavezmais submundos. Osvaloresepadroesdecom- portamentoaprendidosaolongodainfanciasaocontrapostosalogicasdeatuacaoeconcepcoesdemundomuitodistintas fazendocomqueoindividuopasse inevitavelmente porumprocessodetransformacaodaidentidadeadquiridanasocializacaoprimaria. Eimportanteressaltar noentanto queaconcepcaodemundointernalizadapelacriancaaolongodesuasocializacaoprimariaeinfini- tamentemaisfortenacomposicaoidentitariadeumindividuodoqueosparametrosinternalizadosposteriormente. Assim domesmomodoqueumidiomasecundarioeaprendidosempreemcomparacao a linguamater- na asocializacaosecundariaacontecesempreemrelacao a socializacaopri- maria. Nessamedida podemosdizerqueos submundos interiorizadosnasocializacaosecundariasao contrastadoscomomundodasocializacaoprimaria realidadesparciais. Issosedeve emgrandemedida aofatodeque enquantoasocializacaoprimariadependedeumaligacaoemocionaldacrianca pressupondoumaltograudeidentificacaocomseus outrossignificativos osprocessosdesocializacaosecundariasaomarcadosporummaiordistanciamentodoindividuocomrelacaoaospapeisporeleassumidos como porexemplo ode aluno funcionario etc. . Poressemotivo osautoresafirmamqueosprocessosde socializacaosecundariatratamcomumapersonalidadejaformadaeummundojainteriorizado equeistorepresentaumproblema porquearealidadeinteriorizadatematendenciaapersistir BergereLu- ckmann 2002 189. Percebemos assim queaformacaodaquiloquereconhecemossubje- tivaeobjetivamentecomonossaidentidadepessoalestainevitavelmenterelacionadaaosprocessosdesocializacaonosquaistomamosparte. Sejanasuabasemaisrigida adquiridanasocializacaoprimaria ounosconflitosetransformacoessofridosaolongodenossasvidas resultantesdosprocessos86Introdu c ao a sCi e nciasSociaisdesocializacaosecundaria aidentidadeforma-seeremodela-senuminces- santedialogocomomundosocialaonossoredor. Nessesentido podemosdizer semreceio queaidentidadeindividual marcadasobretudopelasingularidadeobjetivaesubjetiva desenvolve-seemmeioaotripeformadopelasinteracoes pelaconscienciaepelaestruturaso- cial. Daipodemosconcluirqueaidentidadee certamente umfenomenoquederivadadialeticaentreumindividuoeasociedade BergereLuck- mann 2002 230. SecaO10 Memoriaeidentidadesocial9OcaratersocialdamemoriaNasduassecoesanterioresabordamosdiferentesaspectosdaquelefeno- menomaisamploaquevimosnosreferindocomo adialeticaindividuo sociedade asrelacoesentretrajetoriasdevidaetempohistorico eentreidentidadeesocializacao. Veremosagoraumaterceirapossibilidadedere- flexaoarespeitodessamesmatematica apartirdaanalisedeumaspectobastantefamiliar a vidacotidianadetodosnos amemoria. Assimcomonosdoiseixosanteriormentetrabalhados pensaramemoriacomoobjetodeestudosociologicotraz a tonaquestoessobreoslimitesdasmanifesta- coesindividuaiscomomeiodecompreensaosobreotodosocial. Afinal nossamemoriaecompostadaquiloquelembramosnasprofundezasdenossaindividualidadee comotal ealgoquepertenceaoforointimodecadapessoa. Comosera entao queasCienciasSociaislancarammaodamemoriacomorecursovalidodeanalisesobreasociedade Antesdeenfrentarmosessaquestao eprecisorefletir aindaquebre- vemente sobreapropriadefinicaodememoria. Seraque conformeditoacima amemoriadizrespeitosomenteaonossorepertoriointimo asnossaslembrancasindividuais Hojeemdiaecomumusarmosotermo memoria emcontextosbemdiversos. Namedicina porexemplo dizres- peitobasicamente a capacidadeneurologicaderetencaodeinformacoesno9Textodereferencia Pollak 1992 200-212. 87UnidadeII Aconstrucaodaidentidadesocialcurtoenolongoprazo poroutrolado nainformatica refere-se aspoten- cialidadestecnicasdearmazenamentodedadosporpartededeterminadoequipamento. EnasCienciasSociais Aatencao a dimensaodamemoriaporcientistassociaisnaoeexatamen- teumfenomenorecente. Janadecadade1920 osociologoMauriceHal- bwachsseproposanalisaraquiloquechamoude memoriasocial dandoopontodepartidaparatodaumatradicaodeestudosnaarea. Deacordocomapropostapioneiradesseautor amemoriadeveriaserpensadacomoumfenomenosituadoentreaconscienciaindividualeacoletividade ou emoutraspalavras entreoindividuoeasociedade. Mascomorelativizaraindividualidadeexclusivadeumfenomenoqueaconteceindiscutivelmen- tedentrodoslimitesneurologicosepsicologicosdecadaum EmseulivroAmemoriacoletiva Halbwachsafirmaqueamemoria apesardemanifestar-seindividualmente correspondeaumsubstratodeconhecimentocoletivoeculturalmentecompartilhadopordeterminadogrupoemdeterminadocontexto. Essaperspectivadefende assim queamemoriaeprodutodaconvivenciacoletiva enaofrutodasparticularida- desdecadaindividuo portanto cadaqualteriasuamemoriacondiciona- daporseusgruposdereferenciaepertencimento comofamilia escola classesocialetc. . Nessesentido podemosdizerqueamemoriacoletivaacabaporreforcarasidentidadesdepertencimentopormeiodaadesaoafetiva demarcandopontosdeaproximacaoculturaisesociaisentregru- posdeindividuos. Essadimensaocoletivadamemoriatrazaindaumaimplicacaoquetocaemsuapropriadefinicao ofatodequenaoealgopronto massimalgopermanentementeconstruidodeacordocomasconfiguracoesecontextosrelativosaogrupoaoqualelaserefere ouseja amemorianaocorrespon- deria a reproducao dopassado esim a suareconstrucaopermanenteatra- vesdeexperienciasvividascoletivamente. Issoimplicatambempensaramemoriacomoalgoqueseatualiza equepodesemodificar nosmomen- tosemqueeacionada. Amemoriaseria assim umaimagempartilhadadopassadoempermanenteprocessodenegociacao. Ondefica entao adimensaoindividualdamemoria Admitirseucara- tereminentementesocialimplicaabrirmaodonivelindividualnaanalisesociologicadofenomeno 88Introdu c ao a sCi e nciasSociaisTaisquestoesforamenfrentadasporMichelPollak que partindodasproposicoesdeHalbwachs poremdelassedistanciandoemalgunsaspec- tos dedicougrandepartedesuaobra astensoesqueotemadamemoriasuscitaarespeitodadialeticaentreonivelindividualeosocial. Masoquenosinteressaaquie considerandoaduplanaturezadamemoria individu- alecoletiva omodocomoqualPollakinvestiunasrelacoesentreospro- cessosdeconstrucaodamemoriaedeconstituicaodaidentidadesocial. MemoriaindividualecoletivaImagineumexercicionoqualvoce sejaconvocadoatracarsuabiografia. Seriacertamenteimpossivelquevoce relatassetudooqueselembrasobreseupassado e portanto serianecessarioqueescolhessedeterminadospon- toseacontecimentosparacomporanarrativadesuatrajetoria. Aofinaldoexercicio osfatosescolhidosnacomposicaodesuabiografiaresultariamnumaconstrucaoespecificaarespeitodesi. Talexerciciopoderiaserpropostoemcontextosdiversos comonaes- cola numareuniaofamiliarouaindanumaentrevistadeemprego. Cer- tamenteoselementosescolhidosnacomposicaodanarrativairiamvariarconformeasituacao privilegiandodeterminadosfatosdeacordocomocontextoemquefossematualizadoseosinterlocutorescomosquaisinte- ragissemos. Vemosassimque paraalemdocarateressencialmenteindivi- dualesubjetivo amemoriaetambemfrutodadinamicadainteracaoqueocorrenosmomentosemqueelaeacionada. Issoaconteceporqueamemorianaoeoregistrodetudooquesepas- sou. Elaenecessariamenteseletiva envolvendoumaescolhaentreoquedeveseresquecidoeoquedeveserlembrado correspondendosempreaumaconstrucaopermanentementesujeitaamudancaseflutuacoes. UmcontodeJorgeLuisBorgesebastanteeloquentearespeitodaim- possibilidadedesepreservar fisicaementalmente todoopassado. Em Funes oMemorioso 1942 BorgesdescreveavidaatormentadadeFunes queselembravadeabsolutamentetudoquevivera emtodososminimosdetalhes naoconseguindofazerselecoese portanto naocon- seguindoefetivamentepensarsobrearealidade. Seestamosacostumados89UnidadeII Aconstrucaodaidentidadesocialapensarqueoprincipalmecanismodamemoriaeguardarimpressoes ocontodeBorgesmostraqueofundamentaleselecionar entreainfinidadedeimpressoes aquelaspoucasdequevamosnoslembrar emmomentosdeterminadosdenossavida. Eclaro contudo queasvariacoesdenossamemoriaocorremsobreumsubstratoirredutivel compostopormarcoseoufatosmaisestaveise dopontodevistadoindividuo muitasvezesconsideradosimutaveis. NaspalavrasdePollak ecomosealgunselementossetornassemrealidade passandoafazerpartedapropriaessenciadapessoa muitoemboraoutrostantosacontecimentosefatospossamsemodificaremfuncaodosinterlo- cutores ouemfuncaodomovimentodafala Pollak 1992 2. Combaseemtaispressupostos restacompreenderdoquee afinaldecontas constituidaamemoria. Pollakapontatrestiposdeelementos. 1. Acontecimentos podemseraquelesvivenciadospessoalmenteou portabela ouseja acontecimentosquecompoemorepertoriodacoletivi- dade a qualoindividuosentepertencer. 2. Personagens podemcompornossanarrativabiograficapessoasquefazempartedasnossasrelacoesdiretas comoparentes amigosetc. epessoasque mesmoquenaopresencialmente marcaramnossatrajeto- ria comopoliticos artistasetc. . 3. Lugares nossamemoriapodeseapoiaremespacoselocaisconcretos diretamenteligados asnossasexperienciaspessoais mastambememlocaisqueremetamabstratamentealembrancassemumaancoragemcronologicaprecisa comoosmonumentosremetemaumeventorele- vante a nossacoletividade. Efacilperceberqueostreselementosapontamemummesmosen- tido ofatodequeamemorianaoseconstituiapenasdorepertorioadquiridonodecorrerdavidafisicadapessoa elaetambemcompostadeelementosherdados quepodemsertanto verdadeiros nosentidodefundadosempiricamenteemfatos personagenselugaresconcretos quantotransferenciasouprojecoesdeoutroseventos pessoaselugares. Vemosassimqueosmecanismosdepermanenteconstrucaodamemoria90Introdu c ao a sCi e nciasSociais sejamelesconscientesounao atuam naspalavrasdePollak 1992 204 conforme umverdadeirotrabalhodeorganizacao partindodereperto- riossociaiseindividuaisnacomposicaodeumanarrativacoesae aindaassim fluida. Naoe noentanto apenasamemoriaindividualqueestasujeitaataisvariacoes. Apesardemaisorganizada amemoriadeumgrupoousociedadetambememergecomorespostaaestimulosdiversos naopodendo portan- to sertomadacomoprodutodeumaobjetividadeinequivoca. Vejamos porexemplo ocasodasdatasquecompoemocalendariodecomemora- coesnacionais. Desdeaescolhademarcospoliticos comoadeclaracaodaIndependenciaouaproclamacaodaRepublica ateaselecaodosperso- nagensaseremcelebrados comoTiradentes ocalendariooficialcarregaemsiumconjuntobastantecomplexodelutaspoliticas. Aquestaoqueseimpoe nestecaso e oquemereceserlembrado perguntaqueveminevitavelmenteacompanhadadeumanaomenosrelevantereflexaosobreoquedeve sobopontodevistadeumamemoriaoficial seresquecido. Issojafoiabordado poroutro angulo nasecao8 quandoEverettHughessereferiuaofatodequemovimentosdetransformacaosocialmuitasvezesbuscammodificarocalendarioanterior. Umexemplointeressante nocasobrasileiro eoferiadode20deno- vembro datadamortedeZumbidosPalmares quecelebraoDiadaConscienciaNegra. Aleiqueinstituiuoferiadodatade2003 eainiciativaseapresentoucomoumatentativade resgate damemoriadeumgruposocialcujaimportancianahistoriabrasileiraestavaateentao esquecida pelocalendariooficialdopais. Naomenosreveladorasforamasinumerascelebracoesfeitasaolongodoano2000porocasiaodos500anosdache- gadadosportuguesesaoBrasil. Comemorandoodescobrimento acomis- saooficialseencarregavaderessaltaraimportanciadadata insistindonoanode1500comomarcoinauguraldahistoriadanacao. Poroutrolado diversosgruposinvestiramnoesvaziamentodosentidodacomemoracao buscandoevidenciarainadequacaodaideiade descobrimento poisjahaviapopulacoesindigenasvivendoaquihamuitotempo e namesmamedida frisararelevanciadonaoesquecimentodaviolenciaquemarcouocontatoentreportugueseseindigenas. Naomenosrelevanteeaquestao91UnidadeII Aconstrucaodaidentidadesocialdasescolhasqueorientamacomposicaodoscurriculosescolares Oqueseralembrado Quedatasreceberaoatencao Quehistoriasseraoconsi- deradasimportantesparatodosedeveraointegraroslivroseossaberesnecessariosaosalunosparaquesejamaprovados Vemos assim queamemoriacoletivanaopode sobnenhumaspec- to sertomadacomoumcampodecoesao consensoehomogeneidade. Pelocontrario epalcodeacirradasdisputasentrememoriasconcorrentes emergindocomoresultadodeumcomplexoepermanenteprocessodenegociacao. Afastando-sedeHalbwachs Pollakpreferiunaotomara me- moriacoletiva comoalgodado ebuscourevelarcomoelaseconstituidemecanismosde enquadramentodamemoria. Naopodemosesquecer contudo quetaisdisputassejustificampelofatodequeaconstrucaodeumamemoriacoletivaeumimportantefatordeordenacaodegruposeinstituicoes. Issoporque aindasegundoPollak seriafrutodeuma operacaocoletivadosacontecimentosedasinterpre- tacoesdopassadoquesequersalvaguardar cujosentidoseria manteracoesaodosgruposedasinstituicoesquecompoemumasociedade paradefinirseulugarrespectivo suacomplementaridade mastambemasopo- sicoesirredutiveis Pollak 1989 9. Amemoriacoletivaserviria assim aopropositodeestabelecervinculosdepertencimento fazendodocom- partilhamentodedeterminadorepertoriooamalgamaqueunediferentespessoasemumamesmaunidadesocial. Taisconsideracoesnoslevamaumareflexaoacercadarelacaoinescapa- velentrememoriaeidentidadesocial tratadaaseguir. MemoriaeidentidadesocialQuemevoce Arespostaatalperguntamobiliza paraalemdecaracte- risticasatribuidas aquiloquereconhecemoscomonossa personalidade comotemperamento gostosetc. boapartedoselementosempregadosnosupostoexerciciodeescritadeumaautobiografiasugeridonoiteman- terior. Issoporquedescrever eexplicar quemsomosdemanda emgrandemedida orecursoaaspectosinescapaveisdenossahistoriadevida numaestrategiaquaseespontaneadeestabelecerrelacoesdecausalidadequecon- firamcertacoerenciaelinearidade a construcaodo eu. 92Introdu c ao a sCi e nciasSociaisDeacordocomPollak aidentidadepodesercompreendidacomo aimagemqueumapessoaadquireaolongodavidareferenteaelapropria aimagemqueconstroieapresentaaosoutroseasipropria paraacreditarnapropriarepresentacao mastambemparaserpercebidadamaneiracomoquerserpercebidapelosoutros Pollak 1992 204. Taldefinicaodeixaclaraaideiadeque assimcomoamemoria aidentidadenaodevesertomadacomoumarealidadefixa imutavel esimcomoumaconstrucaosujeitaaotempoe ascontingencias. Mas antesdedarprosseguimento a discussaoacercadaestreitaligacaofenomenologicaentreamemoriaeosentimentodeidentidade eprecisorecordaraquelesquesao segundoPollak oselementosessenciaisaoprocessodeconstrucaoidentitaria sejaelaindividualougrupal qunidadefisica comoocorpo nocasoindividual oufronteirasterrito- riais nocasodeumanacao porexemplo qcontinuidadedentrodotempo nosentidofisico mastambemmoral qsentimentodecoerencia unificacaodosdiferenteselementos. Entretaiselementososentimentodecoerenciae semduvida aquelequeevocamaisdiretamentearelacaoentreidentidadeememoria. Issoporque aindaconformeoautor amemoriae umfatorextremamenteim- portantedosentimentodecontinuidadeedecoerenciadeumapessoaoudeumgrupoemsuareconstrucaodesi Pollak 1992 204 umavezqueacionaosmecanismosdeordenacaodovivido conferindo-lheunidadee naoraro linearidade. Ouseja oapelo a narrativamemorialemergecomorecursovaliosonoexerciciodecriacaodelacoslogicoseousimbolicosentreosmuitoseventosquedaocorpoaumatrajetoriaindividualoucole- tiva amparandoaconstrucaodosentidodecoerenciaidentitaria. Eclaroqueorecurso a memoriacomomeiodeconstrucaodecontinui- dadesemmeio a fragmentacaodavidacotidianaassumeformasdistintasconformeoindividuoeogruposocialqueoaciona. Nocasodascamadasmaisaltaseintelectualizadasdanossasociedade porexemplo apsicanaliserepresentaumcaminhoprivilegiadoparasuaexpressaoemnivelindivi- 93UnidadeII Aconstrucaodaidentidadesocialdual enquantoemoutrossegmentosomovimentodeconversaoreligio- saassume naoraro talpapel. Jaquandosetratadaconstrucaodeumaidentidadedenaturezacoletiva comoosentimentodenacionalidade porexemplo vemosaevocacaodamemoriasurgircomomeiodesupressaodasdiferencasentreosmuitosindividuosquedelapartilham demodoarealcaroquelhesecomum. Atuandoreciprocamente osprocessosdeconstrucao edereconstru- cao damemoriaedaidentidadenaopodem portanto sertomadoscomo essencias fixas esimcomoelementospermanentemente negociados. EnessesentidoquePollakdefendequeamemoriaindividualatuacomoumaconstantereconstrucaodesi umavezqueashistoriasdevidanaosaoapenasrelatosdefatos mastambem eprincipalmente instrumentosdereconstrucaodaidentidade. Podemosdizer emsuma queamemoria eseupermanenteprocessode reconstrucao aparececomogarantiadeidentidade a medidaquepermitereuniremtornodeum eu oudeum nos tudoaquiloquejafoifeitoeouvividopeloindividuooucoletividadeemquestao. TemasparadiscussaoqComocadaalunoescreveria emumapagina umaredacaosobre Ahis- toriadaminhavida Queelementosseriamdestacadosporcadaum Oquepriorizareselecionar Queelementoscoletivos presentesemvariostrabalhos marcariamopertencimentoaumamesma geracao istoe aumconjuntodepessoasquepossuiexperienciasepontosdereferen- ciacomuns qLerotexto Funes oMemorioso 1942 deJorgeLuisBorges ana- lisando-oapartirdotextodePollaksobreidentidadeememoria. Es- tamosacostumadosapensarqueoprincipalmecanismodamemoriaeguardarimpressoes. OcontodeBorgesexemplifica aocontrario aimpossibilidadedesepreservar fisicaementalmente todoopassado. Ocontonosrevelaqueofundamentaleselecionar entreainfinidadedeimpressoes aquelaspoucasdequevamosnoslembrar emmomentosdeterminadosdenossavida. 94Introdu c ao a sCi e nciasSociaisSecaO11 Disciplinaeenquadramentodosindividuos10DisciplinaecontroleAsecao9discutiucomosedaoprocessodeinternalizacaodomundosocialpelosindividuos refletindosobreasdinamicasdesocializacaoneces- sariamenteimplicadasnaconstrucaodaidentidade. Vamos agora analisaroutradimensaodaquelemesmofenomeno oaprendizado eaincor- poracao dadisciplinacomoparteessencialdo estarnomundo. Comodevemosnoscomportar Quaisasconsequenciasdanaoobservancia asnormasdecomportamento Quemseencarregadezelarporelas ForamperguntascomoestasquelevaramMichelFoucaultadedicar- se a questaomaisampladarelacaoentreverdadeepoder analisandoaemergenciadaquiloaquedenominou sociedadesdisciplinares. Atento asformasdeorganizacaosocialdomundomoderno Foucaultbuscoucom- preenderascondicoesdesurgimentoedemultiplicacaodenovosmecanis- mosdecontrolequeacabaramporconformarlogicasbastantepeculiaresdeexerciciodopoder asquaisrespondemosdeformanaturaleatemesmoautomatica. SituandonosseculosXVIIeXVIIIoprocessoaquechamadedesblo- queiotecnologicodaprodutividadedopoder oautorsugerequeaemergenciadamodernidadetrouxeconsigonovasformasdesaber e comelas novosdispositivosdisciplinaresquelevaramapremissadavigilanciaaocernedavidacotidianadoindividuocomum. Aexpansaodoalcancedaracionalidadehumana frutodiretodoIlu- minismo traduzia-senumaverdadeiraproliferacaodesaberes fazendosurgircamposdeconhecimentocomoaBiologia aPsicologiaeapropriaSociologia. Oinvestimentonessasnovasformasdesaber naoporacasochamadas disciplinas propunhaumclaroesforcodeclassificacaoenor- matizacaodomundonaturalesocial valendo-sedalegitimidadeda ver- dadecientifica paracriarpadroesdenormalidade. Surgia entao afigurado especialista autoridadeemdeterminadoassuntoeportadordeuma10Textodereferencia Foucault 1987. 95UnidadeII Aconstrucaodaidentidadesociallegitimidadeque sobosauspiciosda verdade ohabilitavaadizeroquedeveriaeoquenaodeveriaserconsiderado normal. Talprocessotrouxeconsigoaprogressivaorganizacaoeclassificacaocientificadospropriosindividuos. Diantedosdesviosdaquelestidoscomoparametrosdenormalidade teveinicioaformacaodeumquadrocadavezmaiscomplexode patologiassociais assimdesignadasporsaberesespe- cializadosaosquaiscaberianaoapenasseudiagnosticocomotambemsua cura. Naoporacaso saodaqueleperiodoonascimentodeinstituicoescomoohospital comregrasmuitoprecisasdeseparacaodosdiferentestiposdedoentes eaescola legitimaporta-vozdoscomportamentosdesejaveis dosconteudosnecessariosedadidaticaadequada. Eclaro contudo queoprincipiomaisamplodocontroleedadisci- plinaemuitoanterioraodesenvolvimentodossaberesditoscientificos. Aespecificidadedomundomodernoestaria nessesentido nodesenvolvi- mentogeneralizadodetecnicasdisciplinaresfortementecalcadasnaspre- missasdavigilanciaedaclassificacao. TomemoscomoexemploocenariocomoqualFoucaultabreotexto. OautordescreveumacidadenofinaldoseculoXVIIque tomadapelapeste passaaserordenadaporumostensivopoliciamentoespacialquevisavagarantirqueoshabitantesnaosaissemdesuascasas. Divididaemquarteiroessobopoderdeintendenteseemruaspostasacargodesindicos acidadepassavaafigurarcomoumespacoin- tensamenterecortado noqualoshabitantesestavamsobvigiliaconstante. Entre vivos doentes e mortos osindividuoserampermanentementeexpostos a ansiaclassificatoriadasautoridadesqueviamnoprincipiodaordemaunicarespostapossivel asameacasdapeste. Designandoacadaqualseulugarprescrito contraapestequeemistura adisciplinafazvalerseupoderqueedeanalise Foucault 1987 163. AomodelodecontroledisciplinardeproliferacaodapesteFoucaultopoeosantigosparametrosdegestaodosperigosdalepra segundoosquaisosen- fermosdeveriamsersumariamenteexcluidosdasociedade formandoumagrandeeconfusamassaapartadadotodosocial. Assim entreoexiliodosleprososeaprisaodapesteestariaadistanciaentredoissonhospoliticos umeodeumacomunidadepura ooutro odeumasociedadedisciplinar. 96Introdu c ao a sCi e nciasSociaisOexemplofuncionacomoumadeixaparaatesedeque munidadesaberesedeespecialistas asociedademodernateriasevoltadoprogressi- vamente a implementacaodalogicadisciplinarnosmaisvariadoscamposdaordenacaosocial nummovimentoquesetraduziria naspalavrasdoautor numa penetracaodoregulamentoatenosmaisfinosdetalhesdaexistenciaepormeiodeumahierarquiacompletaquerealizaofuncio- namentocapilardopoder Foucault 1987 175. Emoutraspalavras nasociedademodernaainexoravelespecializacaodosaberteriadadocorpoaodesenvolvimentodetecnicasdecontrole classificacaoevigilanciaqueteriamseramificadopelasociedadepormeiodeumacadeiahierarquicaque partindodeumpodercentral semultiplicarianumainterminavelrededepoderesinterligados. Foucaultalerta poroutrolado paraofatodequealogicadaexclu- saoealogicadaordenacaodisciplinarsaoantescomplementaresdoquepropriamenteopostas. Issosignificaque apesardoclaroinvestimentoemsaberesquedaorespaldoaodesenvolvimentodetecnicasdesegmentacaopostasaservicodaordemdisciplinar assimcomonoslonginquostemposdocombate a lepradamaneiradescritaporFoucault nossasociedadetam- bemoperasegundooprincipiodaexclusao. Prisoes hospitaisehospicios porexemplo saoapenasinstituicoesinteiramentededicadas a permanen- ciadepessoasque umavezclassificadascomo perigosas doentes ou loucas devemserpostas a margemdoconviviosocial. Taisinstituicoes noentanto apesardepraticaremaexclusao funcionamdeacordocomsa- beresespecificos acriminologia amedicinaeapsiquiatria porexemplo assumindoatarefadecontrolaros anormais pormeiodedispositivosdis- ciplinares demodoarestituir-lhes a normalidade e assim devolve-losaoconviviosocial. Mascomofuncionariam napratica taisinstituicoes Comoseviabili- zaria materialmente essaconjuncaoentreosprincipiosdaexclusaoedoassimchamado quadriculamentodisciplinar Dequeformaapremissadaordenacaodisciplinarpoderiaoperarumcontroleefetivoegeneralizadonumasociedadecadavezpopulosaecomplexa Comoveremosaseguir Foucaultrecorreu a arquiteturapararesponderataisquestoes. 97UnidadeII AconstrucaodaidentidadesocialOpanopticoEm1875ofilosofoejuristainglesJeremyBenthamidealizouumsis- temaarquitetonicopeculiardestinadoaabrigarcentrospenitenciarios. Aposestudar racionalmente nassuaspropriaspalavras alogicadefuncionamentodetaisinstituicoes opensadordesenvolveuumprojetodeprisaocircularcujaconcepcaosebaseavanoprincipiodequetodososdetentospudessemservigiadosporumunicoobservador. Nasciaassimopanoptico pan tudotodos optico olhar modelodeconstrucaoquefaziadaonipresencadoolharvigilanteagarantiadocontroleinstitucio- nal demodoqueoprojetoarquitetonicoeaordenacaosocialatuassememperfeitaharmonia. Opanopticosedefinia emlinhasgerais porserumedificioemformadeanelemcujocentrodeveriahaverumatorre. Noanel divididoemcelasindividuaiscomaberturasparaasduasfacesdaestrutura esta- riamosdetentos enatorre comjanelasvoltadas a faceinternadoanel ficariaovigia cujoolharseriacapazdeatravessarcadaumadascelas. Invertendooprincipiodasantigasmasmorras ondeaescuridaoguardavaosprisioneiros nopanopticoerajustamentealuminosidadedascelasquegarantiaocontroledosdetentos tornando-osvulneraveis a observacaodovigia. Oprojetopreviaaindajogosdeluzquepermitissemaoobservadorumavisaototaldospresos enquantoestesnaoteriamqualqueracessovi- sualaointeriordatorre demodoquenaopudessemsequersabersehaviaounaoumvigiadeplantao. NaotardouparaqueBenthampercebessequeopanopticoservianaoapenas a manutencaodocontroledascasasprisionais sendotambemutilaobomfuncionamentodeescolas fabricas hospitaiseoutrasinstituicoes. Alemdecelascomprisioneiros aestruturadopanopticopoderiaabrigarsalascomalunosouquartoscomdoentes revelandoqueoprincipiodavigilancia aplicadoadiferentesinstanciasdocontrolesocial despontavacomoimportantealiadonaimplementacaodadisciplina. DeacordocomFoucault opanopticorepresentouaformamaisbemacabadadaqueleprocessodedisseminacaosistematicadedispositivosdis- ciplinaresquesedisposaanalisar. Maisqueummodeloarquitetonico o98Introdu c ao a sCi e nciasSociaisfilosofoviualiummodelodeordenacaosocialquetinhanaconstanciadoolharvigilanteamaisimportantepremissa. Segundooautor aeficaciadisciplinardopanopticoadvinhadofatodequesuaestruturatransformavamassaspotencialmenteperigosasemindividualidadesseparadas viabilizandoocontroleporpartedoguardiao. Maisimportantedoqueisso noentanto seriaofatodequetalcontrolenaodependiadaefetivapermanenciadovigiaemseuposto umavezqueaestruturaimpediaqueoobservadovisseoobservador opanopticocria- vaumsistemanoqualavigilanciasefaziapermanentenosseusefeitos mesmoquenaoofossenasuaacao. Oobjetivoera emsuma queopri- sioneirosesoubesse aomenospotencialmente permanentementevigiadoporumpoderinvisivel inverificavele aomesmotempo onipresente. Osentimentodequepudessemestarsendovigiadosatodahora mesmosemconseguiremverseuvigia passava assim aserinternalizadopelospresos. Opanopticoacabavapordissociaroparverservisto automatizandoedesindividualizandooexerciciodopoder OPanoptico . . . temseuprincipionaotantonumapessoacomonumacer- tadistribuicaoconcertadadoscorpos dassuperficies dasluzes dosolhares numaaparelhagemcujosmecanismosinternos produzemarelacaonaqualseencontrampresososindividuos . . . . Poucoimporta consequentemente quemexerceopoder. Umindividuoqualquer quasetomadoaoacaso podefazerfuncionaramaquina nafaltadodiretor suafamilia osqueocercam seusamigos suasvisitas ateseuscriados . . . . Quantomaisnumerososessesobservadoresanonimosepassageiros tantomaisaumentamparaoprisioneirooriscodesersurpreendidoeaconscienciainquietadeserobservado Fou- cault 1987 167. Opanopticorepresentava ainda amaterializacaodasubstituicaodalogicadapunicaopelalogicadaprevencao. Issoporque aosujeitarode- tentoaumpermanenteestadodevisibilidade eleacabavaporpriva-lodapossibilidadedefugir asregras. Desfazia-seanecessidadedocombate a desordematravesdaviolenciafisica fazendodosmecanismosdeordempsicologicaabasesobreaqualsesustentavaosistemadecontrole. Daia99UnidadeII Aconstrucaodaidentidadesocialimpressaode leveza atribuidaporBentham a suacriacao aoabrirmaodousodaforcacomomeiodegarantiadobomcomportamento ascons- trucoespanopticasprescindiamderecursosostensivoscomocorrentes cadeadosefechaduras bastandoqueasseparacoesentreascelasfossemnitidaseasaberturasbemdistribuidas. Maisinteressadonoprincipiologisticodoquepropriamentenaspecu- liaridadesarquitetonicasdopanoptico Foucaultchamouaatencaoparaarelevanciadetalinventonaconsolidacaodaassimchamada sociedadedisciplinar. Atentoaofenomenomaisamplodo panoptismo oautordefendequeeleteveparaaordemdopoderaimportanciaqueamaquinaavaporteveparaaordemdaproducao. Representandoumainovacaotecno- logicasemprecedentesnocampodoexerciciodocontrole opanopticote- riaomerito ateentaoinedito deexercersuaeficacia aumasovez sobreocorpoindividualesobreocorposocial. Naosetratavaportantodeumainovacaoarquitetonicaquelevouaosurgimentodeumnovotipodecon- trolesocial. Paraqueopanopticopudesseexistireserdisseminadocomomodelo eraprecisoquejaexistisseosonhodeumasociedadedisciplinar. Issonoslevaaoutraconstatacao adeque nopanoptismo avigilanciaseespraiaportodaasociedade envolvendoindividuoscomdiferentesposi- coeshierarquicasnumamesmatramadisciplinar. Assimcomoosdetentos ovigiaqueosobservaetambemobservadoporuminspetor eassimsuces- sivamente. Cria-se destamaneira umsistemanoqualtodosobservamesaoobservados nummecanismode desconfiancatotalecirculante. Naspalavrasdoautor nopanoptico umasujeicaorealnascemecanicamentedeumarelacaoficticia demodoquenaoenecessariorecorrer a forcaparaobrigarocondenadoaobomcomportamento olouco a calma oopera- rioaotrabalho oescolar a aplicacao odoente a observanciadasreceitas Foucault 1987 167. Economicoeeficaz opanopticopermitiareduzirdrasticamenteonu- merodepessoasquedefatoexerciamopodere aomesmotempo multi- plicaromontantedeindividuosaelesubmetidos. Calcadonoprincipiodaprevencao essemodelodisciplinarseria aindasegundoFoucault umaespeciede OvodeColombo naordempolitica oqueseriaverificavelpelaextensaodesuaaplicabilidade. Nessesentido oautorprocurade- 100Introdu c ao a sCi e nciasSociaismonstrarqueoprincipiodopanoptismonaoselimitou a materialidadearquitetonicadopanoptico deixandoderegerapenasinstituicoesfechadasparasedisseminaremfocosdecontroleportodaasociedadeatravesdoprincipiododisciplinamento. Issoporque aindadeacordocomoautor Foucault 1987 186 adisciplinaeumtipodepoder umamodalidadeparaexerce-lo quecomportatodoumconjuntodeinstrumentos detecnicas deprocedimentos deniveisdeapli- cacao dealvos elaeuma fisica ouuma anatomia dopoder umatecno- logia. Opanopticoseria assim ummodelogeneralizavel uma figuradetec- nologiapolitica Foucault 1987 181 quecriaummodelodemecanismodisciplinarqueatravessatodaasociedade. Vivendonapermanentecondi- caodeobservadosedeobservadores osindividuosdomundomodernoestariaminevitavelmenteimersosnamalhadavigilancia compondo ati- vamente a sociedadedisciplinar aqueserefereFoucault. Naoporacaso Foucaultencerraseutextocomaseguintequestao de- vemosaindanosadmirarqueaprisaoseparecacomasfabricas comasescolas comosquarteis comoshospitais etodosseparecamcomaspri- soes Foucault 1987 187. SecaO12 AsociedadedisciplinarNaoedificilidentificar nosdiasatuais elementosdopanoptismoanali- sadopeloautor. Emlojas elevadores restaurantes bancoseatemesmoeminstituicoesdeensino somosconstantementevigiadosporcamerasdevideo protagonizandoinvoluntariamenteimagensquepodemservistas ounao poralguemquenaoconhecemos. Avisosde Sorria voce estasendofilmado fazempartedanossapaisagemdiaria nosalertandoparaofatodequequalqueratitude suspeita seradevidamenteregistrada. Namesmamedida acrescentepopularidadedasredessociaisnoshabilitaa observar cadavezmaispessoas e claro serporelasobservada emmaisumaamostradaforcacomqueapremissadavigiliaseespraiaportodoocorposocial. 101UnidadeII AconstrucaodaidentidadesocialOcontroledetudoquesepassanainternetadquiriudimensoesdeescandalointernacionalquando em2010 aorganizacaoWikiLeakspu- blicougrandesquantidadesdedocumentosconfidenciaisdogovernodosEstadosUnidos. Poucodepois em2013 EdwardSnowden umex-fun- cionarioterceirizadoquetrabalhouparaaCIA aAgenciaCentraldeIn- teligenciadosEstadosUnidos reveloudetalhesdeumextensosistemadevigilanciaexercidosobreinumerostelefonesemensagensdeinternetemtodoomundo. Adiscussaosobreaprivacidadepossivelnainternettornou-se progressivamente umaquestaoaomesmotempodramatica- menteimportanteedificilderesolver. Cadavezmaissutileeficaz portanto opanoptismosefazpresenteeminumerasatividadescotidianasquepermitemquenossasacoessejampo- tencialmenterastreadasporoutraspessoas ouinstituicoes comoquandoentramosemumsitenainternet trocamosmensagensemumaredesocial pagamosnossasdespesascomcartoesdecredito falamosaocelularetc. Quaisseriam navisaodeFoucault asespecificidadesdaassimchamada sociedadedisciplinar Emquemedidapodemosafirmarqueeladespon- toucomologicadeordenacaosocialcaracteristicadomundomoderno ParaFoucault oprincipiodisciplinarrespondebasicamenteatrescrite- rios qtornaroexerciciodopodermenoscustoso tantoemtermoseconomi- cosquantopoliticos qfazercomqueosefeitosdopodertenhamamaiorabrangenciapossi- vel qpotencializarocrescimentoda docilidade edautilidadedetodososelementosdosistema demodoquefuncionecomcadavezmaiseficaciaemenossobressaltos. Esse triploobjetivo daordenacaodisciplinarnaodeve deformaal- guma sertomadocomoumconjuntoaleatoriodediretrizesqueahisto- riarevelouacertadas. Pelocontrario. Foucaultdefendequeaprogressivacentralidadeassumidapeladisciplinaseinserenumaconjunturahistoricamaisampla marcadaporprocessosqueatiraramdasposicoesmarginais102Introdu c ao a sCi e nciasSociaisqueocupavanasociedade caracterizandomecanismosdeexclusao eaaproximaramcadavezmaisdossetorescentraisdaordenacaosocial comoasmanufaturas oExercito asescolasetc. . Taisprocessosforam segundooautor marcadosportresclassesdefenomenosobservadosnodecorrerdoseculoXVIII. qAgrandeexplosaodemografica queacarretoua mudancadaescalaquantitativadosgruposqueimportacontrolar Foucault 1987 180. Oaumentopopulacionallevava a demandapormaishospitais escolas presidiosetc. assimcomoaocrescimentodoaparelhoprodutivoquesemostravacadavezmaisextensoecomplexo. Naquelecenarioa antiga formadepodersetornavademasiadocaraedispendiosa alemdepoucoeficaz. qAstransformacoesjuridico-politicas quefizeramdaburguesiaaclassepoliticamentedominante. Aindaqueodominiopoliticodaburguesiasesustentassesobreumquadrojuridicoexplicitoepretensamenteigua- litario haveria deacordocomFoucault umavertente obscura nosmecanismosdepoderimplementadospelaburguesia queteriafeitodos sistemasdemicropoder disciplinantesabasedaquelaestruturamaisampla Asdisciplinasreaisecorporaisconstituiramosubsolodasliber- dadesformaisejuridicas. . . . As Luzes quedescobriramasliberdadesinventaramtambemasdisciplinas Foucault 1987 183. qOsurgimentoeaformacaodenovossaberes. Oinvestimentoemnovoscamposdeconhecimentoformavaumadinamicadereforcosreciprocoscomosmecanismosdepotencializacaodoexerciciodopoder. Surgemamedicinaclinica apsiquiatria apsicopedagogia aadministracao cien- tifica dotrabalho. Aoladododesenvolvimentodastecnologiasindus- triais muitolembradasecelebradas surgetambemumatecnologiadosindividuos opanoptismo. OpanopticodeBenthamteriasido assim aexpressaoconcretadaconvergenciaentreaquelesfenomenoshistoricamenteengendrados. Opanoptismoreuniaexemplarmenteasquatrooperacoes-basedosaberdisciplinar selecao normatizacao hierarquizacaoecentralizacao despon- 103UnidadeII Aconstrucaodaidentidadesocialtandocomometonimiadeumaordenacaosocialnaqualopoderseexerceatravesdouso deinstrumentossimples oolharhierarquico asancaonormalizadoraeasuacombinacaonumprocedimentoquelheeespecifico oexame Foucault 1987 143. Maisdoqueumapreocupacaocomadefinicaohistoricadaemergenciadasociedadedisciplinar vemosqueFoucaultdesenvolveumesforcoderedefinicaodoproprioconceitodepodernomundomoderno. Tradicio- nalmentedefinidocomoalgoexplicito autoevidente opoder talcomodescritopelofilosofo temjustamentenainvisibilidadedoseuexercicioagarantiadasuaforca umavezquenaoexisteisoladamente masdependedepraticasourelacoesdepoderquesedisseminamportodocorposocial. Naoealgoquesepossadividirentreaquelesquepossuemeodetemexclusivamenteeaquelesquenaopossuemelhesaosubmetidos. Opoderdeveseranalisadocomoalgoquecircula oumelhor comoalgoquesofuncionaemcadeia. Nuncaestalocalizadoaquiouali nuncaestanasmaosdealguns nuncaeapropriadocomoriquezaoubem Foucault 1987 143. Podemosdizer nolimite quesegundoessaperspectivaopodernaoexistecomoalgo exterior aocorposocial esimcomoalgoqueseexerceousepratica. Oqueexistesaorelacoesdepoderquepoemempraticaumadinamicadeautorregulacaonaqualosindividuos sujeitosaumamoraldisciplinar adequamsuaformadeestarnomundo. Alogicadisciplinar portanto reuniriatodososmembrosdeumasociedadenumamesmatra- madeautoridadeesubmissao fazendocomqueosindividuosinternali- zemdeterminadasnormasecomportamentosquepassamalhesparecernaturais automaticos. Comreflexoescomoessas Foucaultconstroiumamicrofisicadopoderquenosajudaarefletirsobreosmecanismosdemanutencao aceitacaoereproducaodaquiloquereconhecemoscomopoder partindodacertezadeque opanopticoeautopiadeumasociedadequeatualmenteconhecemos utopiaquerealmenteserealizou Foucault 2005 87. 104Introdu c ao a sCi e nciasSociaisSecaO13 Norma desvioedivergencia11MarginaisedesviantesNasecaoanteriorvimos comMichelFoucault agenesehistoricaeosprincipiossociologicosdosmecanismosquegarantemaobservanciaadeterminadasregraspormeiodoprincipiodadisciplina. Aqueleautorbuscouanalisarosmeandrosdofuncionamentodocontrolesocialnasso- ciedadesmodernas denunciandoateiainvisivelsobreaqualsedistribuiopoderdisciplinarque nonossodiaadia noslevaaagirconformeasregrasvigentesemnossasociedade. Masqueregrassaoessas Quemaselabora Emquemedidaadesobedienciaaelaspodeserconsideradaumatransgressao Noiniciodadecadade1960 emmeioaumcenarioprofundamentemarcadoporcontestacoesdeordemculturalepolitica osociologoame- ricanoHowardBeckerlancouumestudopioneirodedicado aquelasques- toes chamadoOutsiders. Estapalavra dedificiltraducaoemportugues seaproximadosignificadode marginais ou desviantes pessoasquesaopostas a margemouforadocomportamentoexigidopordeterminadaregra. Seulivrosepropunhaarefletirsobreaquestaodatransgressao rela- tivizandonaoapenaspressupostosdosensocomumcomotambemmuitasdascertezas cientificas entaoproduzidasacercadotema. Partindodapremissadeque todososgruposfazemregrasetentam emalgunsmomentoseemalgumascircunstancias fazercomqueelassejamseguidas Becker 2008 52 Beckertocavanumassuntotaocorriqueiroquantosensivel quemdefineoquee certo eoquee errado oquee normal eoquee patologico Todosnosnosdeparamoscotidianamentecomquestoescomoestas. Daescolhadaroupaquevestimos a maneiracomofalamos passandopelacondutaqueadotamosnotransito estamospermanentementetomandodecisoesquenosinseremounosexcluemdepadroesdenormalidadequeconhecemosbem. Quandovemosalguemdirigindonacontramao usando11Textodereferencia Becker 2008. 105UnidadeII Aconstrucaodaidentidadesocialgiriasnumasituacaoformalouignorandocodigos aindaqueimplicitos devestimenta naotardamosemacionarumvastorepertoriodeclassifica- coes taxandocomo infrator inadequado oumesmo louco osujeitodonossoestranhamento. Issoporquepensamoseagimosconformeregrassocialmenteestabelecidas segundoasquaisdeterminadasformasdeagirepensarsaoaceitas enquantooutrassaoproibidasoutidascomoequivoca- dasouinadequadas. Enquantoestudosanterioresabordavamessasquestoesbuscandoen- tenderporquedeterminadaspessoasagiamsocialmentedeforma errada Beckerproposumainversaoanaliticaquedeixavadeladoofocosobreo infrator. Maisdoquecompreenderaspossiveismotivacoesdaquelequeburlouanorma interessavaaelepensar quemestadefinindoquetiposdeatividadeedequemaneira ouseja quemdefinequaldeveseraregrae naomenosimportante quaisasconsequenciasdesuanaoobservancia. Outsidersfoi assim umexercicioanaliticoacercadoprocessoderotula- caodaquelesque pornaoseguiremdeterminadasregras saoconsiderados marginais ou desviantes. Naspalavrasdoautor seuesforcofoiodecompreender asituacaodetransgressaodaregraedeimposicaodaregraeosprocessospelosquaisalgumaspessoasvemainfringirregras eoutrasaimpo-las Becker 2008 15. Saomuitasasregraseostiposderegrasaqueestamospermanente- mentesujeitos. Desdeasformalmenteestabelecidas impostaspelopoderdepoliciadoEstado ateosacordosinformaisenaoexplicitos asregrassocialmenteaceitasordenamnossocotidiano normatizandocomporta- mentosecondutas. Beckerprocurachamaraatencaoparaofatodequeasregrassaocomumenteessencializadasevistascomo naturais oquenosfazperderdevistaoprocessodeproducaosocialqueasoriginae naomenosimportante oprocessodeimposicaoderotulos aquelesdesignadoscomodesviantes. Vejamos entao comooautoroperaessadesnaturaliza- caodasregrassociais desvioserotulos buscandomostrarquesuaconstru- caoestainevitavelmentevinculadaaprocessospoliticosnosquaisalgunsgruposconseguemimporseuspontosdevistacomomaislegitimosdoqueoutros. 106Introdu c ao a sCi e nciasSociaisRotulacaoSegundoosensocomum osatoseatoresdesviantescarregamemsialgoinerentemente transgressor. Issosignificaqueanaoobservanciadeumaregrasocialetidacomoalgonaturalmente errado assimcomoapessoaqueapraticaeautomaticamenteclassificadacomooutsider. Baseadasemtaispressupostos diferentescorrentescientificasprocuraramfazerdodes- vioseuobjetodeestudo. Vejamosalgumasdessasabordagens. qDesvioestatistico Segundoestaperspectiva odesviodesvianteede- finidoemrelacaoauma mediaestatistica quantomaisdistantedocomportamento medio mais desviante. DeacordocomBecker estetipodeabordagemacabapornaoqualificarodesvio reunindonummesmogrupode excecoes quantitativascategoriascomo ruivo ca- nhoto e assassino deixandodeladoadiversidadedecriteriosquedefinemdiferentestiposdeinfracao. qDesviopatologico Nestaconcepcaoodesviodesvianteevistocomoresultadodeumadoenca. Tomandoasociedadecomoum organismo aanalogiamedicapartedoprincipiodequeexistemcomportamentostidoscomo saudaveis apostandonumconsensoimpossiveldeseral- cancado. Oautorlembraqueestaperspectivapodeassumiraindaumaanalogiamaisestrita comoseodesviofosse defato sintomadeumadoencamental ohomossexualeoviciadocomodoentes porexem- plo. SegundoBecker assimcomonaabordagemestatistica aosituarodesviodentrodoindividuo essavisaonosimpededeverqueopropriojulgamentoeumapartecrucialdomecanismodeacusacao. qDesviocomofontededesequilibriofuncional Algumasvisoessociologi- cassobreasociedade emequilibrio ou estavel definemcomodesvioaquiloquecausamudancaoudesorganizacaosocial. Aqui novamente alimitacaoeaarbitrariedadedadefinicaodoqueeounao funcional numasociedade. Comonosalertaoautor adefinicaodoobjetivo fun- cao deumgruposocialequaisasformasdealcanca-loeresultadodeumprocessodeconflitopolitico enaoalgoobjetivamentedadopelanaturezadaorganizacao. 107UnidadeII AconstrucaodaidentidadesocialqDesviocomoincapacidadedeseguirregras Umavisaosociologicamaisrelativistadizqueodesvioeofracassoemobedecer asregrasdogrupo ouainfracaodealgumaregracomaqualacomunidadeconcorda. Beckerreconhecenestaperspectivaumamaioraproximacaocomapropostaquebuscadesenvolver masressaltaquenaoofereceosinstrumentosnecessarios a compreensaodascontradicoeseambiguidadesinerentesaoprocessodeescolhadequaisregrasseraousadascomoparametrosdenormalidade. Demaneirageral podemosdizerqueasquatroperspectivasacimades- critasecomentadasporBeckercompartilhamdeumamesmafragilidade anaoatencao a complexidadedofenomenododesvio. Sejaporatribui-loexclusivamente ascaracteristicasindividuaisdotransgressor sejapornaoconsiderararelatividadedasnormasqueamparamasacusacoesdedesvio aquelasabordagensnaoconsideramamultiplicidadedegruposexisten- tesnumasociedadedeorganizacaocomplexa cadaqualcomaspropriasregrasepadroesde normalidade muitasvezesemconflitoumascomoutras. Numcenariocomoeste ocomportamentodesviantenaoeapenasprovavelcomotambemconstante umavezqueagrandediversidadederegrasrelativasagruposvariadosfazcomquesejaimpossivelagiremcon- formidadecomtodaselas. Podemosmencionar porexemplo asmuitas tribosurbanas presentesnasgrandesmetropolesbrasileiras cujasregrasdevestimentaedecompor- tamentosao naoraro divergentesentresi. Maisrelevantequeoscasosdeantagonismonormativoentregruposeofatodequeumamesmapessoapertenceamuitosgrupossimultaneamente. Ummesmojovempodeser porexemplo estudanteuniversitario membrodeumacomunidadereli- giosaeintegrantedeumfa-clubedeheavymetal combinandoealternan- doaadesao assuasrespectivasregrasconformeasituacaoemqueestiverinserido. Partindodacriticaataisabordagens Beckersugereampliarapropriadefinicaodedesvio demodoadesconstruiraideiadequeostransgresso- resconstituemumacategoriaunicaehomogenea cujacaracteristicamaismarcanteseriaainfracaoaumaregrageralmenteaceita. 108Introdu c ao a sCi e nciasSociaisParatal oautorassumeopressuposto-basedequeodesvioecriadopelasociedade. Aocontrariodoquepodeparecer aafirmativanaocorroboraavisao bastantecomum dequeosdesviossaofrutode fatoressociais determinantes como porexemplo oassaltantecujatransgressaoe jus- tificada porsuaprecariedadesocioeconomica. NaspalavrasdeBecker 2008 22 osgrupossociaiscriamodesvioaofazerasregrascujainfracaoconstituidesvioeaoaplicaressasregrasapessoasparticulareserotula-lascomooutsiders. Des- tepontodevista odesvionaoeumaqualidadedoatoqueapessoacomete masumaconsequenciadaaplicacaoporoutraspessoasderegrasesancoesaum infrator. Odesvianteealguemaquemaquelerotulofoiaplicadocomsucesso comportamentodesvianteeocomportamentoqueaspessoasrotulamcomotal. Issosignificaqueatransgressaoaumaregrasocialnaodevesercompre- endidacomoalgoinerenteaosatosouaosindividuosqueapraticam massimcomooresultadodeprocessosdejulgamentoqueenvolvemdisputasemtornodeobjetivosdegruposespecificos. EaindanessesentidoqueBeckerdefendequeo desvionaoeumaqualidadequeresidenopropriocomportamento masnainteracaoentreapessoaquecometeumatoeaquelasquereagemaele Becker 2008 27. Osdesviantesnaoseriam as- sim umgrupodepessoasreunidasemtornodogosto a transgressao esimindividuosque compartilhamorotuloeaexperienciadeseremrotuladascomomarginaisedesviantes Becker 2008 22. Partindodoprincipiodequeavidaemsociedadesecaracterizafunda- mentalmenteporpessoasfazendocoisasjuntas oautorrecusa portanto aabordagemunilateraldofenomeno. Maisdoqueatransgressaopropria- mentedita suaanaliseprocuracompreenderadinamicaderotulacaoqueaenvolve apartirdaqualumcomportamento ouumapessoa passaaserconsideradomarginal. Podemosdizer emsuma queacaracterizacaododesvioimplicaumasituacaoqueenvolvaaomenosdoissujeitos aquelequepraticaa transgressao e namesmamedida aquelequeaidentificacomotal. Nomesmosentido adefinicaodoquee normal derivatam- bemdeumarelacao naopodendo portanto sernaturalizada. 109UnidadeII AconstrucaodaidentidadesocialOcomportamentonormaldaspessoasemnossasociedade eprovavelmenteemqualquersociedade podeservistocomoumaseriedecompromissosprogressiva- mentecrescentes comnormaseinstituicoesconvencionais Becker 2008 38. Aanalisesociologicadodesvioimplica portanto anegacaodaideiadequesetratadeum dado objetivo. Eledeve segundoBecker sercompre- endidocomo produtodeumatransacaoquetemlugarentrealgumgruposocialealguemqueevistoporessegrupocomoinfratordeumaregra Becker 2008 22. Masquem afinal criaosparametrosdenormalidadesobreosquaissepautamasregrasdeumgruposocial Dequemaneirataisregraspassamaserdefatovalidasparadeterminadogrupodepessoas AimposicaodasregrasAocontrariodoquepodesugeriranaturalidadecomqueaceitamosdeter- minadasregrassociais suaimposicaonaoeautomatica. Umaregrapodeexistirdeformatacita compondoocorpodeleisdeumasociedadesem noentanto serdefatoobservada. Nessecaso odesrespeito a normaeaceitocomoalgo normal enaooriginaacusacoesdedesvio. Oqueleva entao umaregraaserefetivamenteimposta fazendocomqueseudes- cumprimentosejacaracterizadocomo transgressao ApartirdeumexemplodadopeloantropologoBronislawMalinowskiemseulivroCrimeandcustominsavagesociety 1926 Beckerdesenvolveahipotesedequeaquiloquedefineseumatoeounaodesvianteeafor- macomoaspessoasreagemaele. NasituacaonarradaporMalinowski umjovemhabitantedasIlhasTrobriandteriasesuicidadoaposseracusadodeincesto. Oantropologoafirmaque apesardemoralmenteproibido oincestoeraumapraticarelativamentecomumentreosnativos quecostu- mavamfazer vistagrossa diantedecasoscomoaquele. Oqueteriaentaolevadooreferidojovemaosuicidio AindadeacordocomMalinowski naqueleepisodioespecificoo crime haviasidopublicizadoparatodaasociedade impedindoqueocasofosseignoradopelogrupoaquemaregrasereferia. Umavezqueodesviofoisocialmenteidentificadoepublica- 110Introdu c ao a sCi e nciasSociaismentedenunciado amorte punicaoprevistaparacasosassim tevedeseraplicada. Maisdoqueoatotransgressoremsi oquedefineodesvioe portanto aacusacaoqueoconforma Soporquealgueminfringiuumaregranaosignificaqueosoutrosreagiraocomoseissotivesseacontecido inversamente soporquealguemnaoviolouumaregra naosignificaquenaoseraameacado emalgumascircunstancias comoseotivessefeito Becker 2008 62. Beckerlembraaindaqueareacaoaumatotidocomodesviantenaopode sobnenhumaspecto sertomadocomoalgoconstante imutavel. Otempo porexemplo eumavariaveldepeso se emmeadosdose- culopassadoodivorcioeraconsideradoumdesvioporgrandepartedasociedade hojeareacaoaelee nominimo bemmenosruidosa. Omes- mopodeserditosobreainsercaodemulheresnomercadodetrabalhoetantosoutroscostumesqueapraticasociallegitimoucomopassardosanos. Outravariavelimportantesaoosatoresenvolvidos. Muitasvezesumatopraticadoporpessoasdiferentesgerareacoesdistintas ampliandooucontendoaintensidadedasacusacoesquerecaemsobreo infrator. Eoquerevelam porexemplo asestatisticasquemostramquejovensbrancosdeclassemediacostumamserpunidoscommenorfrequenciaeourigordoquejovensnegrosmoradoresdefavelas aindaquetenhampraticadoamesmainfracao. Oautoratentatambemparaofatodequealgumasregrassosaodefatoimpostasquandoatransgressaoculminaemalgumaconsequencia comonocasodasrelacoessexuaisnaoconsentidas cujapunicaoestaestatisticamenteassociada a ocorrenciadegravidez. Trata-se assim derefletirsobrequandoecomoasregrassaodefatoimpostas trazendocomoconsequenciaarotulacaodeseuinfratorcomooutsider. SegundoBecker aimposicaodeumanormasocialefrutodeumempreendimento. Issosignificaquealguem oempreendedor devetomarainiciativadepuniroculpado e naomenosimportante tornarpublicaainfracao. Oautorlembra ainda queadelacaodoinfratordevesercompreendidaapartirdosinteressesdequemafez. 111UnidadeII AconstrucaodaidentidadesocialEmsuma ainiciativa geradaporinteressepessoal armadacompublicidadeecondicionadapelocaraterdaorganizacaoe portanto avariavel-chavenaimposicaodaregra Becker 2008 135-136. VoltandoaocasonarradoporMalinowski podemoscompreenderotragicodesfe- chodoepisodiocomoresultadodeumainiciativageradaporinteressepes- soal avontadedoex-amantedequeseurivalfossepunido armadacompublicidade adenunciafeitaporeleatodaasociedade econdicionadapelocaraterdaorganizacao aproibicao formal dapraticadoincesto. Naosaoapenasosimpositoresderegras contudo queatuamnopro- cessoderotulacao. Eprecisoconsiderartambemopapeldoscriadoresderegras cujoprototipoe segundoBecker odoreformadorcruzado. Osreformadorescruzados numareferencia asCruzadasdacristandadeduranteaIdadeMedia saoindividuosdedicadosasanaraausenciaouinsuficienciaderegrasrelacionadasaquestoesespecificas. Profundamen- tecomprometidoscomprincipiosdeordemmoral osreformadoresagemmobilizadospelaconviccaodequeasmudancasquepropoemseraoposi- tivasparatodaasociedade. Podemoscitarcomoexemploastentativasdeproibicaodavendadedrogas debebidasalcoolicasoumesmodeabolicaodaescravidao. Quandobem-sucedida a cruzada resultanoestabeleci- mentodeumanovaregra ouconjuntoderegras e consequentemente nacriacaodenovasclassesdeoutsiders. Umavezproibidosousoeaco- mercializacaodacocaina porexemplo oquenoBrasilocorreuem1921 seusdistribuidoreseusuarios ateentaoconsiderados normais passaramaser desviantes estandoentaosujeitos a repressaoepublicizacaodeseuhabitoporpartedosimpositorese namesmamedida aspunicoesprevistasemlei. Vemos assim queasregrasnaosaofeitasespontaneamenteequeodes- vioe portanto sempreoresultadodeumempreendimento. Isso porque Antesquequalqueratopossaservistocomodesviante eantesqueosmem- brosdequalquerclassedepessoaspossamserrotuladosetratadoscomooutsi- dersporcometeroato alguemprecisaterfeitoaregraquedefineoatocomodesviante Becker 2008 167. 112Introdu c ao a sCi e nciasSociaisUmavezexistente aregrapassaaseraplicadaapessoasparticulares comoumusuariodecocaina para entao darorigem a classemaisabs- tratadosoutsidersqueelaconforma comoascategorias drogado paraoqueconsome ou traficante paraoquefornece. Aoproporumaanalisedofenomenododesviocomoumainteracaosocial otrabalhodeHowardBeckeracabaporapresentarnaoapenasumaguinadametodologica atravesdaideiadequeotransgressornaodeveserofocodareflexao mastambempolitica. Aodesnaturalizarocomporta- mentodesviante chamandoaatencaoparaasmuitasdinamicassociaisimplicadasnoprocessoderotulacao osociologoacabaporapontarnovoscaminhosparaoestudodasformasdepoder partindodapremissadequenassociedadescomplexasealtamentediferenciadassegundocriteriosdi- versos classe etnia religiao orientacaosexualetc. asregraseosdesviossao objetodeconflitoediscordancia partedoprocessopoliticodasocie- dade Becker 2008 67. TemasparadiscussaoqLerOalienista deMachadodeAssis relacionandoocontocomasideiasdotextodeBecker. qIdentifique nonoticiariocontemporaneo tentativasdeimpororotulode desviantes adeterminadostiposdecomportamento identificandoseus empreendedores eareacaodosqueresistem a imposicaodessasnormas. UnidadeIIIComoasociedadesemantem divisaosocialdotrabalho solidariedadeecoercaoqDivisaosocialdotrabalhoesolidariedadesocial especializacao coercao reciprocidade. qAdimensaosocialdotempoeseuefeitosobreavidahumana variacoesculturaisehistoricas. qTempo disciplinadetrabalhoecapitalismoindustrial. qAadministracao cientifica dotempodetrabalho. qO espiritodocapitalismo eseusefeitos. qOmododevidametropolitanoeaascensaodoindividualismo. 114Introdu c ao a sCi e nciasSociaisSecaO14 Adivisaodotrabalhosocial12ASociologiadeEmileDurkheimComovimosnasduasunidadesanteriores edificil senaoimpossivel imaginarnossasvidassemasociedadequenoscercaedaqual aomes- motempo fazemosparte. Adimensaosocialdaexistenciaedetalformaincorporada a maneiracomoentendemosomundoquemesmoaspectosdeforointimo comoamemoriaeaconstrucaodaidentidade estaoine- vitavelmentereferidosaosgrupossociaisaosquaispertencemos. Umapes- soaqueprefereviverso isolada erapidamenterotuladacomoantissocial revelandoaanormalidadecomquetalcomportamentoevistopelosensocomum. Estanaturalizacaodavidaemsociedadenaoimpediu contudo quealgunsestudiosossepropusessemaentendercomoeporqueassocieda- dessemantem. Defato essafoiumadasprimeirasquestoesdequeseocupouaSocio- logia aindanosprimordiosdoprocessodesuaconsolidacaocomociencia. Emmeio asintensastransformacoesporquepassavaomundoocidentalnoseculoXIX ofrancesEmileDurkheimviunoincipienteestudodassociedadesumaformadeoferecerexplicacoes astantasquestoestrazidaspelaemergenciadocenarioindustrialepelasnovasdinamicassociaisqueeleabrigava. Interessadoemcompreenderofenomenodaintegracaosocialemumcontextofortementemarcadopelaascensaodoindividualismo essepensadorprocurouresponderaduasperguntascentrais qComopodeumacolecaodeindividuosconstituirumasociedade qComosechegaaestacondicaodaexistenciasocialqueeoconsenso Profundamenteinfluenciadopelopositivismo Durkheimdedicou-seaprovarqueoestudodasociedadecompartilhavacomasditas cienciasnaturais ocompromissocomaobjetividade. Paratal empenhou-senoes- tabelecimentodeumobjetoeumametodologiaproprios a Sociologia de12Textodereferencia Durkheim 2001 caps. 5e6. 115UnidadeIII Comoasociedadesemantemmodoagarantir-lhenaoapenasespecificidadecomotambemlegitimidadediantedosdemaiscamposdeproducaodeconhecimento. DurkheimdefiniaaSociologiacomoacienciadasinstituicoes dasuageneseedoseufuncionamento eacreditavaqueeladeveriaseocupardoestudode todaacrenca todoocomportamentoinstituidopelaco- letividade. Essasafirmativasevidenciamopressuposto-basequepermeiatodaasuaobra aprimaziadocoletivosobreoindividual. Tomandocomopontodepartidaametaforadoorganismo explicitamenteemprestadadascienciasbiologicas Durkheimdefendiaque assimcomoavidahumanaestanocorpocomoumtodoenaonaspequenaspartesqueocompoem atomos celulaseatemesmoorgaos asociedadecorrespondiaaumato- talidadecujacompreensaonaopoderiapartirdeumestudodosindividuosouinstituicoesisoladamente. Asociedadenaodeveria assim serpensadacomooresultadodasomadasconsciencias acoesesentimentosparticula- resdaquelesquedelaparticipam massimcomoumarealidadeautonoma comouma vidapsiquicadeumnovogenero asconscienciasparticulares unindo-se agindoereagindoumassobreasou- tras fundindo-sedaoorigemaumarealidadenovaqueeaconscienciadasociedade. . . . Umacoletividadetemsuasformasespecificasdepensaredesentir asquaisosseusmembrossesujeitam masquediferemdaquelasqueelespraticariamsefossemabandonadosasimesmos. Jamaisoindividuo porsiso poderiaterconstituidooquequerquefossequeseassemelhasse a ideiadosdeuses aosmitoseaosdogmasdasreligioes a ideiadodeveredadiscipli- namoraletc. Durkheim apudQuintaneiroetal. 2000 18. Baseado portanto naideiadequeasociedadeemaisqueasimplessomadosindividuosqueacompoem Durkheimchamoudefatossociaisoobje- toespecificodaquelenovocampodesabercientifico. Definindo-oscomo coisas osociologo Durkheim 1995 11 afirmaqueosfatossociaissaotodamaneiradeagirfixaounao suscetiveldeexercersobreoindividuoumacoercaoexterior ouentaoainda queegeralnaextensaodeumasociedade116Introdu c ao a sCi e nciasSociaisdada apresentandoumaexistenciapropria independentedasmanifestacoesindividuaisquepossater. Emprimeirolugar valeatentarparaadefinicaoprimordialdosfatossociais adequesao coisas aesserespeito suavisaoedistintadadeSimmel vistanasecao3 quepercebiaasociedadecomoumprocesso. Aocaracteriza-losdestamaneira Durkheimbuscaconferirmaterialidadeaoobjetodoestudosociologico demodoaafastarqualquertentativadeassociacaodanovaciencia a dimensaosubjetivadopesquisador noteadiferencaemrelacao a definicaodostiposideaisdeWeber Acoisaseopoe a ideia . . . . Ecoisatodoobjetodoconhecimentoqueain- teligencianaopenetradeformanatural . . . tudooqueoespiritonaopodechegaracompreendersenaosobacondicaodesairdesimesmo pormeiodaobservacaoedaexperimentacao passandoprogressivamentedoscaracteresmaisexterioresemaisimediatamenteacessiveisparaosmenosvisiveisepro- fundos Durkheim 1977 23. Naqualidadede coisas osfatossociaispassavamaexistirnoplanodaobjetividade prestando-se assim a analisecientifica. Oautorpropunhatambemqueosfatossociaisfossemidentificadoseanalisadosapartirdetresprincipiosbasicos qcoercitividade ouaforcaqueexercemsobreosindividuos obrigando-os atravesdoconstrangimento aseconformarcomasregras normasevaloressociaisvigentes qexterioridade ouofatodeserempadroesexterioresaosindividuoseindependentesdesuaconsciencia qgeneralidade ouofatodeseremcoletivosepermearemtodaasociedadesobreaqualatuam. Podemosdizerque paraDurkheim umfatosocialequalquer coisa propriadasociedadeaquepertenceoindividuoequesejacapazdemoldarouatemesmodeterminarsuasacoes como porexemplo asregrasjuridi- 117UnidadeIII Comoasociedadesemantemcasemoraisdeumasociedade seusdogmasreligiososoumesmoosistemafinanceirovigente. DeacordocomDurkheim acentralidadedoestudodosfatossociaissejustificariapelofatodeque umavezaplicaveisatodaasociedade elesgarantiriamofuncionamentodotodosocial mantendoacoesaodocoletivoemdetrimentodasvontadesindividuais. Seriamforma- dos nessestermos pelasrepresentacoescoletivas ouseja pelaformacomo asociedadeve asimesmaeaomundoquearodeia. Masoquesaoecomoseformamtaisrepresentacoes SegundoDurkheim 1983 216 podemserdefinidascomo oprodutodeumaimensacooperacaoqueseestendenaoapenasnoespacomasnotempotambem parafaze-las umamultiplicidadedeespiritosdiversosassociaram-se misturaramecombinaramsuasideiasesentimentos . . . . Umaintelectualidademuitoparticular infinitamentemaisricaemaiscomplexadoqueadoindividuoestaaiconcentrada. Podemosentaoafirmarque deacordocomesseautor ohomemepartedomundosocial masnaotemdominiosobreele pois aindaquesejamobrashumanas osfatossociaissaoalheios a conscienciaindividual numadinamicanaqualohomem-individuoeoelementoviabilizador masnaodefinidordasociedade. Retomandoametaforadoorganismovivo Durkheimsugerequeosfatossociaisseriamentaopartesquedevemserestudadasapartirdesuafuncaonotodo. Nessesentido cadafatosocialdesempenhariaumafun- caoespecificanasociedadeecaberiaaosociologodiagnosticareventuaisproblemasnocorposocial encontrando remedios paraomaufunciona- mentodosorgaosproblematicos. As disfuncoes seriam aindadeacordocomoautor aquelescasosnosquaisoequilibrioeacoesaosocialestives- sememrisco comprometendoaharmoniaeconsensoqueseriam aofimeaocabo apropriacondicaodaexistenciadasociedade. Apesardeorganizaremedelimitaremoobjetoeometodoquegaran- tiriamosparametrosdecientificidade a Sociologia taisconsideracoesnaotocavamnaquestaoprimordialaqueDurkheimseproposresponder Por118Introdu c ao a sCi e nciasSociaisque afinal oshomenssemantememsociedade Porqueosgruposhuma- nosnaosedesfazemfacilmente tendendoreiteradamente a integracao AdivisaodotrabalhosocialParaDurkheim oproblemadaintegracaosocialeraprimordialmenteumaquestaodemoralidade poiscorrespondiaaocomprometimentopessoalcomnormaseregrascoletivas. Sobestepontodevista aindustrializacaorepresentavaumproblema a medidaquerompiacomoantigouniversoderegrasenormascompartilhadas numcontextodecrescentevalorizacaodoindividualismo. Namodernidadeindustrialatendenciaseriatornaraspessoascadavezmaisdiferentesentresi encorajando-asaenfatizarsuaspeculiaridades emvezdesuassimilaridades. Diantedetaisconstatacoes oautorcolocouaseguintequestao Comopodeasociedadecontinuarasemantercoesasecadaindividuobuscaoseuproprioeintransferivelinteresse Durkheimchamoudesolidariedadeoprincipioquecoordenaacoesaoentreoshomens tornandopossivelaexistenciadasociedade. Asolidarie- dadeseria assim o laco queunecadaelementoaoseugrupoderefe- rencia. Aindasegundooautor aformadesolidariedadevariaconformeotipodeorganizacaosocialvigente respondendo a intensidadecomqueseestabeleceuadivisaodotrabalhoemumasociedade bemcomoaomaioroumenorgraudesimilaridadedeconscienciaentreseusmembros. Emsociedadesmaissimplesemaishomogeneas porexemplo aspartesdiferemmuitopoucoentresi estabelecendoumaformaequilibradadein- tegracao. Comotrabalhodivididoporcriteriossimples comogeneroouidade nessassociedadesnaohaespacoparaaespecializacaoeaconscien- ciaindividuale portanto muitoreduzida. Haumaprevalenciado senti- dodonos sobreo sentidodoeu numadinamicaemqueoindividualedefinidopelosentidodacoletividadeeaspessoasserelacionamemfuncaodoquetememcomum desuassemelhancas. Comaltograudecoesao taissociedadessemanteriampeloprincipiodasolidariedademecanica queligariadiretamenteoindividuo a sociedade semnenhumintermediario. Nassociedadesindustrializadas poroutrolado adivisaodotrabalhoseestabelecedeformamaiscomplexa dandolugaraespecializacoes. Num119UnidadeIII Comoasociedadesemantemcenariomarcadoporumaltograudeindividualizacao aspessoasseapre- sentampeloquesabem passandoaterumafuncaoespecificanocorposocial. Estabelecem-se assim relacoesmarcadasporvinculosdereciproci- dade cadaindividuosabecoisasespecificaseserelacionacomoutrosquesabemcoisasdiferentes queoprimeironaosabe. Saorelacoescomplemen- tares e porisso interdependentes quesebaseiamnaonasemelhan- ca masnadiferenciacaodosindividuos. Emsociedadesassimorganizadas acoesaoseriagarantidapelasolidariedadeorganica baseadanum sistemadefuncoesdiferenteseespeciais. Asolidariedadeorganicaseriaderivadadoprocessodeintensificacaodadivisaodotrabalho predominandoemcontextosfortementemarcadospelareducaodaconscienciacoletivaemfacedocrescimentodaconscienciaindividual. Durkheimdiziaaindaqueasduasformasdesolidariedadeseriaminversamenteproporcionaisentresi ouseja enquantoumaseintensifica aoutraseretrai. Mascomoidentificarqualotipopredominantedesolidariedadeemumasociedade Quaisindicadorespermitemaosociologosaberqualoprincipiodecoesaosocialdeumgrupodeterminado DurkheimafirmaqueumcaminhoseguroeodaanalisedasnormasdoDireito. Porserumaformarelativamenteestavel oDireitoseriaumafonteprivilegiadadesim- bolizacaodoselementosbasicosdasolidariedadesocialvigente expondo portanto osprincipiossobreosquaissesustentaacoesaodogrupo. Nassociedadesmantidasporlacosdesolidariedademecanica nasquaisostiposindividuaissaorudimentareseotipocoletivoebemdesenvolvido odesrespeitoaumaregracorrespondeaumatentadocontratodoogrupo. Aocometerumcrime porexemplo oinfratornaoapenasatingeavitimadiretamenteenvolvidacomotambemrompecomosprincipiossobreosquaissemantemoselosdesolidariedadequeunemacoletividade pondoemriscoseuequilibrio. Demodogeral ainfracaoepunidapormeiodeumavingancacontraoagressor namesmaintensidadeemqueeleferiuumoumaiscomponentesdadinamicaquegaranteacoesaodaquelasocie- dade. Apunicaotem assim ointuitodeprotegeracoesaosocial eviden- ciandoereforcandooslacosqueligamosmembrosdogrupo vide porexemplo ocasonarradoporMalinowskieanalisadoporBecker talcomoexpostonasecao13. 120Introdu c ao a sCi e nciasSociaisJanassociedadesmantidasporsolidariedadedotipoorganica nasquaisexistealtograudedivisaodotrabalho odescumprimentodeumanormanaoatingeotodosocial. Oinfratornaoficasujeito a vingancaou a humi- lhacaopublica esuapunicaoficaacargodepessoasespecializadas comoojuiz opolicialetc. . Assim aoconstataraviolacaoaumaregra asociedadereageexigindoqueavitimasejareparadanaquiloemquefoiafetada atu- andoconformeoprincipiodarestituicao sejaelasimbolicaoumaterial. Taisconsideracoessebaseiam contudo napressuposicaodeumce- narionoqualaintegracaosocialestejamantidaeforte demodoqueosmecanismosdecoesaoserevelemeficazes. Maseassituacoesemqueasnormasserevelamfalhas pondoemriscooprincipiodasolidariedadequeligaentresiosmembrosdeumasociedade AnomiaApesardeseinteressarpelosmecanismosquegarantemacoesaosocial Durkheimnaodeixoudeatentarparasituacoesemqueoprincipiodaintegracaoestivesseemrisco. Segundoele oprocessodetransicaodaso- lidariedademecanicaparaaorganicaemumasociedadepoderiarepresen- tarumexemploclarodedesequilibriosocial numprimeiromomento arapidadiferenciacaodasatividadesnaoseriaacompanhadadaconscienciadetodosacercadaimportanciadareciprocidade levandoosindividuosasevoltaremparasi priorizandosuaspropriasvontadesemdetrimentodosvalorescoletivos. Naoedificilperceberquetalpreocupacaoestavadiretamenteligadaaocenarionoqualviviaoautor. Imersonumcontextodemudancastaorapidasquantoprofundas Durkheimassistia a emergenciadenovosmodelosderegulacaodasrelacoessociais cadavezmaispautadasnacentralidadedoindividuoedosabercientifico. Areligiaoeatradicao queatepoucoantesconstituiamocernedavidamoral davamlugar a racionalidadee a eficiencia numprocessodeafrouxamentodosantigoslacosdesolidariedadequeorga- nizavamasociedadereunindoseusmembrosemtornodevalorescomuns. Defato aEuropadofinaldoseculoXIXviacresceremproblemascomodesemprego faltademoradias proliferacaodeenfermidadeseaumentodosindicesdecriminalidade deixandoevidentesospesaresdaindustrializacao. 121UnidadeIII ComoasociedadesemantemDeacordocomDurkheim aquelecenariocorrespondiaaumestadodeanomia fundamentalmentecaracterizadopelafalenciadosmecanis- mosderegulacaosocialepelaconsequentefragilizacaodacoesaoentreosmembrosdasociedade. Comoprincipiodaintegracaosocialdebilitado osindividuossetornamentaoincapazesdediferenciarojustodoinjusto ocertodoerradoeolegitimodoilegitimo. Aanomiaserefere assim a ausenciadepercepcao pelosindividuos deumcorpodenormascapazesderegularasrelacoesentreasfuncoessociais cadavezmaisnumerosasediversificadas garantindoaocorposocialumfuncionamentoequilibradoeharmonioso. Oautoracreditava contudo queumasociedadeemestadodeanomiapoderiaser curada atravesdaatuacaodecorporacoesougruposprofis- sionais cujafuncaoseriaregulamentarasatividadesquesedesenvolviamnoambientedadivisaodotrabalho. Reunindoindividuoscominteressescomuns ascorporacoesrepresentariamunidadesemmeio a diversidade constituindoassimumcaminhoseguro a reordenacaodeumasociedadefragmentada. SegundoDurkheim issoseriapossivelpelofatodetaisgru- posteremumpodermoralcapazdecontrolarosegoismosindividuais impedindoquealeidomaisforteseaplicassedemaneirataobrutalnasrelacoesindustriaisecomerciais. OutroaspectodaanalisedeDurkheimacercadaanomiaeseuconheci- doestudosobreosuicidio. Interessadoemcompreenderporqueaspessoassesuicidam einsatisfeitocomasexplicacoestradicionais quefocavamcaracteristicasindividuais osociologoprocuroumostrarqueascausasdeveriamserbuscadasnarelacaoindividuosociedade. Apartirdaanalisedosdadosestatisticosentaodisponiveis Durkheimproposaseguinteti- pologia qSuicidioegoista queprovemdodesamparomoraldequemocomete numaprovadafragilidadedoslacosqueoligavam a sociedade. Emcasosassim oindividuosesuicidaparaporfimaopropriosofrimento. qSuicidioaltruista quederiva aocontrariodotipoanterior deumaliga- caoexcessivadoindividuocomocorposocial. Osuicidaacreditaque122Introdu c ao a sCi e nciasSociaissuamortepodegeraralgumtipodebeneficio a sociedade a qualperten- ce porexemplo umsacrificioduranteumaguerra. qSuicidioanomico queresultadadesagregacaosocialedaperdadere- ferenciasmorais levandooindividuoasesentirdeslocado foradocoletivo. Umavezqueoindividuonaoseidentificacomasnormasdasociedade osuicidiopassaaserumaalternativadefuga. SegundoDurkheim osuicidioanomicopodeseridentificadoemsituacoesemquehaumamudancaabruptanataxanormaldesuicidios oquege- ralmenteocorreemperiodosdecriseeconomica comoaumentododesempregoedaincertezaquantoaofuturo porexemplo oudepro- fundastransformacoessociais comoamodernizacaoacelerada. NaobradeDurkheim oestudodosuicidiorepresentaatentativadeprovarquemesmoumaatitudetaoreferenciada asescolhasindividuaissopodesercompreendidaapartirdeumaanalisedadinamicadocorposocialemsuatotalidade. Apesardebastantecoladaaosprincipiosdopositivismocientifico aobradeDurkheimrepresentouumesforcopioneironosentidodedeli- mitarocampodeestudodasociologia bemcomodeteorizarsobreasmuitastransformacoesporquepassavaaEuropanoseculoXIX. Veremos aseguir outraleituraacercadomesmoprocesso. TemaparadiscussaoqImaginarexemplosdeanomiasocial. SecaO15 Thompsoneadimensaosocialdotempo13E. P. ThompsoneoproblemadotempoVoce sabequehorassao Estaecertamenteumaperguntaquefazemoseouvimosdiversasvezesaodia semqueissonoscausequalquerestranha- 13Textodereferencia Thompson 1998 267-304. 123UnidadeIII Comoasociedadesemantemmento. Afinal todoonossocotidianoaconteceemfuncaodehorarios eesempredeolhonorelogioqueorganizamosnossosmomentosdeestudo lazer refeicoesouatemesmodesono. Issoporqueotempoe paranos umdadoobjetivo algoquepodesercontadocomprecisaoequeesta portanto livredeinterpretacoes. Masseraquefoisempreassim Seraessapercepcaodotempoaunicapossivel Porvivermosemumasociedadeorganizadapelaprecisaodorelogio temosmuitasvezesatendenciadepensarqueotempoeumelementoabsolutoeinvariavel comoumalinhaouumaflechaquesempreavanca. Comoconsequencia tendemosanaturalizaromodopeloqualodividimosemdias horas minutosesegundos. Aocontrariodoquecostumamospensar noentanto essavivenciadotemponaoeuniversal elavariadeacordocomosritmosdevidaetrabalhodecadaum comaslogicasdeorganizacaodassociedadesoucomoscontextosespecificosnosquaisotempoeexperimentado. Relacionadas a expectativaquetemosemrelacaoaele asvivenciasdotemposao assim tambemvariadas. Eapartirdeculturaseorganizacoessociaisespecificasqueaquestaodotempodeveseranalisada. Defato seanalisarmosomodopeloqualso- ciedadesdistantesdosgrandescentrosurbanos ounasquaispredominammodosdevidamaistradicionais lidamcomaquestaodotempo podemosperceberquesereferequasesempreaprocessosligadosaociclodotrabalhooudastarefasdomesticas. Emvezdesedividiremhoraseminutos otem- poemarcadoportarefas omomentodetiraroleite derecolherogado deacenderolampiaopodemsertaoefetivosparamuitosindividuosegruposnamarcacaodotempoquantoosponteirosdeumrelogio. Semserobjetivo otempoemedidoporelesdeacordocomasnecessidadesdavi- vencia quemoldamapercepcaoqueaspessoastemdeseusciclosdevida. Integrado a vida otempoemedido nessalogica pelosseusmovimentoscotidianos associadosnamaioriadasvezesatarefaserotinasdomesticas. Nocasodenossasociedade noentanto estaeumalogicaquejanaoseaplica. Defato desdeofinaldoseculoXVIII comecamosaviverotempoapartirdalogicadeumaideologiaquesustentou daquelemomentoemdiante osistemaeconomicoesocialapartirdoqualorganizamosnossaso- ciedade ocapitalismoindustrial. Foioquemostrou emumartigoorigi- nalmenteescritoem1967 ohistoriadoringlesEdwardPalmerThompson 1924-1993 umdosmaioreshistoriadoresdoseculoXX. 124Introdu c ao a sCi e nciasSociaisInteressadoemcompreenderastransformacoestrazidaspelaRevolucaoIndustrial a vidadaspessoascomuns Thompsondedicou-seaanalisaromodopeloqualascrencasevisoesdemundocostumeirasdostrabalhado- resefetivamentepodemtersechocadocomaquelanovaideologia. Eoqueelebuscanotexto Tempo disciplinadetrabalhoecapitalismoindustrial noqualsustentaqueapercepcaoeocontroledotempoconformaramumadasmaisimportantesarenasdesteembate. OtempoemdisputanaInglaterrapre-industrialAformacomoostrabalhadoresviviamseutemponaInglaterradoseculoXVIIIeracertamentemuitodiferentedanossa. Nomundoemquevive- mos umtrabalhador setiversorte podeacordarporvoltadasseisdama- nha tomarocafedamanha sairdecasa asseteeentrarnotrabalho asoitohoras. Aomeio-diasaiparaalmocare aposvoltar ficanotrabalhoate asseisdatarde emumarotinamonotonaeprevisivelquetodosnosvive- moscomcertadosedenaturalidade. Restam paraalemdesuajornadadetrabalho oshorariosdedescansoelazer. Naoeraessa porem alogicadotrabalhopre-industrial naqual semapressaodotempo eleseestruturavaportarefas. Issoporque comomostraThompson aatencaoaotemponotrabalhodependeemgrandepartedanecessidadedesincronizacaodotrabalho Thompson 1998 280 oquenaoeraumaquestaoimportantenaInglaterraateaquelemomento. Mesmoquenaquelemomentoopaisjacontassecomumfortesistemamanufatureiro asincronizacaoerabaixa poisprevaleceriaumaordenacaodaproducaofeitaportarefasseparadas enaoporumasucessaodeetapasmarcadasporumaprofundadivisaodotrabalho comoprogressivamenteviriaaocorrer. Assim naInglaterrapre- industrial adivisaodotemponaoeraumfatorrealmenteimportantedaorganizacaodotrabalho. Emvistadisso existirianasociedadeinglesadaqueleperiodoumagran- deirregularidadenociclodetrabalho quenaoseprestavaalogicasetarefasrepetitivaseconstantes. Emdias semanasouestacoesquegeravammuitastarefas como porexemplo umperiododecolheita otrabalhopodiaseintensificar eotempopassavaaservividodeformaintensa. Acabadoo125UnidadeIII Comoasociedadesemantemperiododetrabalho noentanto avidamudavaderitmo alterandonova- menteapercepcaosobreotempo. Osdias semanasouanosdetrabalhoeramvividosdeformasvariaveis quenaosedeixavamunificarnumaunicaformula matematicamentedivisivelemhorasesegundos. Comoconsequencia avidacotidianadotrabalhadorpre-industrialeraregidanaopelalogicadotempodotrabalho esimpeladotempodoocio queocupavapartesignificativadesuaexperiencia. Cumpridasastare- fas asquaisseproposrealizar otrabalhadorpodiacolherosfrutosdoseutrabalho vivendodeformadesregrada. Naoeradeseestranhar porisso quevivesseotempodasemanademodoproprio marcadomaispelalogicadolazerdoquepelotrabalho comomostramosironicosversosdeumescritoringlesdoseculoXVII querevelamseudescontentamentocomomodopeloqualostrabalhadoresorganizavamasemana Sabemosquesegunda-feiraeirma dodomingo Aterca-feiratambem Naquarta-feiratemosdeir a igrejaerezar Aquinta-feiraemeioferiado Nasexta-feiraetardedemaisparacomecarafiar Osabadoeoutravezmeio-feriado Thompson 1998 281. Escritosem1639 osversosmostramairritacaodeseuautor umho- memletrado comaconcepcaodotempomediadapelabuscadoocioquevianostrabalhadoresdoperiodo. Amarcacaodasemanasefaz nessalogi- ca demodoaevidenciarsuarelacaocasualcomotrabalho queestavalongedeteropoderdeorganizaravida. Pormaisquepudessesetratardesimplescritica taisversosmostramque dopontodevistadaquelestrabalhadores eraabuscadoocioedoprazerquemarcavaoritmodesuaexperiencia enaootempodaproducao. Naosetratadeumacaso. Distantesdalogicadaacumulacao essesho- mensemulheresbuscavamnotrabalhoosmeiosdesubsistenciacapazesdegarantirseuocio naoocontrario. Nassociedadesindustriais otempodotrabalhoeclaramenteseparadodotempodolazer. Dessemodo otraba- lhadortemseusdiasdetrabalhointeiramentededicados a producao eso126Introdu c ao a sCi e nciasSociaisnosdiasnosquaispodeterdescanso emgeralodomingoouasferias podesededicar assuasatividadespreferidas. Estaera noentanto umadivisaoquenaofaziasentidonasociedadepre-industrial naqualolazerpodiaaparecermesmoemmeioaatividadesdetrabalho semseparacoesrigidas. Paradesesperodopoeta naohaviataldistincaoentreotrabalhoeavida. Donosdeseussaberesespecificos ostrabalhadoresosusavamnamedidaexatadesuanecessidade. Aoencararotrabalhonaopelalogicadaacumulacao nosentidocapitalista massimpeladasimplessubsistencia viamotempodotrabalhocomoomesmotempodavida enaocomoumasuspensaoforcadadesta motivopeloqualostrabalhadores passavam otempo naoo gastavam. Comomostramosmesmosversos noentanto aestaalturaaconcep- caodotempopropriaaostrabalhadoresjaestavasobforteataque. Emmeioaumcrescenteprocessodeindustrializacao quetentavatransformarotrabalhadoremsimplesmecanismodeproducao eraprecisoqueesteseadaptasse asexigenciasedisciplinasdeumnovoritmodeproducao aqueledefinidopelalogicacapitalistadeproducaoeacumulacao. Dopontodevistadeseusideologos eraesseopapeldamaquina sujeitarotrabalhadoraumamarcacaodotempoqueseriaexterior a suaexperiencia. Asmaquinassignificamdisciplinanasoperacoesindustriais explicavaumideologodonovotempomedidopelaproducao defensordaideiadeque seumamaquinaavaporcomecasseafuncionartodasassegundas-feirasdemanha asseishoras ostrabalhadoressedisciplinariamcomohabitodotrabalhoregularecontinuo Thompson 1998 284. Maisdoquegarantiraproducao caberiaassim a maquinaasseguraraeducacaodotrabalhadorparaumanovaformadeexperimentarotempo. Aoinculcar-lheshabitosmeto- dicos elaajudariaaprepararessestrabalhadoresparaalogicadadisciplina moldandotodaumanovaformadevidaquedeveriamadotar. Desnudava-se dessaforma aengrenagemdeumembatequetinhanasformasdevivenciadotemposeufocoprincipal. Aofazeremdaforcadotra- balhadorumsimpleselementodaproducao seusentusiastastransformavamotempoemdinheiro. Paraqueestaequacaofuncionasse noentanto eraprecisoformartrabalhadoresquecompartilhassemdeseuspressupostos. Aodesperdicaremseutempocomatividadesdistantesdalogicadaproducao os127UnidadeIII Comoasociedadesemantemtrabalhadoresseconvertiamemumproblemaparaumsistemaqueseten- tavaimplementar oquecolocavasobataquecerradodoolharpatronalseuscostumeselogicasproprios. Portanto naosetratadeafirmarsimplesmenteadisciplinanafabrica. Taoimportantequantoissoseriatransformarapropriaculturadostrabalhadoresdeumamaneiramaisgeral oquegerouumataquesistematico nofinaldoseculoXVIII asformastradicionaisdefestas jogoseoutroscostumesdostrabalhadores. SecaO16 Tempoelazer14OtempocomocampodenegociacaoAanalisedeThompsondeixaclarooresultadodocrescenteabismoquepassavaasepararomodopeloqualoshomensemulheresdoseculoXVIIIaproveitavamseudiadomodopeloqualosentusiastasdalogicaindustrialprojetavamsobreelesseusideais atransformacaodotempoemumaim- portantearenadedisputaseconflitossociais. Emgeralesteembatefoicompreendidosomentepelaperspectivada- quelesquequeriamreformar oumesmoeliminar oshabitosevisoesdemundopropriosdostrabalhadores. Nessaperspectiva aimposicaodalo- gicametodicasobreostrabalhadoresacarretaria deformadireta ainstau- racaodadisciplinadotrabalho queseabateriasobreoscontemporaneosdeformaavassaladora. Entretanto pormaisqueosideologosdestanovaordemcondenassemeatacassemasvisoesdemundoepraticascostumeiraspropriasaostrabalhadores estesnaocairiamtaofacilmenteemtaldiscur- so lutandoporseuscostumesepraticastradicionais. Comoresultado foiapartirdadinamicapropriaaochoqueentrediferentesconcepcoessobreotempoquesepodedisseminar entreostrabalhadoresinglesesdoperiodo umanovaformadeexperimentarotempo. Paraconseguirtransformaromodopeloqualtantoshomensemulhe- resviviamseupropriotempo incutindo-lhesvaloreselogicamaisafinadoscomocapitalismoemimplantacao osideologosdaproducaoindustrial14Textodereferencia Thompson 1998 267-304. 128Introdu c ao a sCi e nciasSociaistrataramdeinvestireminstituicoescomoaescola naqualviamummeiodeincentivarohabitodotrabalhoedecombatercostumesindeseja- dos. Comsuainfluenciasocializadora aescolaajudounoprocessodein- culcacaodo uso-economico-do-tempo umavezdentrodosportoesdaescola acriancaentravanonovouniversodotempodisciplinado explicaThompson 1998 292. Aeducacaoformaltornava-se assim umtreina- mentoparaqueacriancaadquirisseo habitodotrabalho. Nessecaminho acabaporseoperarumaseparacaoradicalentreacul- turadopovo vistacomoatrasadaearcaica eaculturadaselites queseriaaquelavalorizadaeensinadanomundoescolar. Oociopassaaserassociado a preguicaou a vadiagem. Veremosmaisadiante nasecao21 queessapreocupacaocomapreguicaeavadiagemeimportantenaobraqueegeralmenteconsideradaomarcodonascimentoda AdministracaoCientifica olivrodeFrederickWinslowTaylor 1856-1915 Principiosdeadministracaocientifica 1911. Voltando a narrativadeThompson elemostracomoseconfigurouumaseparacaoentreaculturadaseliteseadopovo que nofimdascontas acabouporaproximartrabalhadoresqueantesnadatinhamemcomum masquepassaramacompartilharformasdevereinterpretaromundo. Articulava-se nessescaminhos aquiloqueThompsondefinecomoumaculturapopularvigorosaereconhecida detododivergentedaqueleshabi- tosepadroesmodernosquesetentavamvalorizar. Alogicadarelacaoentreessaculturapopulartradicionaleanovacul- turaplebeianaoseria porem adasimplesnegacaoeresistencia. Longedeestaremimoveisemsuascrencaseconcepcoes ostrabalhadoresingle- sessouberamseapropriaraseumododavalorizacaodotempopropriadaculturapatronal. ComomostraThompson emmeioaosembatesnosquaisestavamenvolvidos passaramalutarnaocontraotempo massobreele ouseja passaramabuscarsuasconquistasapartirdosvaloressobreeleslancadospelospropriospatroes. Apartirdeentao otempopassavaaconfigurarumanovapautaderei- vindicacoesporpartedostrabalhadores quepassavamalutarpelareducaodajornadadetrabalho porferiasremuneradas porlicencasemvirtudededoencaematernidadeepelopagamentodehorasextras. Deinimigo 129UnidadeIII Comoasociedadesemantemotempocronologicopassavaaseradotadocomoarmadecontestacao a exploracao. Exemplar nestesentido foiaproliferacaoderelogiosverificadanaIn- glaterraentreosseculosXVIIeXVIII. Ateentao ossinosdasigrejaseramosprincipaismarcadoresdotempo vistosobumalogicareligiosa. Noiniciodesteperiodo osrelogioseramrestritosaosespacospublicosouaosespacosdetrabalho. Muitasvezestinhamoponteirodashoras masnaoodosminutos naindicacaodafaltadenecessidadedeprecisaonamedicaodotempoquemarcavaaindaaquelasociedade. A medidaqueoprocessodeindustrializacaolevavaaumasincronizacaodotempo noentanto ousodosrelogiospassoutambemasedemocratizar. Seantesterumrelogioerararo constituindoumpoderososimbolodeprestigio aospoucosostrabalhadoresconseguemacessoaesseitemdedesejo oquefoiviabilizadotantopelainvencaodosrelogiosportateisquantopeloestabelecimentodeclubesdorelogio atravesdosquaisostrabalhadoresconseguiamadquirirumatravesdeprestacoesefinanciamentoscoletivos. Aoperceberemoperigodestanovidade muitosindustriaischegaramatentarproibirousodosrelogiosnolocaldetrabalho masjaeratarde domesmomodoquetentavamcontrolarotempodostrabalhadoresatravesdosrelogiosdeponto estesfaziamdaqueleinstrumentoumaarmaparadarlimite a exploracao a qualestavamsubmetidos apropriando-se aseumodo daideologiaqueerasobreeleslancada. Comoresultadodetalprocesso ostrabalhadorespassavamasemoverapartirdaadocaodeumanovanocaodetempoqueajudavaaordenarsuasdemandas. Iniciava-se assim umaintensadisputapelotempo quepassavaaassumirumaimpor- tanciasingularparadiferentesgrupossociais. A questao dotempolivreedolazerNaoeocasodesepensarqueodesenvolvimentoeapopularizacaodosrelogioslevaram a suacrescenteutilizacao. Diferentemente estaocorreu a medidaqueasociedadepassouasercadavezmaisreguladaporumalogicadistinta relacionadaaotempodomercadoedafabrica. Desdeentao esse130Introdu c ao a sCi e nciasSociaisprocessodecrescentecontrole fracionamentoeprecisaopassouafazerpartedavidaemsociedade. Hoje nassociedadescomplexasemais desen- volvidas grandepartedavidasedesenvolvesobaegidedorelogioedeumamarcacaoprecisadotempo horariodeacordar depegaraconducao deirparaaescola deterintervalos defazerasrefeicoes desedivertir dedormir. Relogiospassaramaestarpresentesemtodososlugaresotempotodo noscarros emlocaispublicos noscomputadoreseemnossosapa- relhoscelulares. Emgrandeparte comomostraThompson aescolacolaborou comsuainfluenciasocializadora comoprocessodeinculcacaodo uso-economi- co-do-tempo. Aeducacaotornou-seumtreinamentoparaqueacriancaadquirisseo habitodotrabalho Umavezdentrodosportoesdaescola acriancaentravanonovouniversodotempodisciplinado Thompson 1998 293. Emaisfacilcompreenderessaafirmacaolembrandodassecoesquesereferiramaoprocessodesocializacao talcomoapresentadoporBer- gereLuckmann eaperspectivadeMichelFoucaultsobreosurgimentodopoderdisciplinar. Veremos nassecoesseguintes atravesdaanalisedeMaxWebersobreodesenvolvimentodocapitalismomoderno comoforamimportantes nesseprocesso preceitoseticosemoraistaiscomoaideiadequecadahomemde- viater seupropriorelogiomoralinterior eacritica a lassidaoe a preguica Deusajudaaquemcedomadruga. Acimadetudo veremosacrescenteassociacaoentrearepresentacaodetempoedinheiro timeismoney. Ebomressaltarqueesseprocessonaoocorreu mesmoemtemposmaisrecentes semreacoes. Umtipoderevoltacontraaideiadeque tempoedinheiro temsidoarebeldiadosboemios poetas hippiesebeatniks. QuandoThompsonpublicouseutexto em1967 omovimentoda con- tracultura espalhava-seportodoomundo. Oproprioautorressalta alias aimportanciacriadoradafantasia doocio dospensamentossemrumo dapoesia. Dequalquerforma paraosnaorevoltados surgiaumproblemaatehojepresente oquefazercomotempolivre Surge apartirdessepro- cesso comosuaoutraface aquestaodolazer. Umadasdecorrencias131UnidadeIII Comoasociedadesemantemdanovadisciplinadotempofoia descoberta dolazerdasmassas. Issoimpulsionariaodesenvolvimentoda industria doturismoedolazerdemassas. Aoacentuar-seadivisaoentretempodetrabalhoetempoocioso naoprodutivo quedeveriaser ocupado nasceumanovaespeciederepressao naodosdivertimentos masdacapacidadederelaxarsegundoosantigoshabitosdesinibidos Thompson 1998 299. Issoficaclaronadificuldadequetemosem naofazernada eemocuparo tempolivre. Manuaisdeautoajudaquetentamajudarateruma administracao maiseficientedotempoetextossobreaimportanciadese relaxardoestressedavidacoti- diana tornam-secadavezmaiscomuns. HameioseculoThompsonbuscavaumaalternativanadefesadeumanovasintesedeelementosdovelhoedonovotempo descobrindoumimaginarioquenaosebaseienasestacoes nemnomercado masnasneces- sidadeshumanas Thompson 1998 303. Emsuavisao talvezpormuitosconsideradautopica aspessoastalveztenhamdereaprenderalgumasdasartesdeviverquefo- ramperdidasnaRevolucaoIndustrial comopreencherosintersticiosdeseudiacomrelacoessociaisepessoaismaisenriquecedorasedescompromissadas comoderrubarmaisumavezasbarreirasentreotrabalhoeavida Thompson 1998 302. TemasparadiscussaoqCadaaluno ougrupodealunos analisaumoumaistextosdeautoaju- dadedicadosausar melhor otempo. qObservarcomomovimentossociais comoacontraculturadosanos1960eomovimentohippie insurgiam-secontraocontrolerigidodotempo. qSugestaodeumseminariosobreadiscussaoatualacercadecomoain- formaticaeainternetpodemalteraranitidaseparacaoentreespacosetemposdetrabalhoedomestico homeofficeetc. 132Introdu c ao a sCi e nciasSociaisSecaO17 Aeticaprotestanteeoespiritodocapitalismo15OcapitalismoearacionalidadeocidentalNassecoesanterioresvimosdiferentesabordagensacercadaorganizacaodomundoindustrial. EnquantoDurkheimprocurou pormeiodoconcei- todesolidariedadeorganica explicarosmecanismosdecoesaoemgruposcadavezmaioresemaiscomplexos Thompsonapresentououtradimensaodeanalise revelandocomoaquelastransformacoesestruturaisacabaramporprovocarmudancasprofundasnosindividuosquedelasparticiparam. VeremosagoracomMaxWeberoutrafacedaquelamesmaquestao dentrodosmarcosdasociologiacompreensivapraticadaporesteautor. AeticaprotestanteeoespiritodocapitalismoeaobramaisconhecidadeMaxWebereumdoslivrosmaisimportantesdahistoriadasCienciasSociais. Escritoem1903 essetextoemformadeensaioe maisdoqueumestudodetalhadodoprotestantismo umasofisticadareflexaoacercadainteracaodasideiasreligiosascomocomportamentoeconomico. Weberparte paratanto deumapergunta-base Comoocapitalismo aforcamaissignificativadavidamoderna edotadadeumdesenvolvimentouniversalemseuvaloresignificado surgiunoOcidente Buscandosuperaroquechamadeuma nocaoingenuadeCapitalismo queodefineapenaspelo impulsoparaoganho oupela ansiadolucro existenteemtodosostemposelugares oautorpropoeadefinicaoaseguir sobreaqualcons- truiratodasuaargumentacaoacercadaespecificidadeocidentalquelheinteressacompreender Chamaremosdeacaoeconomica capitalista aquelaquesebasearnaexpecta- tivadelucroatravesdautilizacaodasoportunidadesdetroca istoe naspos- sibilidadespacificasdelucro. Emultimaanalise aapropriacaodolucrosegueosseuspreceitosespecificos enaoconvemcoloca-lanamesmacategoriadaacaoorientadaparaapossibilidadedebeneficionatroca. Ondeaapropriacao15Textodereferencia Weber 1996 introducaoecap. 1. 133UnidadeIII Comoasociedadesemantemcapitalistaeracionalmenteefetuada aacaocorrespondenteeracionalmentecalculadaemtermosdecapital Weber 1996 4-5. Otrechodeixaclaroopontodepartidadoautorembuscadasori- gensdestaqueidentificacomoaespecificidadedocapitalismomoderno aprimaziadaacaoeconomicabaseadanaracionalidade. Segundooautor naoapenasaeconomiamastambemodireito oEstado aciencia aar- quiteturaeaartedoOcidentemodernorespondemaumalogicaracional guiando-sepelamonetarizacao matematizacao experimentacaoeburo- cratizacao numclarodistanciamentodadinamicaqueregiaassociedadestradicionais. DeacordocomWeber oprincipiodaracionalidaderege namodernidade asdiferentesesferasdaatividadesocial progressivamentesubmetida a logicadocalculo daopcaoestrategica daautonomizacaoeformalizacaodasfuncoes. Refletindosobreaobjetivacaodosvinculossociaisnomundomoderno Webersedebrucousobreoquechamoude desencantamentodomundo paraestabelecercriteriosdeanalisedarealidade pensandoaracionalidadeenquantocapacidadehumanadeatribuirsentido a propriaconduta. Umaacaoracionalseria assim aquelacarregadadesignificadoeconscientecomrelacaoaosmeiosefinsempregados. Aocolocarladoaladoconscienciaeracionalidade Weberdeixaclaroopapelfundamentaldaagenciaindividualnoestabelecimentodeumaeco- nomiaracionalmenteestruturada. Daiaimportanciadadapeloautorparaofatode noslugaresemqueaassimchamadacondutaracionalenfren- touobstaculosespirituais odesenvolvimentodeumacondutaeconomicatambemterencontradoresistencias. Partindodetalconstatacao Weberseproposcompreenderasforcasreligiosaseosideaiseticosdedeverdelasdecorrentes quesempreestiveram nopassado entreosmaisimportanteselementosformativosdacondutahumana. FoinessesentidoqueWebersedispos emseuestudo aabordarafor- macaodeuma mentalidadeeconomica buscandocompreenderemqualconjunturasocio-historicaelaocorreu. Alargandoospropriossentidosdocapitalismo oautordefende comopontodepartida que maisdoqueumsistemaeconomico elecorrespondeaumaformade estarnomundo a134Introdu c ao a sCi e nciasSociaisumethos entendidocomooespirito osvaloresmorais asideiasoucren- casdeumgrupo comunidadeoucultura quepermeariaasmaisvariadasesferasdavidasocialdassociedadesmodernas. FiliacaoreligiosaeestratificacaosocialParaalemdeseusinteressesmaisamplosnotemadaespecificidadedaculturaocidentalounadinamicadeprogressivaracionalizacaodomun- do oensaiodeWebersobreasorigensdocapitalismomodernopartiudaconstatacaodeque historicamente asprincipaisposicoesnomundodosnegocios assimcomoosniveismaisaltosdamaodeobraqualificada erampredominantementeocupadosporprotestantes. Comoexplicaressamaiorparticipacaorelativadepessoasligadasaumamesmadoutrinareligiosa Numprimeiroplano Weberprocurouafastarexplicacoesmaissimplistas comoaquelaqueatribuiaconstatacaoaacasoshistoricosedestaquesindividuais ouaquelaquedefendequeaReformaprotestanteteriarepresentadoapossibilidadedeabandonodosparametrosdotradicionalismoeconomico. Emrespostaaestaultimahipotese oautornosrecordaqueaReformanaoimplicou sobnenhumaspecto aelimi- nacaodocontroledaIgrejasobreavidacotidiana. Muitopelocontrario aqueixadosreformadoressobreocatolicismorecaiajustamentesobreafragilidadedaincidenciadareligiaosobreseusseguidores oqueoslevou a implementacaodeformasaindamaisrigidasderegulamentacaodacon- dutadosfieis tantonoplanopublicoquantonoprivado. Weberdefende entao queaexplicacaodetalfenomenoestarianasdiferentesatitudesdecatolicoseprotestantesemrelacao a atividadeecono- mica cujasrazoesdeveriamserbuscadasnocaraterintrinsecopermanentedesuascrencasreligiosas que nocasodosprotestantes estariamfor- tementemarcadasporumamaiortendenciaparao racionalismoecono- mico. Essaevidenteassociacaodaeticaprotestanteaocapitalismorevela paraoautor umaprofundaincompatibilidadeentreadoutrinacatolicaealogicadocapital. Issoporque nessareligiao asalvacaoevistacomofrutodafidelidade a Igreja semqualquerrelacaocomasatividadesmundanas. Janoprotestantismo talcomodesenvolvidoporLuteroapartirdasideias135UnidadeIII ComoasociedadesemantemdeCalvino ocomportamentoeconomicoeencorajado a medidaqueaprofissaopassaaserumdever umavocacaoeumamanifestacaodafe. Anovareligiaoteriaincutidoemseusseguidoresosensodeobrigacaomoralparaocumprimentodasacoesterrenas levandooascetismo doutrinaquepregaoexerciciodaespiritualidadepormeiodarecusaaosprazeresmun- danos aocentrodapraticareligiosa. Disciplina recusaaoluxoeconsci- enciaprofissionalseriam entao aspectoscentraisnessa eticaprotestante que aointroduzirumnovocorpodevalores regrasecomportamentosdohomemperantesuacrencareligiosa acabouporcriarumnovoethossegundooqualotrabalhopassavaaserumimperativomoral. Enessesentidoqueemerge nolivro oconceitodeBeruf nooriginalalemao que emcertamedida concentraemsiachavedaanalisepropos- taporWeber. Sinonimoalemaoparaapalavrainglesacalling oconceitopodesertraduzidopor vocacao ecarregaemseusignificadoumatarefadevida umaocupacaoligadaaotrabalho. ParaWeber efundamentalofatodenaoexistircorrespondenteconhecidoparaessapalavraentreospovospredominantementecatolicos enquantofoisempreumaconstanteentreosprotestantes. Oconceitocarregaavalorizacaodocumprimen- todosdeveresnosafazeresseculares comoamaiselevadaformaqueaatividadeeticadoindividuopudesseassumir Weber 1996 71. Destaforma areligiaochegaria asentranhasdavidacotidiana elevandoaideiadevocacaoaostatusdedogmareligioso oindividuoseelevaaocumpriroquelhefoidesignado. Podemosdizer assim queWeberdefendeahipotesedequeocapita- lismoprecisou emdeterminadaepoca aliar-se adeterminadasforcasreligiosasparasedesenvolver suplantandoaideia entaohegemonica dequeganhardinheirocomoumfimemsi comoumavocacao eraalgomoralmentecondenavel. Enquantoocatolicismomedieval comseutradi- cionalismonoplanoeconomico valorizavaacontemplacao desprezandootrabalhoparaalemdonecessario a sobrevivencia oprotestantismovianeleapropriafinalidadedavida pregandoqueaindisposicaoaotrabalhoeraumsintomadaausenciadoestadodegraca. Oburguesprotestantevia-se assim moralmentehabilitadoaperseguirolucro libertando-sedasinibicoesdaeticatradicional. 136Introdu c ao a sCi e nciasSociaisComessajustificativamoralparaasatividadesmundanas emcontrastecomovalordadopeloscatolicosaomonasterio oprotestantismodefen- dia portanto aaceitacaodavocacaocomoumaordemdivina a qualoindividuodeveriaseadaptar. Esteeopontocentraldaquelaquepodemoslercomoagrandecontribuicaoweberiananessaobra ademonstracaodopapelcentraldesempenhadopelasforcasreligiosasnodesenvolvimentodenossaculturamoderna decaratersecular. Essaassociacao poremnaode- terminacao entredevermoraleexercicioprofissionale portanto umacaracteristicafundamentalaodesenvolvimentodaeticasocialqueregeosistemacapitalistaocidental marcado especialmente pelaracionalidadecomoprincipiodabuscapelolucro. Eimportantelembrarque paraalemdeserumalogicaeconomica ocapitalismo talcomopensadoporWeber etambemumsistemacultural formadoporideiasehabitosqueacabaramportransformaraconfiguracaosocioculturaldoocidente. Assim longedeproporumaequacaosimplista naqualReformaecapitalismoaparecemcomocausaeefeito Webercon- centraseusesforcosnaidentificacaodolugardareligiaonaformacaoeex- pansaododito espiritocapitalista hojehegemoniconaculturamodernaocidentaltalcomoaconhecemosevivenciamos. SecaO18 O espiritodocapitalismo 16OespiritocapitalistaVisandodarcorpo aquiloquechamade espiritodocapitalismoorganiza- doeracional Weberanalisa nosegundocapitulodeAeticaprotestanteeoespiritodocapitalismo umdocumentoquebemexpressaascaracteristicasressaltadaspeloautor comavantagemdeserlivredequalquerrelacaodiretacomareligiao estando assim paraosnossosobjetivos livredepreconceitos Weber 1996 29. Trata-sededoispequenostextosescritosporBenjaminFranklin 1706-1790 importantepoliticoejornalistanor- te-americano Dicasnecessariasparaaquelesquequeremsetornarricos 16Textodereferencia Weber 1996 cap. 2. 137UnidadeIII Comoasociedadesemantem 1736 e Conselhosaumjovemcomerciante 1748. EssesescritossaovistosporWebercomoasintesemaisbem-acabadadaeticacapitalista. Commaximascomo tempoedinheiro creditoedinheiro e odi- nheiropodegerardinheiro Franklindelineavaumaverdadeiradoutrinadalogicacapitalista naqualoprincipalmandamentoe semduvida odetrabalharomaisarduamentepossivel pelomaiortempopossivel paraseganharomaximodedinheiropossivel. Condenandosumariamenteaperdadetempoededinheiro alitomadoscomoitensintercambiaveis taldoutrinadefendeclaramenteaadocaodeumarigidadisciplinase- gundoaqualodinheiroganhonaodevesergastoemlazerouconforto massiminvestido econtinuamentereinvestido demodoagerarcadavezmaisdinheiro. DeacordocomWeber osprincipiosexpostosporBenjaminFranklinexaltariamvirtudescomoafrugalidade apontualidadenospagamen- tos alaboriosidadeeafidelidadenosacordos qualidadesque noseuconjunto culminariamnoaumentodecreditoe consequentemente deoportunidadesdemultiplicacaodocapital. Paratanto segundoBenjaminFranklin serianecessariomanterumacontabilidadeprecisa umrigorosobalancodasdespesasereceitas. Essa filosofiadaavareza visaria emsuma instrumentalizaracondu- tadeumhomemcomprometidocomahonestidade comagarantiadecreditoe principalmente comoaumentodeseucapital objetivofinalquedeve aofimeaocabo sertomadocomoumfimemsimesmo. NaspalavrasdeWeber 1996 31 Naverdade oqueeaquipregadonaoeumasimplestecnicadevida massimumaeticapeculiar cujainfracaonaoetratadacomoumatolice mascomoumreconhecimentododever. Estaeaessenciadoproblema. Oqueeaquipreconizadonaoemerobomsensocomercial oquenaoserianadaoriginal massimumethos. Correspondendoaumaeticaprofundamentecalcadanalogicautilita- ria aquelafilosofiaparecemover-seporumunicoobjetivo garantircon- dutasgeradorasdemerecimentodecredito. Apeculiaridadedesseethos138Introdu c ao a sCi e nciasSociaisperanteoutrasformasdeacumulodecapitalobservadaemdiferentestem- poselugaresseria portanto oinvestimentonaideiadevocacao fazendodoganhodedinheiroumsinalincontestedevirtude. Apesardehojeamplamenteaceitoepraticado esse espiritodocapita- lismo dequenosfalaWeber reconhecidonumaincessantebuscapormaisemaisdinheiro encontroumuitosobstaculosateatingirahege- moniaqueocaracterizanostemposatuais. Numprimeiroplano apremis- sadaavarezaquenorteiaospilaresdasmaximasdeBenjaminFranklinerafortementecondenada sobopontodevistaeticoemoral naAntiguidadeenaIdadeMedia. Alemdisso numaperspectivamaisabrangente aqueleethostevedelutarcontraotradicionalismoeconomicopre-capitalista cujosprincipiosestavamprofundamentearraigadosnaordenacaocotidianadegrandepartedaEuropaocidental onde naoraro osempreendedoresseajustavamaumarotinaconfortavel compoucashorasdetrabalho ganhosmoderadosebaixataxadelucro cultivandoseucirculotradicionaldefre- guesessemambicaodeexpandi-lo. Ocontrapontodessaeticatradicional emrelacaoaostrabalhadores configurava-senofatodequeopagamentoportarefaacarretavanaoumaumento masumadiminuicaodaprodutivi- dade trabalhava-semenosparaganharomesmo. Aocontrariodoquepodesugeriranaturalidadecomqueconvivemoscomesse espiritodocapitalismo suaexpansaonaofoi portanto pacifica gerandodesconfiancaeindignacaomoralporpartedediversosgruposquecomelesedepararam. EnessesentidoqueWeberafirmaquea eticapro- testante foiuma aliadapoderosa noprocessodedisseminacaodaquelenovoethos dandoaocapitalismoalicercesdefundoreligioso. Associadoadeterminadasqualidadeseticasbastantediferentesdaquelasadaptadasaotradicionalismoeconomico oespiritodocapitalismoencontrounopro- testantismoumimportanteagentemoralizador. Longedeumacausalidadedeteordeterminista arelacaoentreaeticaprotestanteeoespiritodoca- pitalismosedefinia assim porumabem-sucedidaalianca naqualambosseviramreciprocamentefortalecidos. 139UnidadeIII ComoasociedadesemantemDaeticareligiosa a eticautilitariaAindaqueocernedesuaanaliseestejanarelacaoestreitaentrea eticapro- testante eo espiritodocapitalismo eprecisoressaltarqueWebernaofazumaassociacaoeternaeindissoluvelentreocapitalismoeoascetismoprotestante. Segundoele umavezimplantadoefortalecido onovosiste- masocioeconomicoexpandiu-seindependentedaeticapuritana passandoaregernaoapenasaeconomia masavidacotidianadosmaisdiferentesgrupossociaisereligiososdoOcidentemoderno. Progressivamenteapar- tadodavidadevota oespiritodocapitalismoteriasetornadohostilouindiferente a Igreja que porsuavez passouasercrescentementeassociadaaalgoqueafastaaspessoasdotrabalho. AindadeacordocomWeber enquantoosprimeiros capitalistasasceti- cos justificavamsuaganaporlucroatravesdalogicadaredencaoperanteDeus os capitalistascontemporaneos explicariamavontadedeaumentarseucapitalcomoalgoemfavordeseusdescendentes numabuscacronicapelamultiplicacaododinheiro. Talatitudeseria segundooautor umre- flexodaincorporacaoprofundado espiritocapitalista emsuasrotinasdevida culminandonumadinamicaemqueocapitalistapassouaexistiremrazaodeseunegocio enaoocontrario. Alheios a tendenciaascetica quemarcavaosantigosburgueses entaoguiadospelasensacaomoralde devercumprido osnovoscapitalistaste- riam emgeral aostentacaoeoprazermundanocomoobjetivo. Jadistan- tedoembasamentodeteorreligioso ocapitalismomoderno aotornar-sedominante teriaseemancipadodeseusantigossuportes. Tratandodocontextoquelheeracontemporaneo iniciodoseculoXX Weberdesenvolveentaoaideiadequeaeticareligiosaderalugaraumaeticaprofissional especificamenteburguesa voltada a praticadocon- sumoenaomaistendenteexclusivamente a poupanca. Avocacaopassavaassimaterumainterpretacaoutilitaria dandocorpoaescritoscomoosdeBenjaminFranklin que apesardeapresentaremamesmafundamentacaodaascesevocacionaldoprotestantismo careciamdesuafundamentacaoreligiosa. 140Introdu c ao a sCi e nciasSociaisAprisaodeferroJaaofinaldolivro Weberapresentaaosleitoresumaimagempoderosa adeuma prisaodeferro. Aimagemremete a crescenteautonomizacaodocapitalismo que progressivamenteligado a producaoemseriepormeiodamaquina passouadeterminaroestilodevidadosindividuosnascidossobsualogica. Enessesentidoqueoautorchamaaatencao numtompessimista paraofatodeque aocontrariodoquepensavamosantigospuritanosteoricosdaeticaprotestante queapreocupacaocomosbensmateriaisvestiriaosombrosdohomemdevoto comoumtenuemanto doqualatodahorasepudessedespir odestinofezcomqueomantosetransformassenumaprisaodeferro daqualoindividuojanaopoderiamaisescapar. Porfim einteressanteaindaperceberquetantooprotestanteasceticoquantoocapitalistaracional delineadosporWeber saotiposideais pen- sados comovimosnasecao6 apartirdoexagerodecaracteristicasqueosconfiguramenquantopersonagenssociaisehistoricamentelocalizados. Apartirdesuasacoessociais cadaumdessestiposencontramaisoumenoscorrespondencianomundoreal podendo deacordocomametodolo- giaweberiana serempregadosnaanalisesociologicadefenomenoscarac- teristicosdenossaocidentalidademoderna. Emsuma oestudodaeticaprotestante deacordocomWeber sepropoeexplorar tipologicamente umafaseespecificadaemancipacaodamagia de desencantodomundo marcadapelaemergenciadocapitalismocomosistemasocioculturalhege- moniconomundoocidental. ValeaindalembrarqueWebernaosepreocupaemdemonstrareana- lisarosmeandroshistoricosdaquelacausalidade. Seuobjetivoe antesdetudo tracarumquadrosociologicoque atravesdaligacaoautoevidenteentreaeticaprotestanteeoespiritodocapitalismo analisasseoprocessoderacionalizacaocaracteristicodoOcidentemodernoecujosreflexospo- diamsersentidosemcamposcomoaarte apolitica acienciaeodireito. Assim capitalismo protestantismoeracionalidadesaofacesdeummes- moprocesso identificadoporWebercomoasingularidadeocidentalnostemposmodernos apartirdaqualpodemserpensadasasmaisdiversas141UnidadeIII Comoasociedadesemantemesferasdavidasocial. Acondutahumanaconsideradanoseuplanomaissubjetivo ocampodasforcasmagicasereligiosaseasideiaseticasdedever passaentaoparaoprimeiroplanonessatentativadeidentificar eentender asinfluenciasformativasdecondutaque emultimainstancia levaram a especificidadeconjunturalquehojeconhecemoscomocapitalis- momoderno. Emsuaspalavras Weber 1996 32 Seranossatarefadescobrirafiliacaointelectualparticulardopensamentora- cionalemsuaformaconcreta daqualsurgiuaideiadedevocaoaotrabalhoedevocacao quee comovimos taoirracionaldopontodevistadoautointe- ressepuramenteeudemonista masquefoieaindaeumdoselementosmaiscaracteristicosdenossaculturacapitalista. Estamosaquiinteressadossobre- tudonaorigemdoelementoirracionalsubjacentenestacomoemqualquerconcepcaodevocacao. SecaO19 O fetichismo dascoisasnamodernidade17OcapitalNassecoespassadasvimos comMaxWeber umaanalisedagenesedocapi- talismocomosistemasociocultural. Aindaqueextremamenteimportante aquelanaoe certamente aunicaanaliseclassicaquebuscacompreenderodesenvolvimentodosistemacapitalistanomundoocidental. AssimcomoWeber KarlMarxtambemsedebrucousobreotema desenvolvendo-oemsuaobramaisimportanteeconhecida Ocapital. Compostoporquatrovolumes Ocapitalcomecouaserpublicadoem1867comapropostaderefletirsobreaquiloqueMarxchamadeumacri- ticadalogicaeconomicabaseadanocapital. Trata-sedotrabalhonoqualoautordefineedesenvolvemuitosconceitosqueestruturamtodaasuaobra comoosde mais-valia eode mododeproducaocapitalista incluin- doumacriticasobreateoriadovalor-trabalhodeAdamSmithedeoutrostemascarosaoseconomistasclassicos. 17Textosdereferencia Marx 1883 eSimmel 1909. 142Introdu c ao a sCi e nciasSociaisOprimeirolivro ounicoqueMarxlancouemvida ededicadoaoestudodoprocessodeproducaodocapitaledivide-seemsetepartes Mercadoriaedinheiro Atransformacaododinheiroemcapital Aproducaodamais-valiaabsoluta Aproducaodamais-valiarelativa Producaodamais-valiaabsolutaedamais-valiarelativa Osalario e Acumulacaodocapital. Demodogeral podemosdizerque noLivro1 Marxsepreocupanaoapenasemdefinirosconceitosbasicosquenor- teiamorestantedaobra mastambemementenderoprocessohistoricoemquesehaviamformadoascondicoesdedesenvolvimentodarealidadeeconomicadeseutempo ouseja asegundametadedoXIX momentoemqueaInglaterravivenciavaosprofundosefeitosmateriaisesociaisdaRevolucaoIndustrial. Semseprenderaumanarrativacronologica Marxdesenvolveseusargumentosemtornodaideiadequeocapitalnaoseriaumarealida- deobjetiva natural massimoresultadodeumaformahistoricamentedeterminadaderelacaoentreoshomens. Paratanto abreseutrabalhoafirmandoqueAriquezadassociedadesemquedominaomododeproducaocapitalistaapresenta-secomoumaimensaacumulacaodemercadorias. Aanalisedamer- cadoria formaelementardestariqueza sera porconseguinte opontodepar- tidadanossainvestigacao Marx 1985 25. Vejamos entao qualolugardamercadorianaanalisedeMarx equaisosmotivosquelevaramoautoratoma-lacomoeixodesuareflexaosobreocapitalismo. AmercadoriaEcomumnosdepararmoscomaideiadequehojetudoemercadoria. Roupas alimentoseatemesmooconhecimentosaoadquiridospelalo- gicadomercado numcenarioemquepraticamentetudopodeserven- didooucomprado. Masoqueseraquedefineamercadoria Qualseraacaracteristicacomumquenospermitereunirsobummesmorotulo143UnidadeIII Comoasociedadesemantemcoisascomoumpardemeias umtitulouniversitarioeumapassagemde onibus SegundoMarx 1985 45 mercadoriae antesdetudo umobjetoexterno umacoisa aqualpelassuaspropriedadessatisfaznecessidadeshumanasdequalquerespecie. Anaturezadessasnecessidades seelasseoriginamdoestomagooudafantasia naoalteranadanacoisa. Aindaquebastanteclara adefinicaonaoseesgotaemsimesma. ParacompreenderaexterioridadeeacapacidadedesatisfacaoaqueserefereMarx eprecisoentenderasduasdimensoesquesesobrepoematodaequalquermercadoria ovalordeusoeovalordetroca. Ovalordeusoserefere a utilidadedamercadoriaesevincula assuascaracteristicasfisicas umalimentoserveparasaciarafome umaroupaserveparavestir umcarroserveparaselocomover. Ovalordeusoserealizanoatodeefetivoempregodamercadoria sendo portanto definidoporcriteriosqualitativos. Ovalordetroca porsuavez sedefinepelacapacidadedeamercado- riasertrocada emdeterminadasproporcoes poroutrasmercadorias. Taldefinicaosebaseianaconstatacaodequeocapitalismosesustentanumsistemadetrocaspermanentes. Umavezqueohomemseve incapazdeproduzirtudoaquiloquenecessitaparasuasubsistencia instaura-seumadinamicadetrocasmutuasqueacontecemconformepadroesdeequiva- lencia. Dessemodo estabelece-se porexemplo queumquilodebatatasequivaleameioquilodetomates ouqueumajoiapodetervalorigualaodedeterminadoimovel. Diantedestaconstatacao asquestoesformuladasporMarxemseues- forcodecompreensaodalogicadefuncionamentodocapitalismoforam oquehadecomumentreastantasmercadoriasdiferentesqueviabilizaessatrocamutua Qualeocriteriouniversalquenospermitemedirovalordequalquermercadoriaemfuncaodeoutra como porexemplo dizerqueumquilodecarnevale10quilosdecenoura Ouseja qualasubstanciaconstituidoradovalordasmercadorias 144Introdu c ao a sCi e nciasSociaisParaMarxarespostaaessasperguntaseinequivoca otrabalho. Todamercadoriaefrutodotrabalhohumano sejaelaumcurso umpacotedebiscoitosouumlitrodegasolina. Tudoaquiloquecompramosfoifeitoporoutras pessoas apartirdoempregodedeterminadaquantidadedetrabalho. Aquantidadedetrabalhoe porsuavez medidaporseutempodeduracao quepodetercomounidadedemedidafracoescomohora dia mesetc. Ovalordetrocacorresponde assim a medidadaquantidadedetrabalhoutilizadanaproducaodamercadoria. Eatravesdelaquesepodetrocarmercadoriasdistintasou maisprecisamente quantidadesdetrabalhossociaisdistintos. Nessesentido enquantoovalordeusoserefere asespecificidadesdeumamercadoria determinandoparaquefimdeveserempregada osvaloresdetrocarefletemmaisoqueasmercadoriastememcomumentresi. Percebemosqueamercadoriasedefineporconjugar nummesmoobjeto valordeusoevalordetroca. Umaroupacosturadaporumamaeparaofilho porexemplo naoeproduzidacomointuitodesertrocada naopodendo portanto serdefinidacomoumamercadoria. Umapecaidenticaadquiridaemumaloja porsuavez alemdeteromesmovalordeusodapecafeitaparausodomestico estaaindaacrescidadevalordetroca quepermitequesejacomprada tornando-se assim umamerca- doria. Portanto amercadoriasedefineporserumprodutodotrabalhohumanocriadonaoparaoconsumodequemaproduziu masparasertrocadanomercado. Eimportanteaindaperceberqueovalordeusoecondicaoimperativaparaaexistenciadovalordetroca. Issosignificaqueumprodutosopodesertrocadosetivercaracteristicasqueopermitamserusadoporalguem. Outroaspectoquemereceatencaoeofatodequeotrabalhohumanoquecriavaloresdeusoparaseuproprioconsumonaopossuiasmesmascaracteristicasqueaquelequeproduzvaloresdetroca. Quandoproduzi- mosumpaoemnossascasasparanossoproprioconsumo estamosdiantedeumtrabalhoconcreto perceptivel doqualtemoscienciadetodasasetapasenvolvidas. Porem quandoopadeiroproduzopaocomomerca- doria visandoimbui-lodevalordetrocae assim podervende-loaosseusclientes aforcadotrabalhodespendidapelosempregadosdesuapadaria145UnidadeIII Comoasociedadesemantemtemoutrascaracteristicas naoemaisotrabalhoutileconcretodehomensquefazemesteouaquelepaoqueelevadoemconta massimotrabalhohomogeneodetodososempregadosjuntos tomadodeformaabstrata geralereveladosobaformadamercadoria-pao. Taldiferencaentreostiposdetrabalhoseriaodesdobramentodiretodoprocessomaisamplodedivisaodotrabalho queentreosseculosXVIeXVIIIalterouprofundamenteanaturezadaproducaocomoadventodasmanufaturas. Esseprocesso comojavimosemoutrassecoes culminounodecliniodaproducaoartesanal quepassouadarespacoparaumsistemabaseadonacombinacaodediferentesoficios queperderamsuaindepen- dencia seespecializandoatesetornaremetapasparciaisdafeituradeumaunicamercadoria. Assim senumaproducaodomestica artesanalumamesmapessoaeresponsavelportodasasetapasdaproducaodopao numaproducaovoltadaaomercadodiferentestrabalhadoresassumemdistintasetapasdoprocesso atuandodeacordocomsuaespecialidade producaodafarinha misturadosingredientes tempodefornoeatemesmoavendadopao. Naoedificilimaginarqueadivisaodotrabalhotevecomoconsequen- ciaimediataumnotavelincrementodaproducao permitindoumaofertamuitomaiordemercadoriasaosconsumidores. OfilosofoescocesAdamSmith 1723-1790 geralmenteconsideradoofundadordaeconomiapolitica abreseulivromaisimportante Investi- gacaosobreanaturezaecausadariquezadasnacoes 1776 comoexemplodamudancacausadapeladivisaodotrabalhoemumafabricadealfinetes. Se sozinho umunicotrabalhadornaoconseguiriafazermaisdoque20alfinetesnumdia 10pessoas dividindoastarefas poderiamproduzir emmedia 4. 800alfinetescadapordia AdamSmithatribui a divisaodotra- balhoesseespetacularaumentodeprodutividadeequalidade resultantedaconjugacaodetresfatores oaumentodadestrezadecadatrabalhador aeconomiadetempoaosepassardeumaoperacaoparaoutra eainvencaodemaquinasquefacilitamotrabalhoereduzemotempoderealiza-lo. ParaAdamSmith oaumentodadivisaodotrabalhopermitirianaoapenasoaumentodariquezageral comotambemsuadifusaoatodasascamadasdapopulacao. 146Introdu c ao a sCi e nciasSociaisEssavisaopositivaeotimistacontrastacomadeMarx paraquemessemodelotambemacarretouamutilacaodotrabalhadoremsuahumanida- de fazendocomquedeixassedesereconhecernoprodutodeseutrabalho. Aoconcentrar-seapenasemumadasmuitasetapasdaproducao otraba- lhadoracabapornaoidentificarnoprodutofinalostracosdeseuesfor- co. EjustamentedessaseparacaoentreprodutoreprodutoqueseoriginaaquiloqueMarxchamadeo fetichedamercadoria. OfetichedamercadoriaVoce certamentejaouviuapalavra fetiche. Elaeusadacotidianamenteparaaludirapraticasouobjetosquedespertamalgumtipodedesejoouatracaosobrealguem. Derivadadapalavraportuguesa fetisso quedeuorigem a atual feitico fetiche sedefinecomoalgoaqueseatribuipoderesmagicos sobrenaturais. Comefeito osprimeirosregistrosdeusodessapalavraserelacionamaobjetosempregadosemcultosreligiososdaAfricaocidental cujossignificadoseramestranhosaoscolonizadorespor- tugueses. Masqualarelacaoentreamercadoria talcomodefinidaeanalisadaporMarx eaideiadefetiche Emquemedidaocampodaeconomiaedomer- cadosecruzamcomomundodamagia Pararesponderataisperguntaseprecisoretomaropontodesenvolvidonoitemanterior noqueremeteaodivorciocognitivoentreotrabalhadoreamercadoria. Issoporque nocapitalismo ohomemparticipaapenasparcialmentedoprocessoprodu- tivo acabandopornaosereconhecernoprodutodeseutrabalho. Comoconsequencia amercadoriaassumeparaeleumaformamisteriosa. ComoexplicamMarxeEngels 1982 Amercadoriaemisteriosasimplesmenteporencobrirascaracteristicassociaisdopropriotrabalhodoshomens apresentando-ascomocaracteristicasma- teriaisepropriedadessociaisinerentesaosprodutosdotrabalho porocultar portanto arelacaosocialentreostrabalhosindividuaisdosprodutoreseotrabalhototal aorefleti-lacomorelacaosocialexistente a margemdeles entreosprodutosdoseupropriotrabalho. 147UnidadeIII ComoasociedadesemantemProduz-se assim ummundoencantadoedistorcido noqualasmer- cadoriasparecemadquirirvidapropria estabelecendoporsisorelacoesnomundosocial. Umaboaamostradissopodeservistaemexpressoescotidianasqueconfirmamesseempoderamentodamercadoriafrenteaoshomens. Naoeincomumescutarmosfrasescomo oacucarsubiu ofrangobaixou ou acarnedesapareceu numaclaraincorporacaodessaaparenteagenciaeautonomiaqueasmercadoriasassumemnosistemadeproducaocapitalista. EnessesentidoqueMarxfalano fetichedamercadoria aoapresen- tar-senomercadocomoalgoautonomo dotadodequalidadesespeciaiscompletamentealheias a vontadedoshomens oprodutoseapresentaaotrabalhadorqueoproduziucomoalgo sobrenatural cujaexistenciapare- cederivardeumpassedemagica enaodeseupropriotrabalho. Defato quandovamosaosupermercadoouaumshoppingcenternosdeparamoscomumaenormegamademercadorias noscabendoapenasescolherqualdelasemaisadequada a satisfacaodenossasnecessidades. Es- tabelecemosumarelacaodiretacomessesprodutos sementraremcontatocomofundamentoquedefinesuapropriaexistencia ofatodeser tra- balhohumanocristalizado. Naopercebemos assim que aocomprarumproduto estamosadquirindonadamaisqueotrabalhodeoutraspessoas equeestamos portanto travandoumarelacaosocial. DaiaconclusaodeMarx paraquemamercadoriapodeserdefinidacomo determinadarelacaosocialentreosproprioshomensqueparaelesaquiassumeaformafantasmagoricadeumarelacaoentrecoisas Marx 1985 71. Ocultam-seassimasrelacoesdetrabalhoqueproduzemamercadoria numcenarioemque naspalavrasdoautor oprocessodaproducaopas- souadominarohomem aoinvesdeserdominadoporele Marx 1985 78. Alogicae paraMarx amesmadareligiao naqualosdeuses criadospeloshomens compropriedades caracteristicasesentimentoshumanos passamadomina-los comosetivessemumaexistenciaautonoma. NaoedificilperceberqueessecaraterfetichistadamercadoriadequenosfalaMarxeexplorado porexemplo pelapublicidade quefrequen- tementeinvesteexplicitamentenoaspecto sobrenatural damercadoria. Grandepartedalogicadeestimuloaoconsumorepousaempersuadiro148Introdu c ao a sCi e nciasSociaisconsumidordeque aoadquirirdeterminadamercadoria setornara espe- cial comose porfeitico incorporasseas propriedadesmagicas daquiloqueestacomprando. Deixa-sedelado contudo ofatodequeasmerca- doriasquecompramosnaoestaodesvinculadasderelacoessociais umavezqueeotrabalhohumano enaoalgumapropriedadefantastica sobre- humana quelhesconferevalordeusoaomodificaranaturezaparacriaralgocapazdesatisfazernossasnecessidades. EnessesentidoqueMarxfalanareificacao ou coisificacao dasrelacoessociais queperdemseucaraterhumanoparalimitar-seaocontatocomasmercadorias. Masoestabelecimentoecontinuidadedessafetichizacaodamercadoriaereificacaodasrelacoessociaisnaoseriapossivelsemointermediodeum equivalentegeral capazdemedir objetivamente ovalordetroca odinheiro. Egracasaelequeasmercadoriaspodemsertrocadassemqueocompradortenhadetercontatocomoprodutor permitindo assim queasrelacoessociaisacumuladasnoprocessodeproducaopermanecamocul- tas. E portanto amediacaododinheiroquepermitequeomercadoganheaparenciaderelacoesentrecoisas enaoentrehomensqueintercambiamoprodutodeseutrabalho. OdinheiroeaculturaobjetivaNaofoiapenasKarlMarxqueviucompreocupacaoosefeitosdoavancodasnovasformasdeproducaosobreasrelacoessociais. Comumaabor- dagemdiferente maisvoltada a analisedasinteracoeshumanasdoquepropriamentedasengrenagensdosistemaeconomico GeorgeSimmelsededicouaomesmotema apresentando em1909 umareflexaocujosprin- cipiosparecemnaoterenvelhecido. Afirmandotratardo futurodanossacultura Simmelapontaparaosperigosdadesproporcaocrescenteentrea culturadascoisas tecnologias artes conhecimentosdiversos ea culturadohomem acapacidadedoindividuodeabsorvertudoaquiloparaseucultivopessoal. Frutodopro- cessodedivisaodotrabalho esseabismosotenderiaaaumentar criandoumpanoramaemquea culturadascoisas semultiplicaria indiferentea149UnidadeIII Comoasociedadesemantemnos numavida puramenteobjetiva aopassoquenossacapacidadedecompreensaosemostrariacadavezmaislimitada. AssimcomoMarx Simmelve nessareproducaodescontroladadomun- dodaculturaobjetiva oudamercadoria comodiriaMarx umfatordedesumanizacaodasrelacoessociais quetendemasetornarcadavezmaisatomizadas. Garantindoaimpessoalidadedastrocascomerciais odinheiroseria nesseprocesso umelementocentralnatransformacaodasrelacoessociais pois comaeconomiamonetaria asrelacoessetornammaisob- jetivas deixandodeserpessoaisparasetornarem cadavezmais relacoesdetroca. Nessesentido Simmelve nodinheiroumimportantefatordedesen- volvimentodoindividualismo que comoveremosnasecaoseguinte temnopragmatismodasrelacoessociaisumdeseuselementosmaismarcantes. TemasparadiscussaoqPensarcomoapublicidadeoferecebensintangiveiseimpagaveis feli- cidade satisfacao prazer emtrocade mero dinheiro. qAbuscapermanentedodinheirocaracterizaavidamoderna Odinhei- roe odeusdanossaera SecaO20 Omododevidametropolitanoeaascensaodoindividualismo18AsgrandescidadesNasecaoanteriorvimoscomoasrelacoeshumanassofreramtransforma- coesprofundascomodesenvolvimentodocapitalismoedaeconomiamo- netaria. ApartirdosescritosdeMarxeSimmel pudemosrefletirsobreelementoscomoamercadoriaeodinheiro hojetaonaturalizadosemnos- soscotidianos percebendo-oscomofrutodeumprocessohistoricoespe- 18Textodereferencia Simmel 1979 11-25. 150Introdu c ao a sCi e nciasSociaiscificoe naomenosimportante fatoresdegrandesmudancasdospadroesdeinteracaosocial. Masamercadoriaeodinheironaosao porcerto osunicosaspectosaseremconsideradosnaanalisedaemergenciaeconsolidacaodasociedademoderno-contemporanea. Odesenvolvimentodatecnologiaindustrial osavancosdamedicina aaceleracaodosmeiosdetransporte osurgimentodafotografiaetc. saoexemplosdosincontaveiselementosque dedife- rentesmaneiras colaboraramcomaredefinicaodapaisagemfisicaeso- cialdaEuropadoseculoXIX. Mas detodososaspectosrecorrentementelembrados umdelespareceperpassartodasasanalisesclassicassobreotema oaceleradocrescimentourbanoeoconsequentesurgimentodasmetropoles. Asgrandescidadessao hojeemdia umarealidadeconhecidaemtodoomundo. Sejanonossocotidianoouemcenasdiariasnatelevisao esta- mosacostumados a imagemdegrandesavenidascheiasdecarrosecalcadaspontilhadasdetranseuntesapressados. Estima-sequeate2030cercade60 dapopulacaomundialestejavivendoemareasurbanas numamostradequeolugardascidadesemnossasociedadesotendeaaumentar. Masvoce sabedefiniroqueeumacidade Amaneiramaiscomumderesponderaestaperguntaerecorrendoacriteriosdemograficos ouseja valorizandoonumerodehabitanteseouadensidadepopulacional. Outromeiodedefinicaoeousodoschamadoscriteriosfuncionais queconsi- deramasdiferentesatividadesdapopulacaoeconomicamenteativa. Nestecaso umaglomeradodeveraserconsideradocidadequandopredomina- remossetoressecundario industriaeproducaodebensdeconsumo eterciario servicosecomercio. Eaindapossivelbuscardefinirumacidadeporcriteriosjuridico-administrativos querecorrem asdecisoeslegislativasparadeterminarondecomecaeondeterminaumterritoriourbano. Aindaquepossamseruteisemdiferentescontextosesituacoes taiscriteriosnaosao denenhumamaneira suficientesparadarcontadaquiloque nasCienciasSociais ficouconhecidocomoo fenomenourbano. Issoporque paraalemdeseusaspectosdemograficos funcionaisouad- ministrativos acidadeseapresentaaseushabitantescomoumcampodepraticas umespacoqueabrigaexperienciaserelacoespropriasdavidaem151UnidadeIII Comoasociedadesemantemgrandescidades. Maisquetentardefinir porcriteriosobjetivos oqueeumacidadeouumametropole ocientistasocialseinteressaporcompre- endercomosevivenesseslugares comoseestabelecemasrelacoessociaisquesedesenvolvemali. Comperguntasassim diversospensadoresvem desdeosprimordiosdasCienciasSociais sedebrucandosobreasespecificidadesdofenomenourbano. FriedrichEngels porexemplo escreveusobreosurgimentodaclassetrabalhadora cujapresencanasgrandescidadessefaziaporumavidamarcadapelaprecariedadedesuasmoradias. MaxWeber porsuavez elaborouumatipologiadascidades procurandomostrarcomoodesen- volvimentourbanonomundoocidentalerainseparaveldoprocessodeemergenciaeconsolidacaodocapitalismo. Masfoi semduvida oalemaoGeorgSimmelquemdedicoumaisatencao a questaodomododevidanasgrandescidades fazendodaanalisedofenomenourbanoumdoseixoscentraisdetodasuaobra. Propondoumarelacaodiretaentreodesenvolvimentodaeconomiadodinheiro aascensaodoindividualismoeomododevidametropoli- tano Simmelarticulouumaanaliseoriginalsobreasrelacoesnasgrandescidades. Sublinhandoaimpessoalidadecomoresultadomaismarcantedacombinacaoentreessestreselementos oautordelineousuareflexaoemtornodaquiloquedenominouaatitudeblasedohabitanteurbano. Atra- ducaodessapalavrafrancesasignificaembotada insensivel estagnadaporexcesso. Mas antesdeavancarnaanalisesimmelianasobreotipometropoli- tano eprecisocompreender aindaquebrevemente seusapontamentosacercadodesenvolvimentodoindividualismonoOcidente. AascensaodoindividualismoComovimosnasecao2 comAlanDawe atransicaodaIdadeMediaparaaIdadeModernafoimarcadapelofimdaquiloqueoautorcha- made ainseparabilidadeentregrupoepessoa. Motivadaporproces- soscomoaperdadopoderdaIgrejasobreavidacotidianaeaascensaodeideologiasligadasaoracionalismo essamudancafoi comorecordao152Introdu c ao a sCi e nciasSociaisautor profundamentemarcadapeloaceleradocrescimentodascidades cujasdimensoescontribuiamsobremaneiraparaadissolucaodoslacoscomunitarios. AssimcomoDawe Simmeldedicou-se a analisedastransformacoesnospadroesdasrelacoessociaisnocontextodamodernidade. Seufoco contudo recaisobreoprocessodedesenvolvimentodosentimentoociden- taldeindividualidade cujasorigensestariam segundoele noperiododaRenascenca. Marcadopelaascensaodosideaisiluministas quedefendiamoreconhecimentodosujeitocomovalor oRenascimentodeixavaparatrasarigidezdashierarquiasmedievais dandoespacoaosurgimentodoprin- cipiodauniversalidadehumana. Nasciaalioprincipiodaquiloque noseculoXVIII emergiriacomoconsequenciadiretadaRevolucaoFrancesa adifusaodosprincipiosdaigualdadeedaliberdadeque associados davamimpulsoaodesenvolvimentodeumindividualismoquesetraduziapelaideiadeautonomia. Jalivredequalquertutelaousubmissao oindividuosabia-seagorasujeitoativodedireitosedeveres papelquelheeragaranti- dopelaigualdadequeuniatodososhomens. Era deacordocomSimmel oindividualismoquantitativo emquecadaumsereconheciacomoserautonomoedotadodeliberdadenatural. NoseculoXIX porem abuscaporautonomiadarialugar a buscaporsingularidade. Como eu jasuficientementefortalecidopelosentimentodeigualdadeeuniversalidade ohomemmodernobuscoumaisumavezadesigualdade masdestavezumadesigualdadedeterminadadedentroparafora. Depoisdeoindividuotersido emprincipio liberadodasca- deiasdostatus dahereditariedadeedaIgreja abuscadaindependenciacontinuariaagoranodesafiodedistinguir-sedosoutros. Janaoimporta- vaserumindividuolivrecomotal massimserumindividuosingular insubstituivel unicodiantedosdemais. Eraoindividualismoqualitativo marcadeumasociedadequeseurbanizavarapidamente fazendodamul- tidaoedoanonimatoelementoscadavezmaiscomunsnocotidianodohomemocidental. Eimportanteperceberqueasduasformasdeindividualismo quantita- tivoequalitativo naoapenasseopoemcomotambemsecomplementam. Issoporqueoindividualismoqualitativosoepossivelsobacondicaodo153UnidadeIII Comoasociedadesemantemindividualismoquantitativo ouseja odesejopordiferenciacaososepoderealizarnumasociedadeemquealiberdadeeaigualdadeestejamdevida- mentegarantidas. Aindaquebreves essasconsideracoesnospermitemcompreenderaassociacaodiretaqueSimmelestabeleceentreindividualismoemetropole queseliganaoapenasaocrescimentofisicodascidadesmastambem a difusaodevaloresligadosaomeiourbano. Talassociacaoficaaindamaisclaraquandooautorafirmaqueotransitoporvariosgruposdiferentes comoafamilia oambientedetrabalhoeoespacodelazernoturno porexemplo econdicaobasicaparaodesenvolvimentodoindividualismo umavezqueestaexperienciaestimulaereforcaapercepcaodesicomoserindependente. Eondemaisencontrarapossibilidadedecirculacaoporuniversostaodiferentese aomesmotempo taoproximossenaonumagrandecidade Naoedificil assim compreenderporqueSimmel emseufamosotex- to Ametropoleeavidamental de1902 articulaasgrandescidadeseoindividualismomodernonumamesmareflexao fazendodelesumamesmaeinseparavelunidadedeanalise. CidadeeaatitudeblaseVoce sabecomquantaspessoascruzouhoje notrajetoentresuacasaeafaculdade Sabequantoscarrospassaramporvoce Saberiadizerporquan- tascasas edificioselojaspassou Poderiareproduzirtodasasconversasquechegaram aindaquefragmentadas aosseusouvidos Sevoce vivenumacidadedegrandeoumedioporte arespostaatodasestasperguntasecer- tamenteumaso nao. Nopragmatismodenossasvidascotidianas muitasvezessaimosdecasacomrumocerto quasequeem modopilotoautomatico echega- mosaodestinosematentar a multiplicidadeinfinitadetipos coresesonscomquenosdeparamosnotrajeto. Pessoas ruidos vozeseruassaoreuni- dossoborotulode caminho edificilmentealgonosdespertainteresse. Paranos essadesatencaoaostantosaspectosedetalhesquepovoamnossapaisagemdiariaeapenasumaposturanatural espontanea queindependedequalquerdecisao. 154Introdu c ao a sCi e nciasSociaisParaSimmel porem talposturaefrutodiretodomododevidametro- politano enascedanecessidadedeautopreservacaodoindividuodiantedoexcessodeestimulosaqueeconstantementeexposto. Detalnecessi- dadenasceriaaquiloqueoautordenomina atitudeblase umfenomenopsiquicoquederivariadeduasfontes umafisiologicaeoutraadvindadaeconomiadodinheiro. Dopontodevistafisiologico aatitudeblaseseexplicariaporaquiloqueSimmelchamadeum embotamentodossentidos ouseja a inca- pacidadedereagiranovassensacoescomaenergiaapropriada Simmel 1979 15. Seriaentaoresultadodoesgotamentodosistemanervoso queseve exaustodiantedainterminavelsucessaodeestimulosqueoambienteurbanolheimpoe. Emcontrastecomavidanocampoounascidadespe- quenas nametropolehaveriamais gasto deconsciencianoprocessodeapreensaodomundoaoredor oquelevariaaumpredominiodointelectosobreasemocoes comoformadepreservaravidasubjetiva. Bastalembrar porexemplo que nodiaadiadasgrandescidades ecomumnosdepararmoscomassaltos acidentesdetransitoeincendios entretantasoutrassituacoesquesabemosserruins quandonaotragicas. Noentanto oimpactoquesituacoescomoestasprovocamnohomemme- tropolitanoerelativamentebaixo umavezqueraramentesaoapreendidaspeloviesdaemocao. Aeconomiamonetaria porsuavez colaboracomaatitudeblaseaoimporonivelamentodetodasascoisasquecircundamavidasocialpormeiododinheiro. Assim objetosesituacoesqueemoutrocontextoseriamvetoresdeforteenvolvimentoemocionalsaoengolidospelalogicadaim- pessoalidade. NaspalavrasdeSimmel 1979 13 Odinheiro comtodasuaausenciadecoreindiferenca torna-seodenomina- dorcomumdetodososvalores arrancairreparavelmenteaessenciadascoi- sas suaindividualidade seuvalorespecificoesuaincomparabilidade. Todasascoisasflutuamcomigualgravidadeespecificanacorrenteconstantementeemmovimentododinheiro. Todasascoisasjazemnomesmonivelediferemumasdasoutrasapenasquantoaotamanhodaareaquecobrem. 155UnidadeIII ComoasociedadesemantemNumuniversoemquetudopodesercompradocomodinheiro ne- nhumobjetoousituacaoparecemerecedordeenvolvimentosubjetivo cabendotudonalogicadocalculoedaracionalidade. AreservaealiberdadeindividualSeaatituteblasesedefineporumacondicaointernaaoindividuo agindodiretamentesobreaconstituicaodasubjetividadedohomemmetropolita- no eimportantelembrarqueomesmoprocessoquelhedaformaresultatambemnumcomportamentodenaturezasocialdecaracteristicassimi- lares. Trata-sedaquiloqueSimmelchamade atitudedereserva quesedefineporuma atitudementaldosmetropolitanosumparacomooutro Simmel 1979 7 marcadapeloestabelecimentoderelacoessociaispauta- dasporaparenteindiferenca. Naoeincomumqueummoradordeumagrandecidadedesconhecaonomedeseusvizinhosoudoporteirocomquemcruzadiariamenteaoentraresairdesuacasa. Nomesmosentido porvezesviajamosdurantehorasemtransportespublicos sentadosaoladodepessoascomasquaisnaotrocamossequerumapalavra. Eaessaposturadeantipatialatentecomrelacaoaoproximo muitasvezesvistapormoradoresdecidadespequenascomosinaldefrieza queSimmeldaonomede reserva. Segundooautor aindaqueareservapossapareceroavessodasociali- zacao umavezqueemarcadaporumaatitudedeaparenteindiferenca elacorresponde naverdade aumadasformaselementaresdesocializacaourba- na. Issoporqueareservaatuariacomoumaprotecaoaoindividuo possibi- litandoquemantenhaintactasualiberdadepessoal condicaobasicadavidanasgrandescidades. Ooutroladodoanonimato porexemplo eoaumentodosentimentodeliberdadeindividualqueoindividuopodeter numame- tropole emcomparacao porexemplo aumapequenacidadedointerior ondeseusatosestaoquasesemprevisiveisparaseuscontemporaneos. Naoeporoutromotivoqueaidaparaametropolemuitasvezescorrespondeu historicamente a mudancaparaumavidademaiorliberdadeindividual. Paracompreenderoargumento bastaatentarmosparaofatodequeempequenoscirculossociaishaumaprevalenciadoesforcopormanuten- 156Introdu c ao a sCi e nciasSociais caodacoerenciainternaaogrupo oqueacabaporlimitarocampoparadesenvolvimentodequalidadesindividuais. Essetracodesindividualizantecede a medidaqueogrupocresceeaunidadeinternaseafrouxa dandoaosindividuosqueocompoemmaisliberdadedemovimento. Simmelconcluientaoqueasgrandesmetropolessaocomoimensosgrupossociais nosquaisosindividuosgozamdeumaliberdadeadvindajustamentedafluidezdeseuslacoscomseussemelhantes expressa muitasvezes pelaatitudedereserva. Sededamaisaltadivisaodotrabalho ametropoleseapresenta assim comotemplodoindividualismomoderno viabilizando a medidadesuaexpansao apossibilidadedeespecializacaocrescenteedesenvolvimentodasdiferencasindividuais aogostodoindividualismoqualitativoanterior- mentedescrito. Issonaoacontece porem semprejuizos. Simmelalertaparaofatodeque paralelamente a buscapelaespecializacaoindividual aconteceamultiplicacaodaculturaobjetiva materializadanaproliferacaodelivros edificios saberesetc. numritmoque naspalavrasdoautor extravasaavidapessoal Porumlado avidasetornainfinitamentefacilparaapersonalidadename- didaemqueosestimulos interesses empregosdetempoeconsciencialhesaooferecidosdetodososlados. Elesconduzemapessoacomoseemumacorrenteemaleprecisonadarporsimesma. Poroutrolado entretanto avidaecompostamaisemaisdessesconteudoseoferecimentosquetendemadesalojarasgenuinascoloracoeseascaracteristicasdeincomparabilidadepessoais. Issoresultaemqueoindividuoapeleparaoextremonoqueserefere a exclusividadeeparticularizacao parapreservarsuaessenciamaispessoal. Eletemdeexageraresseelementopessoalparapermanecerperceptivelateparasiproprio Simmel 1979 13. Oindividualismo cujodesenvolvimentoe comomostraSimmel inse- paraveldocontextodesurgimentodasgrandescidadesedomododevidametropolitano revela-seassimemsuafacetamaisparadoxal. Se porumlado surgecomoforcapositivadetransformacao vinculado asideiasdeliberdadeeigualdade rompendocomaopressaoerigidezdesistemastra- 157UnidadeIII Comoasociedadesemantemdicionaisdedominacaoeorganizacaosocial deoutroaparececomovetordedesagregacaosocial rompendocomvaloreseredesdereciprocidade. Entreoindividuoeasociedade entreoespiritosubjetivoeoobjetivo avidametropolitanasurgeemsuafacetamaiscomplexa desafiandoqual- quertentativadeclassificacao. TemasparadiscussaoqArespeitodosefeitosdamodernidadesobreotrabalhoeasrelacoeshumanas assistaaofilmeMetropolis deFritzLang 1926 demodoadiscutirosseguintespontos qametropoleesuasproporcoesdesumanas qasdesigualdadessociais. O JardimdosPrazeres eacidadedosope- rarios abaixodaterra qohomemeamaquina otrabalhomecanicocomoalienador. CenadeMolochmaquinacomendoescravostrabalhadores qa ditaduradorelogio eocontroledotempo. Cenadohomempre- soaorelogio qrevoltaversussolidariedadeentreasclassessociais. Comosemantema solidariedade social Durkheim SecaO21 Aadministracao cientifica dotrabalhonamodernidade19Estasecaoencerraaunidade3docursopropondooexercicioderelacionaralgumasideiasdoengenheiroamericanoFrederickWinslowTaylor 1856- 1915 consideradoo paidaadministracaocientifica comnocoesdedivisaodotrabalho disciplina controledotempoedesenvolvimentodo espiritodocapitalismo discutidoemsecoesanteriores. PropomosaindaumareflexaosobreofilmeTemposmodernos 1936 deCharlesChaplin 19Textodereferencia trechodeTaylor 1990. Filmeparadiscussao Temposmodernos deCharlesChaplin 1936. 158Introdu c ao a sCi e nciasSociaistendocomoreferenciaosefeitosdamodernidadesobreotrabalhohuma- no. OlivroPrincipiosdeadministracaocientifica 1911 consolidaesintetizaasideiasdeTaylor baseadasnareflexaosobresuapropriaexperiencia queolevoudeoperadordemaquinasaengenheiro-chefe. Suaspropostas queficaramconhecidaspelorotulodetaylorismo tiverampormuitasdecadasenormeinfluenciasobreomododeorganizacaodotrabalhoindustrial. Taylorprocurouaplicar metodoscientificos naadministracaodeem- presas principalmenteindustrias comfoconaeficaciaeeficienciaopera- cional. Opunha-se assim aoquechamavade metodosempiricos. Paratanto eleprecisavanaosodesenvolverprocessosadequadosaosfinsquebuscavacomotambemamelhormaneiradelidarcomostrabalhadores. Taylorpreocupava-se principalmente comaquiloquechamavade vadia- gemsistematica quelevavaostrabalhadoresaproduzirmuitomenosdoquepoderiamproduzir. Trabalharmenos istoe trabalhardeliberadamentedevagar demodoaevitararealizacaodetodaatarefadiaria fazercera soldering comosediznestepais handingitout comosechamanaInglaterra cancaencomoedesignadonaEscocia eoqueestageneralizadonasindustriase principalmente emgrandeescala nasempresasdeconstrucao. Pode-seafirmar semmedodecontestacao queistoconstituiomaiorperigoqueaflige atualmente asclassestrabalhado- rasdaInglaterraedosEstadosUnidos Taylor 1990 27. Tayloracreditavaque combatendoohabitodefazerceraemtodasassuasformaseconseguindofazercomqueosoperariostrabalhassememcoope- racaocomagerencia seriapossivel emmedia dobraraproducaodecadahomemedecadamaquina. Essareformadasrelacoesdeproducaopoderiapromoveroaumentodossalarioseaprosperidadegeral numotimismoqueguardagrandeafinidadecomavisaodeAdamSmithsobreadivisaodotra- balhoeseusefeitosbeneficossobreariquezageral versecao19. Masemqueconsistiaa vadiagemnotrabalho Taylor 1990 27 per- gunta 159UnidadeIII ComoasociedadesemantemPorque emfacedapropriaevidenciadestefatodequeamaximaprosperida- desopodeexistircomoresultadodoesforcodecadaoperarioparaproduzirtodososdiasomaispossivel agrandemaioriadenossosobreirosfazdelibera- damenteocontrarioe mesmoquandoohomemtemamelhordasintencoes seutrabalhoesta emmuitoscasos longedesereficiente Arespostaestariaemtrescausas a avisaoerrada aseuver dequeomaiorrendimentodohomemedamaquinateriacomoresultadoodesem- pregodegrandenumerodeoperarios erroestequeseriareforcadopelaacaodesindicadosefilantropos agitadores e sentimentalistas b umaadministracaonaosistematicaqueacabavaforcandoosempregadosafazerceranotrabalho afimdemelhorprotegerseusinteresses ec metodosempiricosineficientesadotadosnagrandemaioriadasempresas queleva- riamooperarioa desperdicar grandepartedeseuesforco. Paraalemda indolencianatural quefariacomquetodohomempro- curasserealizaromenoresforcopossivel Tayloracreditavanopoderda indolenciasistematica aquelas ideiaseraciociniosmaisoumenoscon- fusos provenientesdeintercomunicacaohumana Taylor 1990 30. ComopodemoscompreendersociologicamenteoqueTaylorchamade habitodefazercera Lembremos emprimeirolugar davisaodeMaxWeber secoes17e18 sobreoconflitoentreotradicionalismoeconomi- cocaracteristicodocristianismopre-Reformaeanovaeticaprotestantevocacionadaparaotrabalhoeolucro quesedesenvolveuassociadaaumnovo espirito docapitalismo. Alemdisso pensemos apartirdotextodeEdwardThompson secao15 sobrecomoconcepcoesdistintasdetempoetrabalhoestaoemjogoentreostrabalhadorescriticadosporTayloreosprincipiosdeadministracaoqueconsidera cientificos. ValeressaltarqueTaylordefendeanecessidadedeum perfeitoestudodetempoemovimen- to feitoporpessoacompetente Taylor 1990 33 arespeitodotrabalhodosoperarios comobaseparaaadocaodeseusprincipios. Taylornaodefendeoobjetivodesimplesmenteseobrigarostrabalha- doresatrabalharmaisparagerarmaislucro. Preocupava-setambememproporcionarsalariosmaisaltosaostrabalhadoresecomoestabelecimentoda confiancamutuaquedeveexistirentrechefesesubordinados oentu- 160Introdu c ao a sCi e nciasSociaissiasmo osentimentodequetodosestaotrabalhandoparaomesmofimedivisaonosresultados Taylor 1990 33. Lembremo-nos combasenadiscussaodeDurkheim secao14 decomoasolidariedadeorganica ca- racteristicadassociedadescomacentuadadivisaodotrabalhosocial tem comocontrapartida oriscodeanomia. OhomemeamaquinaAsideiasdeTaylortiveramgrandesucessoeforamamplamenteadota- daspeloempresarioamericanoHenryFord 1863-1947. Fundador em1903 daFordMotorCompany emDetroit elerevolucionouaformadeseproduzirautomoveispormeiododesenvolvimentodeuma linhademontagem emesteirasrolantesquesemovimentavamenquantoosoperariosficavamparados realizandoumaunicaatividade. Essainovacaoaumentouenormementeaproducao. Noiniciode1914 Fordtambemsurpreendeuomercadodetrabalhonorte-americanoaoofereceropagamentodeUS5pordiaaseusempre- gados odobrodoquesecostumavapagar. Comisso conseguiuatrairmaodeobraqualificadaediminuiroscustoscomtreinamentoeperdasdevidos a rotatividadedosempregados. Fordcriou assim omercadodemassaparaosautomoveis tornando-oumbemdeconsumotaomaisbarato compa- radoaoquehaviaanteriormente quemuitospoderiamcompra-lo. OprincipiodaracionalizacaodaadministracaodotrabalhopropostoporTayloreimplementadocomgrandesucessoporFord todavia sofreugrandescriticas. Aprincipaleradequeessainovacaoacabouportransfor- marohomememumamaquina tratandoosoperariosapenascomouma engrenagem dosistemaprodutivo. Arealizacaodeapenasumatarefatambemfariacomquetivesseumavisaoextremamentelimitadadetodooprocessoprodutivo. AmencaoaofilmeTemposmodernos deCharlesChaplin torna-se aqui obrigatoria. Lancado25anosaposapublicacaodolivrodeTaylorenoaugedosucessoindustrialdeFord Chaplinproduziuumfilmecomi- co masquerepresentavaacimadetudoumacriticaprofundaaotrabalhomecanicoerepetitivo. 161UnidadeIII ComoasociedadesemantemNofilme osoperariossaopermanentementevigiados lembremo- nosaquidomodelopanopticodescritoporFoucaultnassecoes11e12. Ocontroledopatraoexerce-se porem naoapenassobreocorpo mastambemsobreotempodoempregado. A maquinaalimentadora queapa- recenofilmetemporobjetivojustamenteeliminarahoradoalmocoeaconsequente perda detempo. Comoresultadodesseexcessodecontroleedemovimentosrepetitivosesemsentidoparaele ooperarioelevadoparaohospitalcomuma crisedenervos eterminadesempregado. Omedicoqueoatenderecomenda numafrasequelembraavisaodeGeorgSimmel secao20 sobreoexcessodeestimulosdomundodametropole Naoseexcite. . . . Vemos assim queaspropostasfeitasporTaylorparaotimizacaodotempodeproducaonaopodemservistascomoumconjuntoisoladodeideias. DialogamcomasmuitastransformacoesquetomaramcursoaolongodoseculoXIX e asquaisdiferentescientistassociaisbuscaramatri- buirsentido. JanoseculoXX ofilmedeCharlesChaplindeixaclaroaqui- loquevariosautorestrabalhadosnassecoesanterioresjaanunciavam nachegadadamodernidade nemtudoeramflores. TemasparadiscussaoqUmadasprincipaisbandeirasdelutadostrabalhadores desdeoseculoXIX temsidoareducaodajornadadetrabalho. DesdeofinaldaIIGuerraMundial feriasremuneradastemsidogeneralizadascomocon- quistastrabalhistas. qDequeformaessasmedidasevisoescontemporaneassobreo ociocria- tivo eaimportanciadolazerparaoaumentodaprodutividadeeareducaodoestressecontrastamcomavisaodeTaylor UnidadeIVComoasociedadesetransforma omundodapoliticaqDemocraciaeditadura. qAperspectivarevolucionaria. qAteoriadaselitesea leidebronzedasoligarquias. qDemocracia igualdadeeliberdade. 164Introdu c ao a sCi e nciasSociaisSecaO22 Democracia igualdade liberdadeeseusperigos20OfrancesAlexisdeTocqueville 1805-1859 pertenciaaumafamiliadapequenanobrezaanterior a RevolucaoFrancesa. Emsuacarreira exerceuintensaatividadecomomagistradoedepoiscomopolitico. Em1839foieleitodeputado aprimeirademuitaseleicoes. FoideputadonaAssembleiaNacionalem1848 mesmoanodoManifestoComunistadeMarxeEngels colaborandonaredacaodaConstituicaodaSegundaRepublicafrancesa. Durantecincomeses em1849 foiministrodasRelacoesExteriores. Em1851 retirou-sedavidapolitica. Nosultimosanosdesuavida escreveudoisimportanteslivros quesoviriamaserpublicadospostumamente OAntigoRegimeeaRevolucao 1856 eLembrancasde1848 1893. Tocquevilletornou-sefamosoparaaposteridade todavia principal- mentedevido a influenciadeseulivroAdemocracianaAmerica cujapri- meirapartefoipublicadaem1835 asegunda em1840. OlivrofoifrutodeumaviagemdetrabalhorealizadaaosEstadosUnidosentremaiode1831efevereirode1832 paraestudarosistemapenitenciarioamericano. Navolta eleescreveuolivrocomoumareflexaosobreaquelasociedade poremsemprecomparando-acomasociedadeaindaprofundamentearis- tocraticadesuaFranca. Valelembrarque porocasiaodesuachegadaaosEstadosUnidos aquelepaisexistiahapoucomaisdemeioseculo suaindependenciadaInglaterraforaconquistadaem1776. Tratava-se emboamedida deummundopoliticonovo aindapoucoconhecidoparaoseuropeus. DemocraciaeigualitarismoAquestaocentralqueatravessatodoolivroe comoimpedirqueoigua- litarismo queTocquevilleconsideravaumacaracteristicafundamentaldacivilizacaoamericana ameacealiberdadeindividual Emoutraspalavras comoimpedirqueseinstaure noseiodeumasociedadedemocratica e20Textodereferencia trechosselecionadosdeTocqueville 1979. 165UnidadeIV Comoasociedadesetransformaporcausadesuaspropriastendenciasintrinsecas atiraniadamaioria Aoexaminarmossuaargumentacao devemostersempreemmenteque descendentedeumafamiliaaristocratica eleoscilavaentreaadmiracaoeacritica a sociedadeamericanaqueconheceu. Tocquevilleafirmaqueoshomensalimentamuma paixaoinsaciavel ardente eterna invencivel pelaigualdade equeasociedadeevoluineces- sariamentenosentidodoigualitarismo. Eleviunacivilizacaoamericanaumafortetendenciaparaauniformizacaoeumadificuldademuitograndenosentidodetolerarpessoasougruposquequisessempensarouviverdeformadiferente. Atendenciademocraticaaoigualitarismo portanto amea cariaaliberdadeindividual. Nestemomento eimportanteprecisarmosoqueTocquevilleentendiapordemocracia. Estavasereferindo emseulivro maisacertotipodesocieda- dedoqueacertotipodepoder. Democraciaesta paraele associadaaigua- litarismoeigualdadesocial semrespeitardiferencashereditariasdeordensouclasses. Numasociedadedemocratica todasasocupacoesehonrariases- tariam emprincipio abertasatodosesubmetidasaoprincipiodomerito mesmoqueesseidealnaoserealizasseplenamentenomundoreal. Umexemplointeressante aotratardosinstintosedasinclinacoesnatu- raisdademocracia eoexamequeTocquevillefazdaquiloqueconsideraadeficienciadovotouniversal diferentedovotocensitario restritoaquemtinharendaacimadedeterminadovalor. Comoseria impossivelalcarasluzesdopovoacimadecertonivel omeritoacabariasetornandoraroentreosgovernantes. Ouseja eleachaquefazpartedo instintonaturaldade- mocracia opovoafastardopoderos homensnotaveis estes porsuavez seafastariamdacarreirapolitica emquelhesetaodificilserautenticos eavancarsemsetornaremvis Tocqueville 1979 229-230. Issolevariaaumatendencia a uniformidadedosmodosedosniveisdevida. Opovosoescolheriahomensnotaveisemsituacoesdegrandeperigo deameacasaoEstado. AristocraciaxdemocraciaComojadissemos emboraotitulodolivrorefira-se a democracia Toc- quevillesemprefazacomparacao eocontraste comaaristocracia. Um166Introdu c ao a sCi e nciasSociaisexemploclarodesseexercicioencontra-seemsuavisaosobreatendencia a corrupcao. Paraele nasaristocracias quemchegaaopoderjaerico esodesejaopoder nasdemocracias quemchegaaopoderepobre eaindafal- taenriquecer. Ouseja asaristocraciasseriammenosacessiveis a corrupcao. Poroutrolado ademocraciaseriamaisapropriadaadirigirumasocie- dadepacifica poisalongaexposicaoaosperigosnaolheseriapropicia. Nasdemocraciasoshomensseacomodariammaisaopresente asnecessidadesdomomento tornando-semaisdificildirigirsuaspaixoesemdirecaoaofuturo. Assim comodesenvolvimentodademocracia asrevolucoessetornariammaisraras. Odesenvolvimentodocapitalismo navisaodeToc- queville levavaaosurgimentodeumasociedadeemquecadaumpossuiaalgumacoisaeondequasetodosestariaminteressadosnaconservacaodaordemsocial. Eumavisaoresignada epoucoentusiastica doemburgue- samentogeneralizado diferentedavisaoapocalipticaerevolucionariadeseucontemporaneoKarlMarx. ParaTocqueville adiminuicaodasdesigualdadeslevavaaoaumentodasclassesmedias quetem enormeaprecoporseusbens. Dessemodo amaioriadapopulacaoveriamaisperdasqueganhosnumapossivelre- volucao. Presosaosentimentodepropriedadeeaospequenosnegociosdasuavidacotidiana oscidadaosdeumasociedadedemocraticateriamocuidadodenuncaultrapassaroslimitesquelevariamaumarupturarevo- lucionaria. AsvirtudesdademocraciaOsvicioseasfraquezasdogovernodemocraticosaovisiveis pode-sedemonstra- losatravesdeexemplospatentes enquantosuainfluenciasalutarseexercedemaneirainsensivele porassimdizer oculta. Seusdefeitosaparecem a primeiravista massuasqualidadessosepoemadescobertoalongoprazo Tocqueville 1979 234. ParaTocqueville quaisseriamessasvantagensreaisdademocraciaame- ricana Acimadetudo oprivilegiode podercometererrosreparaveis Tocqueville 1979 235. Seosgovernantessemostrammenoshonestos167UnidadeIV Comoasociedadesetransformaoucapazes osgovernadospodemsemostrarmaisesclarecidoseatentos. Alemdisso comoosdirigentesvemdoseiodopovo estepodeimpedircommaisfacilidadequeosgovernantesseafastemdointeressegeraldasociedade. Janaaristocracia predominaum interessedeclasse queefrequentementedistintodointeressedamaioria Ha portanto nasinstituicoesdemocraticasumatendenciaobscuraquefazcomqueoshomensconcorramparaaprosperidadegeral apesardeseusvicioseerros enquantonasinstituicoesaristocraticasdescobre-se asvezes umain- clinacaosecretaque apesardetalentosevirtudes leva-osacontribuirparaamiseriadeseussemelhantes Tocqueville 1979 236. Nessesentido nasdemocracias viciosprivadospodemlevaravirtudespublicas. Outropontoaltodademocracia equeencantaTocqueville eaintensaatividadepolitica oespiritodeparticipacaopublicaqueaanima Recem-chegadoaosoloamericano encontramo-nos ja nomeiodeumtu- multo umconfusoclamoreleva-sedetodasaspartes milvozeschegam aomesmotempo aosouvidos cadaumadelasexprimeumanecessidadesocial. Emtornodagente tudosemove aquiopovodeumbairroestasereunindoparasabersesedeveconstruirumaigreja alitrabalha-senaescolhadeumde- putado maislonge osdeputadosprovinciaisdirigem-serapidamente a cidadeafimdedeliberarsobremelhoriaslocais emoutrolugar saocultivadoresdeumpovoado queabandonamosaradosparairemdiscutirsobreumplanodeestradaouescola Tocqueville 1979 236-237. Emboraumdespotapossasermaisesclarecidoqueumgovernantees- colhidopelopovo alongoprazo ademocraciaproduzmaisqueodespotismo fazmenosbemcadacoisa poremmaiscoisas. Oqueegrandiosonesseregimenaoeoqueaadministracaopublicaexecuta eoquesefazsemela foradela. Ademocracianaodaaopovoogovernomaishabil mascriaoqueogovernomaishabilnem168Introdu c ao a sCi e nciasSociaissemprepodecriar difundeemtodoocorposocialumaatividadeinquieta umaforcasuperabundante umaenergia quenaoexistemsemela eque porpoucoquelhessejamfavoraveisascircunstancias podemfazermaravilhas. Essassaoassuasvantagens Tocqueville 1979 238. RiscosdademocraciaAdemocracia comseu imperiomoraldamaioria teriacomofunda- mentoaideiadequeosinteressesdomaiornumerodevemserpreferidosaosdaminoria. Issoseriatambemumperigo pordar a maioriaumimensopoderdeopiniaoedefato aoqualedificilresistirequepodeoprimirasminorias. Tocquevillechamaaatencaoparaaexistenciadeumaleimaisgeraleuniversal adajusticaedarazao quetranscenderiaavontadedamaioria Quandomerecusoaobedeceraumaleiinjusta naonego a maioriaodireitodedirigir apelo a soberaniadogenerohumanocontraasoberaniadopovo Tocqueville 1979 239. Semaexistenciadeumpodersuperior acreditaTocqueville todoscor- reriamoriscodesetornaremescravos Creioqueesemprenecessariocolocar-seemalgumlugarumpodersocialsu- perioratodososoutros masvejoaliberdadeemperigoquandoessepodernaoencontradiantedesinenhumobstaculoquepossareter-lheamarchaedar-lheotempodesemoderar. Aonipotenciaparece-meperigosaemaemsimesma. . . . Quando portanto vejodarodireitoafaculdadedefazertudoaumapotenciaqualquer quersechamepovoourei democraciaouaristocracia querseexercanumamonarquia quernumarepublica entaodigo aiestaogermedatirania eprocuroirviversoboutrasleis. Oquemaiscondenonosgovernosdemocra- ticos comooqueestaorganizadonosEstadosUnidos naoe comomuitosopretendemnaEuropa suafraqueza mas aocontrario suaforcairresistivel. OquemaismerepugnanaAmericanaoeaextremaliberdadereinante eopoucodegarantiaaiencontradocontraatirania Tocqueville 1979 240. 169UnidadeIV ComoasociedadesetransformaTocquevillecomungadavisao comumamuitospoliticosepensadoresconservadoresdesuaepoca dequeademocraciapoderialevar a anar- quia emfuncaodo amorpelaindependencia queaigualdadedecon- dicoesproduz. Noentanto paraele omalmaiorqueademocraciapodecausarnaoeesse esimofatodeimpeliroshomens a servidao. Estecaminho eesteperigo naoseriataoevidentequantoaquelesquelevam a anarquia porissomesmo maisdificildeserpercebidoedeseresistiraele. Dessemodo emboraTocqueville 1979 307 admirassea inclinacaoinstintivapelaindependenciapolitica esobessepontodevistaquemeapego a democracia temiaaservidaoaqueademocraciapoderialevar. Ainexistenciadepoderesintermediarios numasociedadedemocratica tambemapresentariaseriosriscos. Enquantonosestadosaristocraticoseranaturalaideiadaexistenciadepoderessecundarios situadosentreosobe- ranoeossuditos nosistemademocraticoprevaleceaideiadeumpoderunicoecentral uniformeeforte providencialecriador. Comademocra- cia cadavezmais osindividuosparecemmenoreseasociedademaior Tocqueville 1979 308 eoscidadaosnaoimaginamlimites a atuacaodopoderconstituido anocaodepoderintermediarioseobscureceeseapaga. Aideiadeumdireitoinerenteacertosindividuosdesaparecerapidamentedoespiritodoshomens Tocqueville 1979 308. Ouseja nadamaisseve senaooEstado Tocqueville 1979 309 quepassaaserounicorepresentantedosproblemascoletivos. Osindividuospassam comisso aserestringircadavezmais a esferaprivada. Essaten- dencialevaauma concentracaodetodososdireitospoliticosnasmaosdorepresentantedoEstado Tocqueville 1979 309. Dessemodo umasociedadedemocraticapode segundooautor favoreceroestabelecimentodeumdespotismo. Trata-se noentanto deumtipodedespotismonovo diferentedetudooqueexistiunaAntiguidade. Comodefenderaliberdadeameacadaporessastendenciasdemocra- ticas ParaTocqueville epreciso comonasaristocracias dividiropodersocial criandoinstanciasintermediariasenuncaodeixandopesarcom170Introdu c ao a sCi e nciasSociaistodaasuaforcasobrecadahomem. Issogarantiriaaindependenciadoshomens. Asociedadedeveriatercorpossecundarios comoasassembleiasprovinciais. Podemosimaginarcomoofederalismo omunicipalismoeaexistenciadeburocraciasestaveistambemagiriamnessesentido. Finalmente Tocquevilledestacadoisaspectosdeenormeimportancianumasociedadedemocratica edeextremaatualidade aliberdadedeim- prensaeamanutencao atodocusto danocaodedireitosindividuais Nasaristocracias cadahomemesempreligadoavariosdeseusconcidadaos demaneiraquenaosepodeatacaraestesemqueosoutroscorramemsuaaju- da. Nasepocasigualitarias cadaindividuoencontra-senaturalmenteisolado pode-sefacilmentecoloca-lodeladoepisotea-loimpunemente Tocqueville 1979 313. SecaO23 Aideologiacomoinstrumentodedominacaodeclasse21TeoriasocialevidamaterialNassessoesanterioresrefletimossobrediferentesaspectosdocapitalismo suaimportancianodesenvolvimentodoindividualismo aformacomoalterouasrelacoesdetrabalho suainfluenciasobreaformacaodeumaculturapautadanocalculoracional. AgoraveremoscomoMarxeEngelsarticularamumaanalisecriticasobreosistemacapitalistacomointuitodepropor atravesdateoriasocial estrategiasdeacaotransformadorasobreasociedadeemqueviviam. Escritoem1846 Aideologiaalema econsideradaumadasmaisimpor- tantesobrasdeMarxeEngels. ApesardepublicadosomenteaposamortedeMarx aprimeiraedicaoede1932 oescritoeumvaliosoregistrodaguina- dadosautoresrumoaumaperspectivatransformadoradasociedade oudesuapassagemdoidealismoaomaterialismo comoseraexpostomaisadiante. 21Textodereferencia MarxeEngels 1982. 171UnidadeIV ComoasociedadesetransformaOtextosearticulacomoumataqueaos jovenshegelianos umgrupodeestudantesejovensprofessoresdaUniversidadeHumboldtdeBerlimquepartiamdafilosofiadeHegelpararefletir deformacritica sobreosrumosdasociedadeprussiana. Ogruposeopunha sobretudo a influenciadedoutrinasreligiosassobreoEstado vendonareligiaoaformasupremadealienacaodoserhumanoe portanto ummalasercombatido. AindaqueMarxcompartilhassedascriticasdosjovenshege- lianos a religiao queeleproprio maistarde descreveriacomo oopiodopovo eleeEngelsdeixammuitoclaroseudesarcordocomogrupodefilosofos baseandoseusargumentosemduasfrentes adistanciaentreseusescritosearealidadesocial eofoconareligiaocomocernedopro- cessodealienacao. OpontodepartidadacriticafeitaporMarxeEngelsaosjovenshege- lianoseraofatodequeogrupodefilosofosvianoespiritohumano enaonaacaohumana osujeitodahistoria. SegundoosautoresdeAideologiaalema talposturalevavaosjovenshegelianosacombaterapenas asfrasesdestemundo abstendo-sedequalquercontatocomomundosocial. Oquefaltavaaessesfilosofosera assim perguntarpelainterconexaodafilo- sofiaalema comarealidadeefetivaalema pelainterconexaodacriticadelescomapropriacircunstanciamaterialdeles MarxeEngels 1982 186. Maisdoqueumacriticaaumgrupoespecificodepensadores MarxeEngelsarticulavamaliumanovapropostadeteoriasocial quetinhanacompreensaodosindividuosefetivosemsuasacoesconcretasseuobjetodeanalise. Emumadaspassagensmaisconhecidasdotexto osautoresafirmamque naoeaconscienciaquedeterminaavida eavidaquedeter- minaaconsciencia MarxeEngels 1982 23. Aoinverteremalogicadopensamentofilosofico defendiamqueasideiasnaodeterminamarealida- desocial esimocontrario. Essespressupostostinham segundoosautores qualidadesinquestio- naveisanteospostuladosfilosoficos Saopressupostosreaisdequenaosepodefazerabstracaoanaosernaimagina- cao. Saoosindividuosreais suaacaoesuascondicoesmateriaisdevida tantoaquelasporelesjaencontradas comoasproduzidasporsuapropriaacao. 172Introdu c ao a sCi e nciasSociaisEstespressupostossao pois verificaveisporviapuramenteempirica MarxeEngels 1982 26-27. Mascomoconduzirtalverificacao Entreostantosaspectosdavidasocial qualoenfoqueadequadoaumaanalisepautadanaquelespressu- postos ArespostaaestasperguntasaparecenainsistenciacomqueMarxeEngelsremetem aquiloquechamamdeas condicoesmateriaisdevida argumentandoquealiestariaachaveparaumaanaliseverdadeiramentetransformadoradarealidade Somosforcadosacomecarconstatandoqueoprimeiropressupostodetodaaexistenciahumanae portanto detodaahistoria equeoshomensdevemes- taremcondicoesdeviverparapoder fazerhistoria. Mas paraviver eprecisoantesdetudocomer beber terhabitacao vestir-seealgumascoisasmais. Oprimeiroatohistoricoe portanto aproducaodosmeiosquepermitamasa- tisfacaodestasnecessidades aproducaodapropriavidamaterial edefatoesteeumatohistorico umacondicaofundamentaldetodaahistoria queaindahoje comohamilharesdeanos devesercumpridotodososdiasetodasashoras simplesmenteparamanteroshomensvivos MarxeEngels 1982 21. MarxeEngelsexplicitamassimacentralidadedavidamaterialemsuaanalise enfatizandoarelevanciadasacoesmaisbasicas maiscotidianas a compreensaodarealidadesocial. Masosautoresdeixamclarotambemqueavidamaterialnaotemimportanciaporsiso esimcomoresultadodaproducaoque emtodoequalquertempo marcaaexperienciahumananabuscaporsatisfazersuasnecessidades. Afinal ohomemdeveproduzirsuacomida suamoradiaesuasroupas alemdasferramentasadequadas a producaodecadaumdeles. Arealidadesocialseria destemodo marcadaporumprocessoprodutivoininterrupto atravesdoqualoshomenspro- duziriamnaoapenasoselementosdesuavidamaterialcomotambemasrelacoessociaisqueaconstituem. Voltandosuaanaliseparaocontextodomundocapitalista noqualosmeiosdeproducao terras industriasetc. saocontroladosporumaclassedeterminada aburguesia MarxeEngelsconcluemque diferentemente173UnidadeIV Comoasociedadesetransformadoquedefendiamosjovenshegelianos naoeraareligiao massimapossedocapitalqueconstituiaabasedopoderestabelecido. Areligiaoseria nes- sesentido apenasumacortinadefumacaqueobscureciaaverdadeirabasedopoderestabelecido. Atuariaaindacomoumamparovitalaostrabalha- doresque desprovidosdapossedosmeiosdeproducao encontravamnareligiaoumdospoucoselementosdeconfortoemmeio a opressao. Comessesargumentos MarxeEngelsdavamformaaoque maistar- de ficariaconhecidocomomaterialismohistorico umaperspectivateorico- metodologicaqueve navidamaterial ou maisprecisamente nosmodosdeproducao oeixodaanalisesocial. Comfoconatransformacaodassocie- dadesaolongodotempo essaabordagempartedaideiadequeomotordahistoriaseriamossucessivosconfrontosentreasdiferentesclassessociais umavezqueoprocessoprodutivoteriasedadosempreatravesda explo- racaodohomempelohomem. Percebemosassimque paraMarxeEngels omundodasideias queconstituiomundodapolitica dacultura dasinstituicoesetc. seerigiriacomoumadecorrenciadasrelacoesdeproducaoqueorganizamavidamaterialnasuadimensaomaisconcreta. Issonaosignifica entretanto queosautorestenhamdeixadodeladoatarefaderefletirsobreocampodasideias pelocontrario. Comoveremosaseguir esseeumdospontoscen- traisdaelaboracaodeseuargumento dandocorpoaoprincipiotransfor- madorquepermeiatodaAideologiaalema. Ideologia Ideologia eumapalavracorrenteemnossoscotidianos. Usadanocon- textodosensocomum aparececomodescricaodeumconjuntodeideias valoresoucrencasqueorientamapercepcaoeocomportamentodosin- dividuossobretemascomopolitica economia condicoessociaisetc. Mas paraalemdesseusocorrente ideologia carregaemsiumafortecargaconceitual oquefazcomqueseuempregonasCienciasSociaissejasem- precercadodereferencias. OtermosurgiunoiniciodoseculoXIX quandoopensadorfrancesAntoineDestuttdeTracyousouparadesignar oestudocientificodas174Introdu c ao a sCi e nciasSociaisideias nolivroElementosdeideologia 1801. Oautorpropunhaousodemetodosdascienciasnaturais comoaFisicaeaBiologia paracom- preenderoprocessodeformacaodasideias comorazao vontadeemo- ral entreoutras apartirdaobservacaodoindividuoeminteracaocomoambientequeocercava. Contudo naotardouparaqueotermoganhassenovossignificados. EmileDurkheim porexemplo paraquemoobjetodaSociologiaeramosfatossociais comovimosnasecao14 vianaideologiaumaspectoirrelevante pre-cientifico e portanto improprioaoestudodarealidadesocial. Comoficaclarodesdeotitulo oconceitodeideologiaecentralemAideologiaalema. Aliosautoresdesenvolvemumadefinicaopropriadotermo queacabariaporsetornarumelementocentralemsuasobrasfuturas. Retomandooargumentodequeaproducaodasideiasnaopodeseranalisadaseparadamentedascondicoesmateriaisemqueocorre MarxeEngelsveemnaideologiaoresultadodiretodasrelacoesdedominacaoentreasclassessociaisdedeterminadocontexto. Desenvolvendotalpres- suposto osautoresdefinemaideologiacomoumconjuntodeproposi- coeselaboradopelaclassedominantecomafinalidadedefazercomqueseusinteressesparecamserointeressecoletivo. Aideologiaseria assim uminstrumentodedominacaoaservicodaclassedetentoradosmeiosdeproducao. TranspostoparaocapitalismodoseculoXIX aideologiasede- finia portanto comoumaferramentadamanutencaodaordemburguesa calcadanoprincipiodaopressaodaclasseproletaria. Aideologiaseria navisaodeMarxeEngels uma representacaoinvertida darealidade comouma cameraescura umexperimentoprecursordafotografiaqueprojeta- vaasimagensexternasdeformainvertidanointeriordacamera. Umadasmostrasmaiscontundentesdetalmecanismoera deacordocomosautores oprincipiodapropriedadeprivada. Basedosistemacapi- talista apropriedadeprivada bemcomoasdiferencasentreproprietariosenaoproprietarios aparecenasrepresentacoesdosindividuoscomoalgoquesempreexistiuequefazparteda ordemnatural dascoisas. MarxeEngelsprocurammostrar contudo queessasrepresentacoesservemape- nasaosinteressesdaburguesia classequeefetivamentetinhaacesso a pro- 175UnidadeIV Comoasociedadesetransformapriedadeprivada controlandopormeiodestaosmeiosdeproducao. Noentanto pormeiodaideologia aburguesiaacabaporimporoprincipiodapropriedadeprivadacomoalgoqueserveaointeressedetodaasociedade enaoapenas a suaclasse perpetuando-seassimcomogrupodominante. Aofazercomqueoproletariadoacreditequeapropriedadeprivadaealgonaturalequedeve portanto serseuobjetivomaior aburguesiaaca- baporgarantirqueostrabalhadorespermanecamsobseudominio semquestionaraopressaoaquesaosubmetidos. Enessesentidoqueosautoresdefinemaideologiacomouma falsaconsciencia umacrencamistificantesocialmentedeterminadaqueseprestaaestabilizaraordemsocialvigenteembeneficiodasclassesdominantes. Poressaperspectiva asuperacaodaideologiaseriaaunicaformadetransformaraordemestabelecida umavezqueesobreelaquesesustentaopoderdaclassedominante. Eounicocaminhoparaorompimentodoproletariadocomideologiaburguesaseria aindadeacordocomosautores atomadadeconscienciadeclasse ouseja apercepcaodequeosinteressesdaclassedominantesaocontrariosaosseuspropriosinteresses. Atehojeosfilosofosinterpretaramomundo cabeanostransforma- lo afirmouMarxemumpequenoescritochamado TesessobreFeuer- bach. Combasenesteprincipiopublicaram em1848 oManifestodoPartidoComunista buscandojustamenteagirsobreomundosocialpormeiodaconvocacaodostrabalhadores a tomadadeconscienciasobresuacondicaodeclasse. SecaO24 OManifestodoPartidoComunista omaterialismohistoricoealutapolitica22AhistoriadeummanifestoNasecaopassadavimosdequemodoMarxeEngelsarticulamummodelodeteoriasocialquetemcomoprincipionorteadoratransformacaodarea- lidade. Talprincipioera porcerto profundamenteenraizadonocontexto22Textodereferencia MarxeEngels 2006. 176Introdu c ao a sCi e nciasSociaisvividopelosautores. Assistindo a consolidacaodosistemacapitalistae a formacaodaclasseoperaria MarxeEngelstomaramparasiodesafiodepensarsobreumaquestaoquesefaziacadavezmaispresentenocotidianodamodernidade adesigualdade. Paraisso sedispuseramaenfrentarasbasesdaideologialiberal sobreasquaisseconstruiraboapartedosfun- damentosquesustentavamodesenvolvimentoeadifusaodomododeproducaocapitalista. AconsolidacaodaideologialiberalaolongodoseculoXIXtevecomocontrapontoodesenvolvimentodeoutraideologia que igualmentefru- todoracionalismoiluminista vinhaaoferecerrespostascompletamentediversasparaosdesafiosapresentadospeloprocessodedesenvolvimentocapitalista osocialismo entendidodemaneiraamplacomoajuncaodecorrenteseconcepcoespoliticasdiversasquetinhamemcomumapropos- tadeenfrentaradesigualdade. Estascorrentessebaseavam deinicio nalogicacomunitaristaquemarcavaasproposicoesdeautorescomoSaintSimon FouriereRobertOwen cujaspropostascarregavamumidealismoquelevoucriticosdaposteridadeadefini-loscomosocialistasutopicos. Natrilhadessesprimeirosideologos outrosautorespassariamaquestionarospressupostosdocapitalismo sepropondoacombaterabertamenteasbasesdesuaestruturacao comofez porexemplo ofilosofoJ. P. ProudhonnolivroOqueeapropriedade de1840. Nessequadrojaconsolidadodecriti- ca a logicaliberalfoilancado em1848 oManifestodoPartidoComunista umdosmaisimportantestextospoliticosescritosnoseculoXIX. NaoeraaprimeiravezqueMarxexpunhasuacritica a ordemliberalvi- gente. Em1845 aos27anos jahaviapublicado emcolaboracaocomEngels queacabaradelancaraSituacaodaclassetrabalhadoranaInglaterra olivroAsagradafamilia noqualcontestavaoidealismoproprioacertoscirculosdepensamentoentaodominantesnaAlemanha. OManifestoera assim omomentomaiordaexposicaodeumaconcepcaodesociedadequeMarxeEngelsvinhamdesenvolvendoaolongodaqueladecada. Naoedificilentenderomaioralcancedestetrabalhoemrelacao asobrasanterioresdeMarx. Comosugereseutitulo naosetratadeumaobrateorica esimdeumpanfletopolitico. Pormaisqueotermo partido naosereferisseanenhumaorganizacaoestruturada comosugereosentido177UnidadeIV Comoasociedadesetransformamodernodapalavra otextofoiescritoporencomendadaLigadosCo- munistas umaorganizacaodeartesaosfundadaemParisnadecadade1830 equedeiniciosechamavaLigadosJustos. Aoparticipardeumdoscongressosdaassociacao MarxeEngelstrataramdeconvencerseusmem- brosdanecessidadededeixardeladoosocialismoutopico. Conseguiram comisso convence-losaadotaranovadenominacao demodoaassumirnoprogramadaLigaastesesquevinhamdesenvolvendo. Dispostosaaproximarateoriadapratica MarxeEngelsfizeramda- quelaoportunidadeummeiodedifundiracompreensaodasociedadequevinhamamadurecendoemtrabalhosanteriores. AconcepcaodialeticadaHistoriaPormaisqueoManifestonaoapresentasseaprofundidadequeviriamassu- miralgunsdostrabalhosposterioresdeMarx comoOcapital queco- mecariaapublicarem1867 asbasesdacompreensaodasociedadequeeledesenvolveriaposteriormentejaseencontravamexpostasnesteescrito assimcomoumaconcepcaodeacaopoliticavoltadaparaoenfrentamentodeumarealidademarcadapeladesigualdade. Trata-se portanto deumtex- toqueexpoeopensamentodeMarxduranteseuprocessodeelaboracao nomomentoemquesuasideiaspassavamasedifundirmaislargamente. Opontodepartidadotexto queseanunciadesdeotitulo eacon- cepcaodecomunismodesenvolvidapelosautores. EapartirdelaqueMarxeEngelssesituamnodebatepoliticodeseutempo buscandomarcarsuadiferencacomrelacao asdemaistendenciasdacriticaaopensamentolibe- ral seafastando assim dasdiversascorrentesdo socialismoutopico. Aexplicacaoparaaescolhadotermo comunismo nosedadapeloproprioEngels emprefacioescrito a edicaode1888doManifesto sobestevocabulo socialista agrupavam-se em1847 porumladoosadep- tosdosdiferentessistemasutopicos owenistasingleses fourieristasfranceses . . . e poroutrolado osdiversoscharlataesdosocialismo quefalavamemsuprimirasdesigualdadessociaisdequalquernatureza comtodaespeciedecompilacoesinofensivasaocapitaleaolucro MarxeEngels 2006 70. 178Introdu c ao a sCi e nciasSociaisParaEngels eraemoposicaoataisvertentesdosocialismoque aparce- ladosoperariosqueestavaconvictadainsuficienciadassimplesagitacoespoliticasequereclamavaumatransformacaofundamentaldasociedade chamava-sedecomunistas MarxeEngels 2006 71. Adiferencaentreoscomunistaseosoutrossocialistasteria assim umclarocunhosocial enquantoosocialismoseria emsuaspalavras um movimentodeclas- semedia com ardesalao ocomunismoseriaverdadeiramente ummovimentooperario surgidodaaproximacaoentreintelectuaisetraba- lhadores. Poracreditaremque aemancipacaodostrabalhadoresdeviaserobradospropriostrabalhadores MarxeEngelstratavamdedistinguirsuateoriadaquelasdeseuspredecessores. ParacompreenderosentidodaquelaspalavraseprecisoatentarparaofatodequeosanosqueantecederamapublicacaodoManifestoforammarcadospelatransformacaodostrabalhadoresemumproblemasocialdelargaescala. Frutodiretododesenvolvimentoindustrial aclasseoperariacresciaaolhosvistos apresentandodemandasqueameacavamdeformaclaraospoderesconstituidos. Naoporacaso emjaneirode1848 AlexisdeTocquevillediziaemdiscursopronunciadonoParlamentofrances Tale senhores minhaconviccaoprofunda creioquedormimosnomomentoemqueestamossobreumvulcao. OManifestosopodeserentendido portanto comofrutodeummo- mentomarcadoporfortestensoessociais noqualasideologiasqueapre- sentavamalternativasaocapitalismopassavamaterumpapelimportante. Janoprologodotexto MarxeEngels 2006 83 deixamclarotercienciadomomentonoqualescreviam UmespectrorondaaEuropa oespectrodocomunismo. TodasaspotenciasdavelhaEuropaunem-senumaSantaAliancaparaconjura-lo opapaeoTzar MetternicheGuizot osradicaisdaFrancaeospoliciaisdaAlemanha. Quepartidodeoposicaonaofoiacusadodecomunistaporseusadversariosnopoder Quepartidodeoposicao porsuavez naolancouaseusadversariosdedireitaoudeesquerdaapechainfamantedecomunista Colocando-secomopartedeummovimentomaisamplo capazdeas- sombrartantoideologosliberaisquantoestadistasconservadores ocomu- 179UnidadeIV Comoasociedadesetransformanismoaparecenotrechocomoumavagaameacacolocadasobreaordemconstituida longedeserumaideologiacomcontornosdefinidos. Frenteatalsituacao MarxeEngelstratamdefazerdoManifestoummeiodedelinearmaisclaramentesuaespecificidade. Etempodeoscomunistasexporem a facedomundointeiro seumododever seusfinsesuasten- dencias opondoummanifestodopropriopartido a lendadoespectrodocomunismo MarxeEngels 2006 82 explicavamosautoresnoiniciodotexto reconhecendonissooobjetivodeseuescrito. MasoManifestosepropunhairmuitoalemdeumadefinicaoinstru- mentaldocomunismooudeumasimplescritica a sociedadeliberal. Tra- tava-sedeafirmar ali umadoutrinacoerenteearticuladadeacaopolitica baseadaemcertaconcepcaodeHistoria. AHistoriadetodasassocieda- des ateosnossosdias temsidoahistoriadaslutasdeclasses MarxeEngels 2006 83 definemlogonafrasequeabreoprimeirocapitulodaobra mostrandovernastensoesentregrupossociaisantagonicosopropriomotordastransformacoessociais. Naoedeseestranhar portanto queosautorestomassemapolarizacaoentreburguesiaeproletariadocomocernedesuaanalise apresentandoumareflexaosobreoprocessodeformacaoeconsolidacaodaquelaoposicao. MarxeEngelscomecamporlembrarqueaburguesiateve nopassado umimportantepapelrevolucionario. Frutodeumaseriederevolucoesnosmodosdeproducaoetroca aquelaclasseteriasurgidonointeriordasso- ciedadesfeudais cujaestruturaelaacaboupordesmontar. Deixandoparatrasasantigasformasdeorganizacaosocial osburgueses novosproprie- tariosdosmeiosdeproducao passaramdeclassedominadaaclassedomi- nante. Aindustrializacaoteriaconsolidadoaqueleprocesso dandoformaaumasociedadenaqualaexploracao antesmascarada passavaaserfranca abertaedespudorada. Naspalavrasdosautores 2006 92 Essarevolucaocontinuadaproducao esseabaloconstantedetodoosistemasocial essaagitacaopermanenteeessafaltadesegurancadistinguemaepocaburguesadetodasasprecedentes. Dissolvem-setodasasrelacoessociaisan- tigasecristalizadas comseucortejodeconcepcoesedeideiassecularmenteveneradas asrelacoesqueassubstituemtornam-seantiquadasantesdeseos- 180Introdu c ao a sCi e nciasSociaissificarem. Tudooqueerasolidoeestavelseesfuma tudooqueerasagradoeprofanado eoshomenssaoobrigadosfinalmenteaencararcomserenidadesuascondicoesdeexistenciaesuasrelacoesreciprocas. Comoresultadodessesprocessoshistoricos aburguesia aposapenas100anosdedominiodeclasse criou forcasprodutivasmaisnumerosasemaiscolossaisquetodasasgeracoespassadasemconjunto MarxeEn- gels 2006 85. Marcadesuaforca issoseriatambem segundoosautores acausadesuaderrota. Afinal domesmomodoqueasforcasprodutivasmedievaisforamdestruidas omesmoaconteceriacomamodernasocie- dadeburguesa. DeacordocomMarxeEngels acrescentecontradicaoentreodesenvolvimentodasforcasprodutivaseapropriedadeprivadadosmeiosdeproducaoacabavaporvulnerabilizaraburguesia quepassavaaseassemelharaum feiticeiroquejanaopodecontrolaraspotenciasinfer- naisqueposemmovimentocomsuaspalavrasmagicas MarxeEngels 2006 86. Asmesmasarmasdequeaburguesiasevaleuparadestruirofeudalismovoltavam-seagoracontraela Aburguesia porem naoforjousomenteasarmasquelhedaraomorte produziutambemoshomensquemanejaraoessasarmas osoperariosmodernos osproletarios MarxeEngels 2006 94. Apresenta-se destaforma umadasideiascentraisdoManifesto adequeoproletariadodeveriaassumirseulugardesujeitoprivilegiadodaque- lemomentohistorico. Definindo-ocomoaunicaclasseverdadeiramenterevolucionaria MarxeEngels 2006 95 argumentam Nascondicoesdeexistenciadoproletariadojaestaodestruidasasdavelhasocie- dade. Oproletarionaotempropriedade suasrelacoescomamulhereosfilhosnadatemdecomumcomasrelacoesfamiliaresburguesas. Otrabalhoindustrialmoderno asujeicaodooperariopelocapital tantonaInglaterraquantonaFranca naAmericacomonaAlemanha despojaoproletariodetodocaraternacional. Asleis amoral areligiaosaoparaelemerospreconceitosburgueses atrasdosquaisseocultamoutrostantosinteressesburgueses. Ficaclara notrecho aalusaoaoconceitodeideologiadesenvolvidopelosautores trabalhadonasecaoanterior. Aoafirmarqueoproletariado181UnidadeIV Comoasociedadesetransformaestaalijadodapropriedade dafamilia dosentimentonacionaledareli- giao MarxeEngelsbuscamdespertarentreostrabalhadoresaconscienciadeclasse mostrandoqueaquelesinteresses aindaqueaparentementepro- ximosdesuarealidade naopassamdeinstrumentosdeperpetuacaododominioburgues. Emsuma seriatarefadospropriostrabalhadores cujaforcadetrabalhoeraabasedodesenvolvimentodasociedadeliberal enfrentaradominacao a qualestavamsubmetidos. Paraisso precisavamtomarconscienciadesuacondicaocomumdeexploracao emtarefaparaaqualseriamajudadosporideologoscomoeles aosquaiscaberiadinamizaresseprocessoatravesdaconscientizacaodostrabalhadores. UmprogramadeacaopoliticaApartirdetaldiagnosticosobreodesenvolvimentodahistoriamundial MarxeEngelspropoemaoscomunistasumclaroprogramadeacaopo- litica apresentadoemseusegundocapitulo constituicaodosproletariosemclasse derrubadadasupremaciaburguesa conquistadopoderpoliticopeloproletariado MarxeEngels 2006 97. Comootextodeixaclarodesdeoinicio omodelodeacaoeaorganizacaorevolucionaria comoenfrentamentodeclassecomomeiodemudarsuacondicaosocial. Alemdefomentarumaidentidadeentreostrabalhadores oManifestolhesdavaumobjetivocomum aderrubadadaburguesia caracterizadacomosuaclasseopressora. Porem naosopelalutapoliticasedariaatransformacaodesejadapeloscomunistas. Paraatingirseusobjetivos caberiaaoscomunistasumatarefamaisprecisa adestruicaodapropriedadeprivada Oquecaracterizaocomunismonaoeaabolicaodapropriedadegeral masaabolicaodapropriedadeburguesa. Ora apropriedadeprivadaatual apro- priedadeburguesa eaultimaemaisperfeitaexpressaodomododeproducaoedeapropriacaobaseadonosantagonismosdeclasse naexploracaodeunspelosoutros. Nestesentidooscomunistaspodemresumirsuateorianestafor- mulaunica abolicaodapropriedadeprivada MarxeEngels 2006 98-99. 182Introdu c ao a sCi e nciasSociaisOtrechodeixaclarocomo paraosautores apropriedadeeraoprin- cipiosobreoqualseestruturavaapropriadesigualdade jaqueeraelaquedefiniaaradicalseparacaoentreburguesiaeproletariado. Ofimdapropriedadeprivadaseria assim ummeiodesuperacaodasbasesquede- finiamodominiodaburguesiae portanto oprimeiropassodoprocessodeafirmacaodeumnovomodelodesociedade Seoproletariado emsualutacontraaburguesia seconstituiforcosamenteemclasse seseconverteporumarevolucaoemclassedominantee comoclas- sedominante destroiviolentamenteasantigasrelacoesdeproducao destroijuntamentecomessasrelacoesdeproducao ascondicoesdosantagonismosentreasclasseseasclassesemgerale comisso suapropriadominacaocomoclasse MarxeEngels 2006 97. Notrechoacima osautorescomecamamarcaratransformacaodoproletariadodeclassedominadaemclassedominante. Naoselimitam po- rem ainverterosinaldadominacao comoclassecompostapelamaioria aoalcancaropoderoproletariadodestruiriaapropriarelacaodedomi- nacaodeclasse. Naosetratavamaisdeumaclassesubjugandooutra masdamaioriaagindonointeressedamaioria Emlugardaantigasociedadeburguesa comsuasclasseseantagonismosdeclasses surgeumaassociacaoondeolivredesenvolvimentodecadaumeacondicaodolivredesenvol- vimentodetodos MarxeEngels 2006 99 explicavamosautoresdoManifesto. Longedeseapresentardeformateorica noentanto taltransformacaodependeriadaacaodospropriostrabalhadores. DistantesdarealidadeemqueeralancadooManifesto essesideaisseapresentavamcomoperspectivagloriosadefuturo cujarealizacaodependeriadaclassedefinidapelosauto- rescomoosujeitoprivilegiadodaHistoria. Tratava-sedefazerapropagan- dadeumacausa naformadeumprogramadeacaopoliticacujalogicaseexpressava comforcadramatica naspalavrasfinaisdotexto Queasclassesdominantestremam a ideiadeumarevolucaocomunista Osproletariosnadatemaperdernelaanaosersuascadeias. Temummundo183UnidadeIV Comoasociedadesetransformaaganhar. PROLETARIOSDETODOSOSPAISES UNI-VOS MarxeEngels 2006 120. UmtextocanonicoOlhadadaatualidade apublicacaodoManifestoconstituiummarcoqueacabouporobscurecerformasanterioresdesocialismo. Aindaassim seusucessocomoescritopoliticonaofoiimediato muitopelocontrario. Em- borasuaperspectivafosseclaramenteinternacional seuimpactoinicialocorreusomentenaAlemanha poiseralaqueaLigaComunistacontavacomcertainfluencia. Emoutrospaises comoapropriaInglaterra talsu- cessoseriamaislimitado. AprimeiraedicaodoManifestochegouaseralireimpressatresvezes masdesapareceulogoaposofracassodasRevolucoesde1848. Assim nadecadade1850elepareciacaminharparaoostracis- mo eentre1848e1868parecenaoterhavidonenhumatraducaodotextoparaoutroidioma. Foisoapartirdadecadade1870 quandoosconflitossociaisganhavamumadimensaomaisamplanaEuropa quesuaimportanciapassariaaserresgatada. Entre1871 momentodaComunadeParis e1873 pelomenosnoveedicoesdoManifestoapareceramemseisidiomasdiferentes. ComaRevolucaoRussade1917 emgrandeparteassentadasobreosprincipiosaliexpostos otextoadquiririaimportanciacrescente. Comimpressaoedistribuicaofrequentementefinanciadascomrecursosoficiaisdospartidoscomunistasedogovernosovietico tornou-seumaobrafundamentalparaodesenvolvimentodoideariocomunistaaolongodoseculoXX. Comoresultado transformou-seemumdosmaisinfluentesescritospoliticosda- queleseculo. Omodopeloqualomanifestopassoumuitasvezesaserlidojasedistanciava porem dasaspiracoesepropostasarticuladasporMarxeEn- gelsnomomentodesuaescrita. EmboraastensoespoliticasdoseculoXXtenhamlevadoaumaleituracomumentedogmaticadaobra noseumomentooriginaldepublicacaoelaseligavaacontextosedesafiosmuitoespecificos comoreconheciamospropriosautoresnotexto aoafirmarqueasconcepcoesteoricasdoscomunistasnaoseriamsimples ideiasou184Introdu c ao a sCi e nciasSociaisprincipiosinventadosoudescobertosportalouqualreformadordomun- do massim aexpressaogeraldascondicoesreaisdeumalutadeclassesexistente deummovimentohistoricoquesedesenvolvesobosnossosolhos MarxeEngels 2006 70. Frutodeseutempo eaelequerespondeoManifesto aindaqueseusdesdobramentossefizessemnotaraolongodetodooseculoseguinte. SecaO25 Ateoriadaselites23ATeoriadasElitesApartirdostextosdeMarxeEngelspudemosconhecerumadasmaisfamosasinterpretacoessobreofenomenodadominacao. Pensandoemtermosdeclassessociais essesautoressepropuseramarefletiracercadosmecanismosedosdesdobramentosdodominio ou nosseustermos da opressao exercidopelosdetentoresdosmeiosdeproducaosobreostra- balhadores vendonalutaentreelesoverdadeiromotordahistoria. Apesardainegavelimportanciadostrabalhosdessesautores elesestaolongedeesgotarareflexaodasCienciasSociaissobreotemadadominacaocomoelemento-chaveparaacompreensaodarealidadesocial. Dediferentesma- neiras diversospensadoressededicaramaoassunto especialmentedentrodocampodaCienciaPolitica. Umadastantasvertentesquefizeramdotemadadominacaoofocodesuaanaliseeaquelaque reunindodiferentesautoreseperspectivas ficouconhecidacomo TeoriadasElites ou Elitismo. EstavertentesurgiuentreofinaldoseculoXIXeoiniciodoseculoXX quandoquestoescomoigualdade democracia soberaniapopular representacaopoliticaesocialis- movinham a tonaemtodoomundoocidentaldiantedaemergenciadeumnovo epoderoso atorsocial asmassas. Naoporacaso aTeoriadasElitesresponde aquelecontextotomandocomopostuladobasicoaideiadequeadesigualdadeeumfatonatural eque portanto semprehavera emtodasassociedades umaminoriadetentoradopodereumamaioriaquedeleestaprivada. 23Textodereferencia Michels 1982. 185UnidadeIV ComoasociedadesetransformaAideiade elite estaprofundamentearraigadaemnossocotidiano. Sejanosjornais noslivrosouemconversasinformais apalavramuitasvezesapareceemexpressoescomo eliteeconomica elitepolitica eliteintelectual etc. sempreemreferenciaagruposque pordiferentesmotivos detemamaiorparceladealgumtipodepoderouexercemalgumtipodedominacao. Talsentido porem sopassouaserhegemonicoemmeadosdoseculoXIX. Oriundadapalavralatinaeligere quesignifica escolher ou eleger eli- te foi pormuitotempo usadaparadesignarpessoasouprodutosque porsuasuperioridade eramconsideradososescolhidos oseleitos. Dando enfaseaoaspectopoliticodadominacao osdiferentespensado- resdaassimchamadaTeoriadasElitesbuscaram demodogeral compre- endercomoseformameatuamosrestritoscirculosdepessoasimbuidasdopoderpoliticoemsuasrespectivassociedades ouseja dopoderde tomaredeimpordecisoesvalidasparatodososmembrosdogrupo mesmoquetenhaderecorrer a forca emultimainstancia Bobbio 1998 385. GaetanoMoscaeVilfredoParetoOprimeiropensadorasistematizarumaanalisedaclassepolitica dandocorpoaoquemaistardeficariaconhecidocomoaTeoriadasElites foioitalianoGaetanoMosca. SeulivroElementidiscienzapolitica de1896 apresentaumatentativadeclaradadeformularumaanalisecientificadapolitica baseadanaobservacaoextensivaeimparcialdosfatos. Buscava assim afastar-sedeleiturasideologicasdoexerciciodopoder defenden- doquetodaequalquersociedadepodiaserdivididaentregovernantesegovernados Entreastendenciaseosfatosconstantesqueseachamemtodososorganismospoliticos umexistecujaevidenciapodeseratodosfacilmentemanifesta emtodasassociedades acomecarporaquelasmaismediocrementedesenvolvidasequesaoapenaschegadasaosprimordiosdacivilizacao ateasmaiscultasefortes existemduasclassesdepessoas adosgovernanteseadosgovernados. Aprimeira queesempreamenosnumerosa cumpretodasasfuncoespubli- cas monopolizaopoderegozaasvantagensqueaelaestaoanexas enquanto186Introdu c ao a sCi e nciasSociaisqueasegunda maisnumerosa edirigidaereguladapelaprimeira demodomaisoumenoslegaloudemodomaisoumenosarbitrarioeviolento forne- cendoaela aomenosaparentemente osmeiosmateriaisdesubsistenciaeosquesaonecessarios a vitalidadedoorganismopolitico MoscaapudSouza 1966 61. Partindodestepressuposto aanalisedeMoscasedesenvolveemtornodapreocupacaoemexplicarcomoseformaaclassedirigente ou classepolitica ouseja quaisoselementosquelevamdeterminadogrupodepessoasaconstituiremumaminoriadetentoradopoder. Aexplicacao se- gundooautor repousasobreumelemento-chave organizacao. Moscaargumentaque ligadosporrelacoesdeinteresse osintegrantesdaclassedirigenteconstituemumgrupohomogeneoesolidarioentresi emcontraposicaoaosdemaismembrosdasociedade queseencontramdivididos desarticuladose consequentemente desorganizados. Poressemotivo aTeoriadasElites talcomoformuladaporesseautor etambemconhecidacomo teoriadaminoriaorganizada. Destecenariosurgeumaquestaoinevitavel comoepossivelqueumaminoriadomineumamaiorianumericamentebemsuperior Mosca apudSouza 1966 53 responde efatalopredominiodeumaminoriaorganizada queobedeceaumunicoim- pulso sobreamaioriadesorganizada. Aforcadequalquerminoriaeirresistivelfrenteacadaindividuodamaioria queseencontrasofrente a totalidadedaminoriaorganizada. Eaomesmotemposepodedizerqueestaseencontraorganizadaprecisamenteporqueeumaminoria. Aequacaoe portanto bastanteclara aminoriadominaporqueeorga- nizada amaioriaedominadaporqueedesorganizada. Enfim umgrupo paradominar precisaserminoria viabilidadetecnicadaacaoconjuntaeorganizada masissonaoeosuficiente. Ogrupoprecisatambemterin- teressesemcomum oquegeramotivacaoparaagircoletivamenteeassimimporseudominiosobreoutrosgrupos. 187UnidadeIV ComoasociedadesetransformaMoscaenfatizaaindaofatodeaclassepoliticaseraquelaquemono- polizaosrecursosdepoder comoamaquinaestatal utilizando-osembeneficioproprio oquecolaborariasobremaneiraparaamanutencaodesuaordenacaointerna. Alemdisso essaclasseexerce todasasfuncoespo- liticas enaoapenasaquelasdegoverno istoe controladiversosrecursossociais economicos religiosos escolaresetc. quepodemserusadosparainfluenciarasdecisoespoliticas. Jaamassadegovernadossedefinecomooopostodaclassepolitica saogovernados e porisso dominados pornaoteremapossedosmeiosdegovernoeseremumamaioriadesorganizada. Outraquestaoqueseimpoenacompreensaodaformacaodogrupodominantedizrespeito a legitimidade quaisoscriteriospelosquaisumaminoriaseapresenta a maioriagovernadacomoumgrupodotadodequa- lidadessuperiorese portanto maisaptoaoexerciciodopoder ParaMos- ca oexerciciodopodersejustificaemnomedepadroesmoraisuniversais quepodemvariaraolongodotempo. EmdeterminadosmomentosdaHistoria avalentiaeraoaspectomaisvalorizado levandoosguerreirosacomporaclassedirigente emoutros abasedopodereraapropriedaderural conferindopoderaosgrandessenhoresdeterras eassimpordiante. Destemodo odominiodaclassepoliticasobreorestodasociedadenaoeentendidoporMoscacomooresultadoexclusivodeumarelacaodeforcaentredominantesedominados. Segundoele aclassedominantejustificaseupoderbuscandodar-lheumabasemoralelegaleapresentando-ocomoconsequencianecessariadecrencasreconhecidaseaceitasnasociedadeco- mandadaporessaclasse. UmaderivacaologicadareflexaodesenvolvidaporMoscaeadequetodososgovernos independentementedeseucaraterformal ouseja sesaomonarquiasourepublicas ditadurasoudemocracias saosempreoli- garquicos umavezqueopoderestasempreenecessariamenteconcentradonamaodeumpequenogrupodepessoas. AindaqueosescritosdeGaetanoMoscasejamconsideradosomarcozerodaTeoriadasElites foicomoeconomistaesociologoVilfredoParetoqueapalavra elite passouaserdefatoempregadanaanalisedofenome- nodadominacaopolitica. 188Introdu c ao a sCi e nciasSociaisFortementeinfluenciadopelaobradeMosca Paretotambemtomaadesigualdadecomoumfatonatural defendendoauniversalidadedadivi- saoentregovernantesegovernados. Masdiferentementedeseuprecursor quefocanaorganizacaodogrupocomofatorexplicativodaconstituicaodosgruposdominantes enfatizaascaracteristicasindividuaisquelevamumaououtrapessoaacomporaclassedirigente. DeacordocomPareto adesigualdadeestapresenteemtodososcam- posdaatuacaohumana. Independentementedotipodeatividade semprehaveraindividuosquesedestacamdosdemaisporsuasqualidadessuperio- res constituindoumaelite. Nessesentido aexistenciadeelitesserianadamaisqueaexpressaodadesigualdadenaturalentreoshomens daqualadesigualdadesocialemergiriacomoconsequencia. Percebe-se portanto que naconcepcaodesseautor aelitepodeserdefinidapelashabilidadespropriasdeseusintegrantes cujosdonsoshabilitamaocuparosniveissuperioresemseuramodeatuacao. Destaforma poderiamosfalardeumaelitedeguerreiros deumaelitereligiosa umaeliteeconomicaetc. Por- tanto paraPareto apalavra elite eusadaemsentidomuitoproximodoseusignificadoetimologicooriginal quedesigna osmelhores ou oseleitos. MasPareto que comoMosca tinhacomoobjetivooferecerumaana- lisedofenomenodadominacaopolitica elaboraaindaumasegundadivi- sao diferenciandoaselitesgovernantesdasnaogovernantes. Estasultimassereferemaoconjuntodeindividuosque emborasejamosmelhoresnasuaatividade naoexercemocomandopolitico. Jaaclassegovernanteeformadaporaquelesque diretaouindiretamente participamdogoverno. Aelitepolitica portanto naoeformadaapenasporaquelesquepartici- pamdiretamentedogoverno mastambemporaquelesqueconsegueminfluencia-logracasaosimportantesrecursossociaisquecontrolam comodinheiro cultura religiao saberetc. Noentanto paraqueasociedadepermanecaemequilibrio essesdoisestratosnaopodempermanecerincomunicaveis. Aocontrario eprecisoqueocorraaquiloqueParetodenomina emsuaobramaisconhecida Tra- tadodesociologiageral de1916 circulacaodaselites entendidacomoosmodospelosquaissedaapassagemdeumaoutrogrupo. Aatencao a 189UnidadeIV ComoasociedadesetransformadinamicadecomposicaodaselitespoliticasevidenciaointeressedeParetonofatodeque emsuaspalavras ahistoriaeumcemiteriodearisto- cracias Pareto 1984 71 ouseja aconstatacaodequeasaristocracias termogenericoparadesignarosestratospoliticossuperioresdasociedade naoduramparasempre. Deacordocomoautor asclassespoliticasdecaemporquediminuemnaoapenasemnumero mas sobretudo emqualidade. Aindasegundoele aascensaodosmelhoresindividuosoriundosdosestratosinferiorespodeserpaulatina institucionalizada ouabrupta revolucionaria dependendodaorganizacaopoliticadasociedade masdeveforcosamenteocorrerparaqueserestaureaqualidadedaelitepoliticae porconseguinte oequilibriosocial. Naoedificilperceberque cadaqual a suamaneira MoscaeParetoquestionamocaraterverdadeiramenterevolucionariodaprevisaomarxistasobreaascensaodosocialismo. Segundosuasanalises arevolucaosocialis- tanadamaisseriadoqueasubstituicaodeumaeliteburguesacapitalistaporoutraelite agorasocialista. Emultimainstancia todoequalquergo- vernoseriainevitavelmenteoligarquico ouseja lideradoporumgrupodepoucos enemmesmoaimposicaodosufragiouniversalseriacapazdealteraressequadro. ATeoriadasElitestem comovimos napremissadadesigualdadena- turalseuprincipalalicerce levandoseusprimeirosteoricosaveremcompessimismoedesconfiancaaspromessasdademocracia. Outroautor con- tudo partiudaspremissasdoelitismoparaelaborarumareflexaosobreoscaminhosdoregimedemocratico. Vejamos. RobertMichelsSeparaGaetanoMoscaeVilfredoParetoademocraciaapareciacomoumdostantoselementosacomprovaravalidadedaTeoriadasElites paraoalemaoRobertMichelselaeraocentrodaanalisesobreosmecanismosdadominacaopolitica. ComhistoricodemilitanciajuntoaoPartidoSocial- Democrataalemao estepensadorfezdesuaexperienciaconcretajuntoaomundodapoliticaopontodepartidaparasuareflexaoteorica. 190Introdu c ao a sCi e nciasSociaisFortementeinfluenciadopelosestudosdeMosca Michelstomacomopontodepartidaopostuladodasminoriasorganizadasparacompreenderofuncionamentodospartidospoliticosdemassaemcontextodemocra- tico. Foicomesteintuitoque em1911 publicouSociologiadospartidospoliticos omaisconhecidodeseus33livros quechegaaosdiasdehojecomimpressionanteatualidade. Olivroseiniciacomumafrasecategorica Naoseconcebeademocra- ciasemorganizacao Michels 1982 15. Defendendoqueaorganizacaoeounicomeiodecriaravontadecoletiva Michelsaapresentacomoumaarmadelutadosfracoscontraosfortes subvertendo emcertamedida osentidoprimeirodesenvolvidoporMosca. ParaMichels aorganizacaoseriaacondicaofundamentaldalutapoliticaconduzidapelasmassas umavezqueApenasaglomerando-seedando a suaaglomeracaoumaestruturaequeosoperariosadquiremacapacidadederesistenciapoliticae aomesmotempo umadignidadesocial Michels 1982 23. Talargumentosebaseia segundoMichels naconstatacaodequeoidealparticipativodademocracia baseadonoprincipiodoautogovernodasmassaspormeiodeassembleias haviasetornadomecanicaetecnica- menteinviaveldiantedocrescimentoedacomplexificacaodassociedades. Facilmentemanipulaveisporbonsoradores asmassasseriamterrenofertilparaodestaquedeacoesindividuais incorrendo dessaforma noriscodeformacaodeoligarquias. Emsuaspalavras Amultidaoanulaoindividuo e dessemodo suapersonalidadeeseusentimentoderesponsabilidade Michels 1982 45. Aimpossibilidadedagestaodiretadopoderpelasmassasteria entao impostoanecessidadedaexistenciadedelegados cujopapelseriaoderepresentarasmassas garantindoarealizacaodesuasvontades. Essesdele- gados ouchefes seriam emsuaorigem servidoresdamassaaqualrepre- sentam umavezquesuaatuacaoacontecerianumcontextodeigualdadeabsolutaentretodososhomens. Noentanto oaumentodesmesuradodosgruposaseremgeridosterialevado a formacaodeumaclassede politicos191UnidadeIV Comoasociedadesetransformaprofissionais ou tecnicosdapolitica treinadosespecificamenteparaafuncaoderepresentardeterminadogrupo. Osdelegadostornam-se assim profissionaisdaorganizacao passandoadependerdelaparaapropriasobrevivencia. E maisdoqueisso apropriasobrevivenciadaorganizacaopassaadependerdeles odireitodecontrolereconhecido a massatorna-secadavezmaisilusorio. Ospartidariosdevemrenunciaradirigiroumesmoasupervisionartodososassuntosadministrativos. Veem-seobrigadosaconfiarestatarefaacertaspes- soas especialmentenomeadasparatalfim afuncionariospagospelaorganiza- cao. Amassaereduzidaacontentar-secomprestacoesdecontassumarissimasouarecorreracomissoesdecontrole Michels 1982 22. Comopoderdedecisaoprogressivamenteretiradodasmassas emboraexercidoemnomedelas oschefessetornamcadavezmaisindependen- tesdogrupoquerepresentam criandoumabismoqueacabaportrairoprincipiodaigualdade. Configura-seumcenarionoqualosdelegadosdeixamdeserosservidoresdopovoparasetornaremseuspatroes. Ou naspalavrasdoautor Amparadonoqueseriaavontadecoletiva justificando-secomoapoiodeumaesmagadoramaioriadosvotos umindividuopoderiapassaraimporasuadominacao suprimindoapropriademocracia edenunciandocomoantidemocraticaqualquerformadeoposicaoouprotesto. Emnomedademo- cracia portanto asmaioresviolenciaspoderiamsercometidas oqueequivaleadizerqueasoberaniapoderiaseraraizdesuapropriasupressao Michels 1982 125. Michelsdefende portanto ahipotesedequetodaorganizacaotendene- cessariamente a oligarquia umavezquedividetodopartidoousindicatoemumaminoriadirigenteeumamaioriadirigida. Destemodo opoderefetivo conferidopelasmassaspormeiodovoto passa asmaosdefuncionariosespe- cializados numprocessodecrescenteburocratizacaoehierarquizacao. Desta192Introdu c ao a sCi e nciasSociaisforma a medidaqueaorganizacaocresce odireitodecontrolereconhecido a massatorna-secadavezmaisilusorio Michels 1982. Deparamo-noscomumparadoxo adirecaoprofissionaldopoderga- ranteenegaademocraciaaumasovez jaqueatornaoperacionalmenteviavele aomesmotempo revelaaimpossibilidadelogicadosistemare- presentativo. Ovotoseria nessaequacao tantoumatosoberanodopovo quepormeiodeleescolheseurepresentante quantoumatoderenuncia a suasoberania. Comprovaria-se dessemodo ainescapaveldificuldadedacondutade- mocraticaentreospartidosdemocraticos. Aoseapresentaremcomoum EstadodentrodoEstado baseando-senacentralizacaocalcadanaauto- ridadeenadisciplina ospartidosrevelariamuma essenciaintima fun- damentalmenteconservadora. Comoresultado aorganizacaodeixadeserummeioparatornar-seumfim rendendo-seaosefeitosdaburocratizacaofuncional. Michelsconcluique apesardetodaagremiacaopoliticanascerdamobilizacaodasmassas seucrescimentoleva a burocratizacaoe a conse- quentedegeneracaodosprincipiosdemocraticos. Porisso deacordocomoautor Numpartido osinteressesdasmassasorganizadasqueocom- poemestaolongedecoincidiremcomosdaburocraciaqueospersonifica Michels 1982 136. Apartirdetaisconsideracoes Michelselaborasuaconhecida Leidebronzedaoligarquia emoutrastraducoes leideferrodaoligarquia queve naformacaodeumaoligarquiacentralizadoranospartidosumfeno- menoorganico inerenteaodesenvolvimentopartidario. Defendendoque todaorganizacaodepartidorepresentaumapotenciaoligarquicarepou- sadasobreumabasedemocratica Michels 1982 238 Michelsconcluiapontandoparaainviabilidadedasoberaniadasmassaseparaadecorrenteimpossibilidadederealizacaodademocraciaideal. Resta-nos agora vercomooutrosautorespensaramofuncionamentodademocracia valendo-sedeoutrasperspectivasteoricasesuportesem- piricos. 193UnidadeIV ComoasociedadesetransformaSecaO26 Democraciaeditadura24Oqueedemocracia Voce certamentesabequeoBrasilvivehojesobumsistemademocratico. Emtermospraticos issosignificaquenossosgovernantessaoperiodica- menteeleitosporcidadaosmaioresde16anosecumpremummandatopelotempoestabelecidopornossaConstituicaoFederal. Masvoce saberiadefiniroqueeademocraciaedequeformaelasediferenciadasdemaisformasdegovernoexistentes Apalavrademocraciavemdogregoantigoesignifica governodopovo. SegundoofilosofoitalianoNorbertoBobbio otermovemsendousado desdeaAntiguidadeclassica paradesignar umdosdiversosmodoscomquepodeserexercidoopoderpolitico Bobbio 1987 135. Issosignificaquesuadefinicaosopodeserfeitaemrelacao asoutrasformasdeexerciciodopoderpolitico umavezqueconfiguraumdosmuitosconceitospre- sentesnateoriageraldasformasdegoverno. Ouseja sopodemosentenderplenamenteoconceitode democracia suasvirtudeseseusdefeitos seoinserirmosnopanoramamaisamplodereflexaosobreadominacaodecaraterpolitico. AindadeacordocomBobbio ateoriageraldasformasdegovernopresta- seatresusosdiversos aindaqueprofundamenteinterligados ousodescri- tivo ousoprescritivoeousohistorico. Nousodescritivo ousistematico ateoriaseapresentasobaformadeclassificacao oferecendoatipologiadasformasdegovernoquesesu- cederamnodecorrerdahistoria numaoperacaonaodiversadadobota- nicoqueclassificaplantasoudozoologoqueclassificaanimais Bobbio 1987 136. Nessaperspectiva ademocraciaeentendidacomoumadastresformasdegovernopossiveis segundoaclassificacaoquetemporcri- terioonumerodegovernantes. Elasedefine assim como aformadego- vernonaqualopodereexercidoportodoopovo oupelomaiornumero oupormuitos eenquantotalsedistinguedamonarquiaedaaristocracia 24Textodereferencia Bobbio 1987. 194Introdu c ao a sCi e nciasSociaisnasquaisopodereexercido respectivamente porumouporpoucos Bobbio 1987 137. TaltipificacaofoiempregadaporPlataoe maistar- de porAristoteles queacrescentaaestaclassificacaonumericaocriterioreferenteaomododegovernar ouparaobemcomumouparaobemdequemgoverna. Nessesentido ademocraciasedefine frenteaosdemaistiposdeexerciciodopoder porserogovernodosmuitoscomrespeitoaospoucos oudosmaiscomres- peitoaosmenos oudamaioriacomrespeito a minoriaouaumgruporestritodepessoas oumesmodeumso Bobbio 1987 138. Nousoprescritivo ouaxiologico porsuavez ateoriageraldasformasdegovernocarregaumaseriedejuizosdevalorqueatuamnaclassificacaoedisposicaodosdiferentesmodelospossiveis. Nesseuso naoapenasojuizoabsolutosobreabondadeounaodestaoudaquelaformadegovernoequalificado mastambem esobretudo umjuizorelativosobreabondadededeterminadaformaemrelacao asdemais. Aqui ademocraciaequalifi- cadaconformeseusprosecontras eBobbiorecordaquesaoinumerasasdisputasemtornodasuperioridadeounaodademocraciadiantedeoutrasformasdegovernoaolongodahistoria. Oautorafirmaque demodogeral argumentosfavoraveis a democra- ciasaoaquelesfixadosporTucidides ofatodeserogovernoafavordosmuitos enaodospoucos deserumgovernodeleis enaodehomens deterleisquesaoiguaisparatodos e finalmente dedefenderorespeito a liberdadenavidapublicaenavidaprivada. Platao porsuavez teriasidooresponsavelpelaelaboracaodamaisconhecidacriticaaosistemademo- craticodegoverno. Segundoele ademocraciasedefineporserogovernodospobrescontraosricos oquelevariainevitavelmente a instauracaodatirania. Alemdisso acreditaquealiberdadecaracteristicadessemodelosetransformariaemausenciadefreiosmoraisepoliticos quecausariaasubversaodetodaequalquerautoridade. Jaentreospensadoresmodernos querefletiramsobreademocracianocontextodosurgimentoeconsolidacaodosEstadosNacionais ademocra- ciaera emgeral vistacomoumaopcaoinferior a monarquia. Porem apos195UnidadeIV ComoasociedadesetransformaasrevolucoesFrancesaeAmericana oargumentoemfavordaliberdadecomoformadeautonomia baseadanosescritosdofilosofofrancesJean- JacquesRousseau foiganhandoespacoe comele ademocraciapassouaganharmaisdefensores. EnessesentidoqueBobbioafirmaqueodesen- volvimentodademocraciacoincidecomaprogressivaextensaodosdirei- tospoliticos direitodeparticipardavontadecoletiva. Talperspectivave aindanademocraciaavantagemdeserosistemaquemelhorcontrolariaaspossibilidadesdeabusodopoder jaquenelaopovonaopodeabusardopodercontrasimesmo ou ditodeoutraforma ondeolegisladoreodestinatariodaleisaoamesmapessoa oprimeironaopodeprevaricarsobreosegundo Bobbio 1987 146. Porfim nousohistoricodateoriageraldasformasdegoverno busca- setracaralinhadedesenvolvimentodocursohistoricodahumanidade entendidocomoasucessaodemodelospoliticos. Ouseja aquiasformasdedominacaopoliticasaodescritasconformesuaadequacaoadetermi- nadosmomentosdaHistoria segundocriteriosque naoraro apontamademocraciacomoalgopertencenteaopassado. AdemocraciamodernaAindaquealgunspensadores comoRousseau semostrassemsimpaticos a formademocraticadegoverno enxergandonelaasjareferidasvantagenscomrelacao a monarquia erahegemonicaaideiadequeademocraciasoeraviavelnagestaodepequenosterritorios. Naohavia entao grandesdu- vidascomrelacao a monarquiacomosistemadegovernopreferencialaosgrandesestadoseuropeus. Em1776 contudo umacontecimentoveioabalardefinitivamenteasbasessobreasquaisrepousavamaquelascertezas. EclodiaaRevolucaoAmericana daqualemergiriaumgovernorepublicano pluralista repre- sentativoecomumaenormemultiplicidadeevivacidadedassociedadesintermediarias. OsEstadosUnidosdaAmericanasciamentaocomoapri- meirarepublicarepresentativa queencarnavaademocracianasuaversao196Introdu c ao a sCi e nciasSociaismoderna emcontraposicao a definicaodosantigosquesereferia a par- ticipacaodiretadopovo. FoiesseomundonovodapoliticadescritoporTocqueville comovimosnasecao24. Oprocessodeconsolidacaodademocraciaocorreu segundoBobbio combasenoalargamentododireitodevoto atealcancarosufragiouni- versal enodesenvolvimentodoassociacionismopolitico atealcancaraformacaodospartidosdemassa. AdemocracianomundocontemporaneoAosereferir a democracianomundocontemporaneo Bobbioatentaparaofatodequeoalargamentodaquelesistemadegovernonaoselimitouaoalcancedosufragiouniversal. Aindaqueagarantiadodireitoaovotosejaumdoscriteriosindispensaveisaumademocracia elacertamentenaosereduzaisso. Nessesentido paraBobbio porregimedemocraticoseenten- deprincipalmenteumconjuntoderegrasdeprocedimentoparaaformacaodasdecisoescoletivas nasquaiseprevistaefacilitadaaparticipacaomaisamplapossiveldosinteressados. Taldefinicaodeixaclaroqueodireitoaovotonaoseesgota deformaalguma emsimesmo. Numademocraciaeledeveviracompanhadodedeterminadasregras osprocedimentosuniversais segundooautor quees- tabelecemo quem eo como dadecisaopolitica equeseencontramemtodososregimesgeralmentechamadosdemocraticos. Saoelas 1. Todososcidadaosquealcancaramamaioridade semdistincaoderaca religiao condicaoeconomicaesexo devemdesfrutardosdireitospoliti- cos ouseja todostemodireitodeexpressarsuapropriaopiniaooudeescolherquemaexprimaporeles. 2. Ovotodetodososcidadaosdeveteromesmopeso. 3. Todasaspessoasquedesfrutamdedireitospoliticosdevemserlivresparapodervotardeacordocomsuapropriaopiniao formadacomamaiorliberdadepossivelpormeiodeumaconcorrencialivreentregru- pospoliticosorganizadoscompetindoentresi. 4. Devemserlivrestambemnosentidodetercondicaodeescolherentresolucoesdiferentes ouseja entrepartidosquetemprogramasdiferentesealternativos. 197UnidadeIV Comoasociedadesetransforma5. Sejaporeleicoes sejapordecisaocoletiva devevaleraregradamaiorianumerica nosentidodeconsiderareleitoocandidatoouconsiderarvalidaadecisaoobtidapelomaiornumerodevotos. 6. Nenhumadecisaotomadapelamaioriadevelimitarosdireitosdami- noria particularmenteodireitodesetornarporsuavezmaioriaemigualdadedecondicoes. NaperspectivadeBobbio essasregrassaocondicoesdademocracia esuamaioroumenorobservanciapordeterminadosgovernosnospermitereconhecerquehademocraciasmaisoumenosdemocraticas. Aindaaesserespeito Bobbioalertaparaofatodequeoscriteriosparadefinicaodeumademocracianaopertencemexclusivamenteaocampodapolitica. Issoporque nomundocontemporaneo umavezconquistadoodireito a participacaopolitica ocidadaopercebeuqueaesferapoliticaestaincluidanumaesferamuitomaisampla aesferadasociedadecomoumtodo. Dessemodo comogovernodemocraticojadevidamenteconsolida- do naodemorouaficarclaroquenaoexistedecisaopoliticaquenaoestejacondicionadaoudeterminadaporaquiloqueacontecenasociedadecivil. Assim podemosafirmarquenomundodehojeademocracianaosereferesomente a realidadedapraticapolitica acionadapeloindividuo-ci- dadao mastambem a realidadedapraticasocial acionadapeloindividuomultiploemseusmuitospapeis comoodepai filho professor estudanteetc. . Emtermosamplos issosignificaqueademocracia comoobjetivo passaaocuparnovosespacosdeacaosocial indoalemdapoliticainsti- tucionalizada. Sao portanto duasdemocracias aqueladadirecaopolitica marcadapelainstituicaodosparlamentos eaqueladasociedade dondederiva porexemplo apossibilidadedeumEstadodemocraticogerirumasociedadenaodemocratica. Destemodo aescolhadosgovernantespormeiodeeleicoesgeraisediretaspodesersuficienteparaquedeterminadoregimepoliticosejafor- malmenteumademocracia masnaoparaqueasociedadesejaconsideradademocratica. 198Introdu c ao a sCi e nciasSociaisDemocraciaversusDitaduraRetomandoopontoanunciadonoiniciodocapitulo deque segundoBobbio ademocraciasopodeserdefinidaemrelacao asoutrasformasdeexerciciodopoderpolitico eimportantecompreendermossuaoposicao aqueletipodegovernoque historicamente vemsendoapresentadocomoseuavessoabsoluto aditadura. Inicialmentechamadode autocracia aditadurasecaracterizaporserumregimenoqualumgovernante oucomite detemocontroleabsolutoemtodososniveisdegovernosemoconsentimentodosgovernados. DeacordocomBobbio tantoamudancadeterminologiaquantoapolari- zacaoradicalentreaautocraciaeademocraciaaconteceramemmeioaoprocessodeadesaocrescentedeEstadosNacionaisaoregimedemocratico principalmenteaposaIGuerraMundial eespecialmentenospaisesemqueademocraciavinhasubstituirumgovernodenaturezaautocratica. Oquenemtodossabemeque bemcomo democracia otermo dita- dura tambemremonta a AntiguidadeClassica quandotinhaumaconota- caopositiva. NaRomaantiga porexemplo odictatoreraummagistradoempossadoemcircunstanciasextraordinarias comoumaguerraouumarebeliao ecujapermanencianopodereratemporaria. Alemdisso seuspoderesextraordinariosselimitavam asfuncoesexecutivas semavancar portanto sobrequestoeslegislativas. Percebe-se assim que aocontrariodosentidoatualmenteatribuidoaotermo ditadura naoseconfundiacom tirania ou despotismo. Naeramoderna porsuavez oconceitodeditadurareaparecenocon- textodegrandesrevolucoes despontandocomoumaformadegovernode- dicadaainstaurarumanovaordem. Soberana aditaduramodernave seupoderseestender asfuncoeslegislativaseconstituintes vendo naspalavrasdeCarlSchmitt apudBobbio 1987 161 emtodooordenamentoexisten- teumestadodecoisasasercompletamenteremovidopelapropriaacao. Vemos portanto quetantoademocraciaquantoaditadurasaomode- loseconceitossujeitosavariacoesaolongodotempoedoespaco cabendoanoscompreenderqueseuusonatentativadeclassificacaodeformasdegovernoexigecuidadoereflexaocritica. 199UnidadeIV ComoasociedadesetransformaSecaO27 Poliarquia25AdemocraciaeseuspressupostosNasecaopassadapudemosrefletirsobreoconceitoeapraticadademo- craciacomoformadegovernoapartirdosescritosdeNorbertoBobbio. Vimosalinaoapenasumaabordagemhistoricadotermocomotambemconsideracoesacercadoscriteriospelosquaisumgovernopodeounaoserconsideradodemocratico. Otemaemuitovasto ecertamentenaoseesgotanaobradeumunicoautor. PorissoveremosagoraasconsideracoesdeoutroimportantepensadordoseculoXXquefezdademocraciaseuprincipalobjetodeestudo oamericanoRobertDahl. ParaDahl umgovernodemocraticosedefinepelagarantiadeoportu- nidadesfundamentais. Nessestermos defendequeumadascaracteristicas-chavedademocraciaeacontinuaresponsividadedogoverno aspreferenciasdeseuscidadaos consideradoscomopoliticamenteiguais Dahl 1997 25. Oautoralerta entretanto paraofatodequeumademocraciarespon- sivaatodososseuscidadaosconsistenumidealteorico quedificilmenteseraencontradonapratica lembrandodametodologiadeMaxWeber poderiamosdizerquesetratadeum tipoideal. Aindaassim argumentaquetaldefinicaoeumimportantepontodepartidaparaumareflexaoacercadaviabilidadedoregimedemocraticoque paraele dependedequeoscidadaospossuamplenasoportunidadesdeescolherlivrementenumprocessodecompeticaopoliticaparaeleicaodosrepresentantes. Acon- cretizacaodetaloportunidadedepende aindasegundoDahl dequeoscidadaospossam 25Textodereferencia Dahl 1997 caps. 1e2. 200Introdu c ao a sCi e nciasSociais1. Formularsuaspreferencias. 2. Expressarsuaspreferenciasaseusconcidadaoseaogovernoatravesdeacaoindividualecoletiva. 3. Tersuaspreferenciasigualmenteconsideradasnacondutadogoverno ouseja consideradassemdiscriminacaodecorrentedoconteudooudafontedapreferencia. Aliberdadedeformularpreferenciasestarelacionada a liberdadedeorganizacaoeminstituicoescomosindicatos associacoesdemoradores partidospoliticosetc. Essasorganizacoes observadososcriterioslegais naodevemsofrernenhumconstrangimento. Osistemapoliticodevega- rantiratodosossegmentosdasociedadeodireitodeconstituirentidadesquedefendamseusinteresses. Aliberdadedeexpressarpreferencias porsuavez podeserentendidatantocomoaliberdadedeimprensaquantocomoaextensaododireitoaovoto. Aliberdadedeimprensasignificaqueosveiculosdecomunicacaonaodevemsofrernenhumtipodecensuraporpartedosorgaosgoverna- mentais eaextensaododireitoaovoto ouosufragiouniversal eainexistenciadebarreirassociais economicas culturaisoureligiosasnaconcessaododireitoaparticipardoprocessodeescolhadosgovernantes. Aterceiracondicaoestarelacionada a formacomoocorreadisputaeleitoral quedevesepautarpelalisuradopleito. Paratanto saonecessariasnaosomenteaausenciadefraude mastambemaigualdadedecondicoesnamanifestacaodaspreferencias. Umexemploconcretoehistoricamenterecenteeohorariodepropagandaeleitoralgratuitanoradioenatelevisao quegaranteaopartidodogovernoeaospartidosdeoposicaoapossibili- dadedeexporseusprogramasesuaspropostasaoseleitoresdeformamaisigualitariadoquesedependesseapenas porexemplo dopodereconomicodeumououtropartido. Vemosassimque paraDahl ademocraciasedefine antesdetudo pelocriteriodagarantiadeigualdadedecondicoesparatodososcida- daosnoprocessodeparticipacaopolitica. Mascomoassegurar napratica talequidade Arespostaestarianaatuacaodasinstituicoesdasociedade responsaveisporviabilizaroacesso aquelasoportunidadesatravesdeoitogarantias 201UnidadeIV Comoasociedadesetransforma1. Liberdadedeformareaderiraorganizacoes. 2. Liberdadedeexpressao. 3. Direitodevoto. 4. Direitodeliderespoliticosdisputaremapoio. 5. Fontesalternativasdeinformacao. 6. Elegibilidadeparacargospoliticos. 7. Eleicoeslivreseidoneas. 8. Instituicoesquefacamcomqueaspoliticasgovernamentaisdependamdeeleicoesedeoutrasmanifestacoesdepreferencia. Semaobservanciaataisrequisitos oprincipiodaigualdadepoliticaficariacomprometido e comele apropriademocracia. Nessesentido Dahllembraqueosregimesvariamnaamplitudecomqueessascondicoesinstitucionaisestaoabertamentedisponiveis saopublicamenteutilizadaseplenamentegarantidas. ContestacaopublicaedireitodeparticipacaoPartindodavariacaocomrelacaoaograudeadesao asreferidasgarantias oautorrecordaqueosregimesvariamtambemnaproporcaodapopulacaohabilitadaaparticipar demaneiraigualitaria docontroleedacontestacao a condutadogoverno. Identifica dessaforma duasdimensoesfundamen- taisdademocratizacao acontestacaopublicaeodireitodeparticipacao. Acontestacaopublicaserefere aspossibilidadesdeexerciciodeoposi- caoaogovernoedecompeticaopolitica enquantoodireitodeparticipa- cao ouinclusividade dizrespeito a inclusaodamaioriadapopulacaonoprocessodeescolhadoslideresegovernantes. Dahldefendequeapartirdessesdoisparametrosepossivelavaliarograudedemocratizacaodeumregimeousistemapolitico quantomaioraparticipacaoequantomaisgruposdentrodeumasociedadecompetirempelopoderpolitico maisdemocraticaeessasociedade. Nosdiasdehoje amaioriadospaisespermitequeopovoparticipedaadministracaodogoverno sendobastanteinclusivos porem quandoeproibidoodireito a oposicao aparticipacaoperdegrandepartedeseu202Introdu c ao a sCi e nciasSociaissignificado. Aspossibilidadesdecontestacaopublicaedeparticipacaopoli- ticanumasociedadedevemseranalisadasdeformaconjunta. E portanto ainteracaoentreessasduasvariaveisquedefineasdiferentesformasqueademocraciapodeassumirnasuaexistenciaconcreta. Emsuma podemosafirmarqueoprocessodedemocratizacaodependedeavancosarticuladosemtornodessesdoiseixoscentrais queservemcomocriteriosparaaclas- sificacaoderegimesobservadosnapratica conformesuamaioroumenorproximidadecomoidealdemocratico. Otrechoabaixomostra naspalavrasdoautor comoessesdoiselemen- tospodemsecombinardemaneirasvariadas Acontestacaopublicaeainclusaovariamumtantoindependentemente. AGra-BretanhapossuiaumsistemaaltamentedesenvolvidodecontestacaopublicaaofinaldoseculoXVIII masapenasumaminusculaparceladapopu- lacaoestavaplenamenteincluidaneleateaampliacaodosufragio em1867e1884. ASuicapossuiumdossistemasmaisplenamentedesenvolvidosdecon- testacaopublica. Poucaspessoasprovavelmentecontestariamavisaodequeoregimesuicoe altamentedemocratico. Noentanto ametadefemininadapopulacaosuicaaindaestaexcluidadaseleicoesnacionais Dahl 1997 31. Dahlrefere-seaofatodequeapenasem1971 poucoaposapublicacaodeseulivro nessemesmoano ovotofemininofoiaprovadonaSuica. Dasdiferentespossibilidadesdecombinacaoentreessasduasvariaveis oautortipificaquatrotiposderegimepolitico a hegemoniasfechadas regimesemqueadisputapelopoderebaixaeaparticipacaopoliticaelimitada b hegemoniasinclusivas regimesemqueadisputapelopoderebaixa masaparticipacaopoliticaemaisextensa c oligarquiascompetitivas regimesemqueadisputapelopoderealta masaparticipacaopoliticaelimitada d poliarquias regimesemqueadisputapelopoderealtaeaparticipacaopoliticaeampla. 203UnidadeIV ComoasociedadesetransformaChamaaatencaonessaclassificacaoainexistenciadeumregimeidentificadocomoumademocracia. Seriadeseesperar peloscriteriosapresentadospeloautor queoultimomodelo marcadopelaconjuncaodeamplaspossibilidadesdecontestacaopublicaeparticipacaopolitica correspondesseaoregimedemocratico. Dahldefende noentanto queadefinicaodedemocraciavaialemdaobservanciaaessasduascaracteristi- cas equenenhumregimerealpodeserpropriamenteclassificadocomodemocratico. OconceitodepoliarquiaCombaseemtaisconsideracoes oautordesenvolveseumaisconhecidoconceito odepoliarquia ouo governodemuitos. Criadoparadesignaraformaeomodocomofuncionamosregimesdemocraticosdospaisesocidentaisdesenvolvidos ouindustrializados esseconceitoserefere asdemocraciasefetivamenteexistentesque aoapresentardiferentescombina- coesdeinclusividadeepossibilidadedecontestacaopublica sedistanciamdoidealdemocratico. Nadefinicaodoautor Aspoliarquiaspodemserpensadasentaocomoregimesrelativamente masincompletamente democratizados ou emoutrostermos aspoliarquiassaoregimesqueforamsubstancialmentepopularizadoseliberalizados istoe fortementeinclusivoseamplamenteabertos a contestacaopublica Dahl 1997 31. Voltadoaumaanalisemaisrealisticadosregimesdemocraticosexisten- tes oconceitodepoliarquiasurgecomoalternativaoperacional a consta- tacaodeque nasclassificacoessociologicasanteriores nenhumpaisreuniacaracteristicassuficientesparaserconsideradoumademocraciaplena. Aoviabilizarumaanalisepautadanaoemmodelosabsolutos masempossi- bilidadesvariadasdecombinacaoentreosgrausdecontestacaopublicaedeinclusividade oconceitoampliaolequedeclassificacaodosregimespoli- ticos permitindoidentificardiferentesniveisdedemocratizacaoe dessemodo avaliarecompararosregimespoliticos. 204Introdu c ao a sCi e nciasSociaisMasquaissao afinal ascaracteristicasdeumapoliarquia ParaRobertDahl naspoliarquiashaeleicoeslivres queocorremregularmente eacompeticaoeleitoraleregulada. Odireitoaovotoeuniversal bemcomoodireitodeconcorreracargospublicos. Oprocessoeleitoralemarcadopelodireito a livreexpressaoeaodebate. Ehatambempossibilidadeparaqueoeleitorbusquefontesalternativasdeinformacao pensemos porexemplo naimportanciadousodemeiosciberneticosdeinformacaonomundocontemporaneo. Alemdisso oautorafirmaqueaspoliarquiassecaracterizariamporumafortedescentralizacaodosrecursosdepoder numaconfiguracaoemqueasdecisoesessenciaissaotomadasapartirdeumalivrenegociacaoentreumapluralidadedegrupos autonomoseconcorrentes masligadosmutuamenteporumacordominimosobreasregrasdojogosocialepoli- tico. Vemos aqui umadiferencafundamentalemrelacaoaosteoricosdaTeoriadasElites umavezqueDahlsalientaaexistenciadeumamultipli- cidadedecentrosdedecisaoeumconglomeradodeelites. Aindaemtornodoconceitodepoliarquia Dahltambemformulahipo- tesesacercadascondicoesmaisfavoraveisparaqueumsistemapoliticonaodemocratico oucombaixograudedemocracia caminheemdirecaoaumsistemapoliarquico. Nestesentido oautorconsideraquehamaischancesdeademocraciasedesenvolverquandoadimensaodacompeticaopoliti- caantecedeadimensaodainclusao. Ditodeoutraforma eledefendequeumregimedelimitadainclusao mascomelevadograudecompeticaoetolerancia a contestacaopolitica temmaischancesdesetransformarnumapoliarquia pois quandoainclusaopoliticaocorrer osistemapoliticojaterainstitucionalizadoosprocedimentosdemocraticosdedisputapelopoder. EimportantesalientaraindaqueDahlnaove ocaminhorumo aspo- liarquiascomoalgoinevitavel. Elerelembraqueascondicoesparaodesen- volvimentodeumregimepoliarquiconaosaofaceisdesecriar. Sao antesdetudo frutodeumprocessocomplexoquedepende segundooautor desetecondicoesprincipais sequenciashistoricas graudeconcentracaonaordemsocioeconomica niveldedesenvolvimentosocioeconomico desi- gualdade clivagenssubculturais controleestrangeiroecrencasdeativistaspoliticos. 205UnidadeIV ComoasociedadesetransformaSaoincontaveisostrabalhosque dediferentesformas tratamdotemadademocracia. Vimosaqui comNorbertoBobbioeRobertDahl doiscaminhosanaliticosconsagradosacercadasteoriasepraticasdoregimedemocratico. Maselesnaoseesgotam demodoalgum emsimesmos. Aocontrario compoemumaredeamplaefertildedialogossobreessetemaquevem nomundodehoje ganhandoimportanciaacadadia. UnidadeVOsmetodosdasCienciasSociaisqOquesaometodosdepesquisa. qOoficiodocientistasocialcomoumartesanatointelectual. qExemplosdemetodosqualitativosequantitativos. 208Introdu c ao a sCi e nciasSociaisSecaO28 AsCienciasSociaiscomoumartesanatointelectual26Comoocientistasocialrealizaseutrabalho istoe comoestudaareali- dadesocial Arespostaaessaperguntalevaaumareflexaosobreosmetodosdepesquisa. Masoquesaometodos Aetimologiadapalavragregametho- dossignifica via rota umamaneiraouummododefazerascoisas. Ouseja nocaso oscaminhosqueopesquisadorsegueparatentarrespondersuasperguntas. Apesquisasocialpodevaler-sedediferentesmetodospararesponder asperguntasquesecolocam. Naoha deformaalguma umaunica receita parafazerascoisas. NaexpressaodosociologoamericanoCharlesWhrightMills 1916-1962 acienciasocialdeveservistamaiscomoumoficio umartesanatointelectual doquecomouma linhademontagem depesquisaspadronizadas. Oproprioartesaointelectualproduzasteoriasemetodosnecessariosparaotrabalhoqueestasendofeito a medidaquevaisendofeito istoe a medidaquevaitrilhandoseuscaminhosdepesquisa. Issonaoquerdizer deformaalguma quedevadesprezartodooconhecimentoacumulado a suadisposicao masquedevesersempreoautordaspropriasideiasedeseucaminhosingular. OhistoriadorfrancesMarcBloch 1886-1944 jahaviausadoideiasemelhante emlivroqueficouinacabadoquandoelefoiassassinadopelosnazistas. SeuApologiadahistoria ouooficiodohistoriador faladotrabalhodohistoriadorcomoumoficio ummetier algoqueseaprendeemumaoficina. Essasimagens oficio artesanato oficina levam a posturaintelec- tualdesepensarotrabalhodepesquisasocialcomoumadialeticaperma- nenteentre teoria e pratica mediadapelosmetodos. 26Textodereferencia Mills 2009. 209UnidadeV OsmetodosdasCienciasSociaisSobreo artesanatointelectual Sejamosumbomartesao evitemosqualquernormadeprocedimentorigida. Acimadetudo busquemosdesenvolvereusaraimaginacaosociologica. Evi- temosofetichismodometodoedatecnica. Eimperiosaareabilitacaodoarte- saointelectualdespretensioso edevemostentarser nosmesmos esseartesao. Quecadahomemsejaseupropriometodologista quecadahomemsejaseupropriotecnico queateoriaeometodosetornemnovamentepartedapraticadeumartesanato. Defendamosoprimadodointelectualindividual sejamosamentequeenfrenta porsimesma osproblemasdohomemedasociedade Mills 2009 240. Apesardamorteprecoce MillsfoiumdosmaisimportantescientistassociaisamericanosdoseculoXX. Eleproduziuumaobraoriginal influen- ciadatantopelatradicaoweberianaquantopelamarxista. Escreveu entreoutroslivros qWhitecollar TheAmericanmiddleclass 1951 publicadonoBrasilcomoAnovaclassemedia qThepowerelite 1956 Aelitedopoder qThesociologicalimagination 1959 Aimaginacaosociologica. Nesteultimolivro Millsincluiuumapendice Sobreoartesanatointe- lectual quesetornariafamoso. O artesaointelectual dequetrataMillsdeveservistocomoum tipoideal nosentidoweberianodotermo algoquenaoeencontradoemforma pura narealidadesocial masque construidopelopesquisadorapartirdoexagerodealgumaspropriedadesdedeterminadofenomeno nosajudaacompreende-lo. ParaMills verotrabalhodepesquisacomoumoficioressaltaaimpor- tanciadadimensaoexistencialnaformacaodopesquisador. Millsenfatiza nessesentido aindissociabilidade parao artesaointelectual entresuavidaeseutrabalho. Issoocorre emprimeirolugar porque comoemoutrosoficios ometierdocientistasocialtambemealgoqueseaprendebasicamenteemdialogo210Introdu c ao a sCi e nciasSociaiscompesquisadoresmaisexperientes. Porisso emseutexto Millsprocuraexporaosleitorescomorealizaseuoficio. Ocientistasocial acimadetudo naodevedissociarseutrabalhodesuavida esimusarumaparaenriqueceraoutra Aerudicaoeumaescolhadecomovivereaomesmotempoumaescolhadecarreiraquerosaibaounao otrabalhadorintelectualformaseuproprioeu a medidaqueseaproximadaperfeicaodeseuoficio . . . Mills 2009 212. Oumelhor a medidaqueseaprimoraemseuoficio. Aexperienciadevidadocientistasocialdeve portanto sercontinuamenteusadaemseutrabalho. Elainfluieafetaseumomentopresenteeseusplanosfuturos. Mascomofazerissonapratica ArespostapessoaldeMillse organizarumarquivo manterumdiario. Noarquivo unem-seaexperienciapessoaleasatividadesprofissionais osestudosemelaboracaoeosestudosplane- jados. Nessearquivooestudioso comoartesaointelectual tentarajuntaroqueestafazendointelectualmenteeoqueestaexperimentandocomopessoa Mills 2009 212. Porqueodiarioeamanutencaodeumarquivosaoimportantes Porque paraMills desenvolvemohabitodaautorreflexaoe comisso mantemnossomundointeriordesperto. Umdosprincipaiserrosdosjovenscientistassociais paraMills seriasoescreveremseus planos quandotemqueprepararum projeto. Oarquivo paraele devesercotidiano. Devecaptarnaoapenasas grandesideias mastambemos pensamentosmarginais subprodutosdavidadiaria trechosdeconversaouvidosnarua sonhosetc. Maisdoqueisso oarquivodeveserrevistoperiodicamente. Deve-sere- organiza-lofrequentemente desenvolvendoeaprimorandoaformacomoseexprimemasideias deve-sefazer desfazererefazerclassificacoesetipos deve-secontrastarecompararvariosobjetosdiferentes deve-seinverterosensodeproporcao deformar exagerar. Nesseprocesso deve-se brincar comoarquivo mantercomeleumaatitudeludica. Oarquivo construidoeusadodessemodo teriaacapacidade segundoMills deestimularaimaginacaosociologica queconsisteemgrandepartena capacidadedepassardeumaperspectivaaoutra enoprocessoesta- belecerumavisaoadequadadeumasociedadetotaldeseuscomponentes. 211UnidadeV OsmetodosdasCienciasSociaisEessaimaginacaoquedistingueocientistasocialdosimplestecnico Mills 2009 227-228. Segue-seumabelapassagemsobreoespiritoalegrequeanimaaimagi- nacaosociologica Aimaginacaosociologicatambempodesercultivada eladificilmenteocorresemumgrandevolumedetrabalho quecomfrequenciaederotina. Naoobstante haumaqualidadeinesperadaemrelacaoaela talvezporquesuaessenciasejaumacombinacaodeideiasquenaosupunhamoscombinaveis digamos umamisturadeideiasdaFilosofiaalema edaEconomiabritanica. Haumcertoestadodeespiritoalegreatrasdessacombinacao bemcomouminteresserealmentemuitograndeemverosentidodomundo quefaltaaostecnicos. Talvezestessejamdemasiadobemtreinados treinadoscomdemasia- daprecisao Mills 2009 228. Millstambemdefende emseutexto queaapresentacaodosresultadosdaspesquisasdeveserfeitanalinguagemmaisclaraesimplespossivel. Paraele seoescritonaoeinteligivelparaumleitorculto eporquefoimales- crito. UmtruquepraticoqueMillscitaepensarsemprequeseestafalandoparaumauditoriodenaoespecialistas. Deve-sebuscardarexemploscon- cretoscomfrequenciaeevitarutilizarexcessivamentejargoesacademicosehermetismo. Umalinguagem dificil emuitasvezesusadaporcientistassociaiscomorecursoparaimitaralinguagemdasciencias exatas ouparadis- tinguirocientistasocialdosliteratosoujornalistas quandonao pelosimplesdesejodeprestigiooriundodofatodesedeterumconhecimentosupostamente muitocomplicado. AvisaodeMills queseopoeaisso estaresumidanumjogodepalavras Parasuperaraprosaacademica te- mosdesuperarprimeiroaposeacademica Mills 2009 235. Finalmente Millschamaaatencaoparaofatodequeocientistasocialnaodevedeixarqueaspreocupacoespublicasdeterminemosproblemasqueestuda. Naodeve nunca abrirmaodesuaautonomiamoralepoli- tica. 212Introdu c ao a sCi e nciasSociaisTemasparadiscussaoqNaepocaemqueMillspublicouseutexto 1959 tinhaemmenteacriacaoemanutencaodeumdiarioeumarquivofisicos empapel. Apenasdecadasmaistardeousodecomputadorespessoaiseoacesso a internetsetornariamumarealidade. Emboraaessenciadesuasideiascontinueamesma noquesuasrecomendacoespoderiamseradaptadas a contemporaneidade qBusqueexemplosdaquiloqueMillschamade poseacademica. SecaO29 AobservacaoparticipanteEcomumouvirmosfalarnumadivisaoentremetodos qualitativos e quantitativos depesquisa. Noproximocapitulo veremosque arigor essadivisaoemeramenteformal. Oqueimportaaqui noentanto eape- nasdestacarqueumtipodemetodonaoe melhor ou maiscientifico queoutro podemajudararesponderdiferentesperguntas dediferentesmodos. Oimportanteeperceberqualtemmelhor rendimento emcadasituacao. Ouseja qualmetodo ouquecombinacaodemetodos ajudaocientistasocialarespondersuasperguntas. Evitandodiscutirquestoesde metodologia emabstrato istoe oestudodosmetodosemsi daremosapenasumexemplo nestecapituloenoseguinte dealgumasquestoesrelativas a praticadapesquisasocial. Entreosmetodos qualitativos estaopraticascomoa observacaopar- ticipante easentrevistasnaoestruturadas. Tememcomumofatodese- remdadosdedificilquantificacao equeenfatizamaimportanciadesecompreenderainteracaoentrepesquisadore objeto dapesquisa. Nessesentido muitasvezesosmetodosqualitativosrealcamadimensaosubjetivaeexistencialdoprocessodepesquisa. Demodogeral podemosdizerqueaspesquisasqualitativastrabalhamcomsignificados motivacoes valoresecrencas dimensoesquenaopodemsersimplesmentereduzidas asques- toesquantitativas poisrespondemanocoesmuitoparticulares. Poressesmotivos sehaumacaracteristicaqueconstituiamarcadosmetodosqualitativoseaflexibilidade principalmentequanto astecnicasdecoletadedados incorporandoaquelasmaisadequadas a observacaoque213UnidadeV OsmetodosdasCienciasSociaisestasendofeita. Outracaracteristicaimportantedametodologiaqualitati- vaconsistenaheterodoxianomomentodaanalisedosdados. Issoporqueavariedadedematerialobtidoqualitativamenteexigedopesquisadorumacapacidadeintegrativaeanaliticaque porsuavez dependedodesenvolvi- mentodeumacapacidadecriadoraeintuitiva. ExaminaremosnestasecaoaexperienciadepesquisadeWilliamFooteWhyte 1914-2000 sociologoamericano. SeuprincipallivroeSocieda- dedeesquina Streetcornersociety publicadoem1943 noqualWhytesevaledometododepesquisaconhecidocomo observacaoparticipante. Essemetodonaoera a epoca umanovidade. Entreosantropologos haviasetornadofamosodesdeapublicacao em1922 dosresultadosdepesquisadeBronislawMalinowskientreosnativosdasIlhasTrobriand comosquaisconviveualgunsanos ArgonautasdoPacificoOcidental. ApesquisadeWhyte noentanto foipioneiraemrelacaoaestudosnomeiourbano. Emseulivro WhyteapresentaosresultadosdoestudointensivodeumaareapobreedegradadadeBoston emsuamaioriahabitadaporimi- grantesdeorigemitaliana. Numlongo anexometodologico incluidonolivro Whyteexplicacomoapesquisafoirealizada. Convivendocomos nativos DamesmaformaqueMalinowskiconviveudurantealgunsanoscomos nativos dealgumasilhasdoPacificoOcidental Whytetambembuscouconvivercomos nativos dobairrodeBostonquequeriaestudar. Eclaroque nestecaso apalavra nativos refere-seacontextoscompletamentedi- ferentes. Whytecompartilhavaumgrandenumerodeelementosculturaiscomosmoradoresdaareaquepesquisou muitomaisdoqueMalinowskiemrelacaoaosseus nativos. Poroutrolado eimportanteobservarmos comonoschamouaatencaooantropologobrasileiroGilbertoVelho 1945-2012 quefamiliaridadeeproximidadenaosaonecessariamentesinonimosdeconhecimento. GilbertoVelhofoi elemesmo autordeumpioneiroestudoantropolo- gicoemmeiourbanonoBrasil. EmseuAutopiaurbana 1973 estudou214Introdu c ao a sCi e nciasSociaisocotidianoeasrepresentacoesdemoradoresdeumprediodeconjugadosemCopacabana noqualmoroudurantealgumtempoecomosquaisconviveudiariamente. Velhochamaaatencao noartigo Observandoofamiliar paraaexistenciadeinumerosgruposquefazempartedenossapaisagemurbana comosquaistemosfamiliaridade poremarespeitodosquaisnossoconhecimentoemuitoimprecisoeestereotipado. Dentrodeumagrandemetropole Velhomostraquehadescontinuidadesvigorosasentreomundopesquisadoreoutrosmundos oquefazcomquepossamosterexperienciasdeestranhezaeatemesmochoqueculturalemnossapro- priacidade. Destaquemos aseguir algumascaracteristicasdaexperienciapionei- radeWilliamFooteWhyte. Emseulivro elenarraseuaprendizadoem Cornerville nomeficticioquedaaobairroitalianodeBostonqueestu- douapartirde1937. Aoprocurarconvivercomogrupoquequeriaestudar principalmen- tejovensde gangues demoradores Whyteviu-seinicialmentediantedodilemadecomoteracessoaessesgrupos. Aposvariastentativasfrustradas conheceuumpersonagem Doc queviriaaterpapelfundamentalemsuapesquisa passandoaatuarcomoummistodeintermediarioe interprete entreeleeosdiferentesgruposcomosquaistinhacontato. Aospoucos Doctornou-semaisumcolaboradordapesquisadoqueumsimples in- formante. Whytedestacaaimportanciadeseobteroapoiodeindividuos-chavenosgruposqueestavaestudando. Dessemodo naoprecisavaficarsempreexplicandoatodomundooqueestavafazendo. Emrelacaoaesteponto descobriuqueerasempremelhordarumaexplicacaosimples dizer porexemplo queestavaescrevendoumlivro doquetentardarumaexplicacaomais teorica. Suaaceitacaonobairrodependiamuitomaisdasrelacoespessoaisquedesenvolviadoquedasexplicacoesquepudessedararespeitodoqueestavaquerendofazer. Estae valedestacar umaexperienciaunicaesingulardepesquisa comotodas. Naoha comojadissemos regrageralnemreceitaparaapesquisasocial. Emseucasoespecifico Whyteestavalidandocomumaespeciedesubmundosocialmentedesprestigiado noqual porexemplo 215UnidadeV OsmetodosdasCienciasSociaishavianoiniciosuspeitasdequeelepudesseserumpolicialdisfarcado. Aospoucos noentanto comaconvivenciadiaria eleganhouaconfiancadaspessoascomasquaisconvivia. Apesquisadecampocomobservacaoparticipanteeumprocessogra- dualdeobservacaoeconstrucaodeproblemasteoricos enaoumaexpe- rienciade empatia ou conversao pessoal. Otempodapesquisa nestecaso podeserumelemento-chave. NocasodeWhyte participardasati- vidadeseconvivercomogrupo caracteristicascentraisda observacaoparticipante tornaram-semaisimportantese renderam maiscomometodosdepesquisadoque porexemplo tentaraplicarquestionariosoufazerentrevistasformais. Eimportanteaindadestacar arespeitodessemetododepesquisa que pormeiodele naosepretendequeopesquisadorse torne umnativo ouquefinjaserum. Aocontrario aexpectativageralmenteedequeopesquisadorcontinuesendodiferente. Whytedaoexemplodequandofalouumaseriedepalavroeseosjovensdagangue quetambemfalavammuitospalavroes naogostaram dizendoqueeleeraumapessoaeducadaequenaodeveriaagirdaquelaforma. Naverdade gostavamdelejustamenteporserdiferente contantoquetivesseamizadeporelas. Temosaqui por- tanto umatensaoconstanteentreproximidadeedistanciaqueatravessatodaapesquisa esobreaqualopesquisadortambemdeverefletir. ConformeargumentaasociologaLiciadoPradoValladares 2007 apartirdaleituradeSociedadedeesquinapodemosdepreenderaquiloqueelachamade Osdezmandamentosdaobservacaoparticipante. Saoeles 1. Aobservacaoparticipanteimplica necessariamente umprocessolongo. Muitasvezesopesquisadorpassainumerosmesespara negociar suaentradanaarea. Umafaseexploratoriae assim essencialparaodesen- rolarulteriordapesquisa. 2. Opesquisadornaosabedeantemaoondeesta aterrissando caindoge- ralmentede paraquedas noterritorioaserpesquisado. Naoeesperadopelogrupo desconhecendomuitasvezesasteiasderelacoesquemarcamahierarquiadepodereaestruturasociallocal. Equivoca-seaopressuporquedispoedocontroledasituacao. 216Introdu c ao a sCi e nciasSociais3. Aobservacaoparticipantesupoeainteracaopesquisadorpesquisado. Asinformacoesqueobtem asrespostasquesaodadas assuasindagacoes dependerao aofinaldascontas doseucomportamentoedasrelacoesquedesenvolvecomogrupoestudado. Umaautoanalisefaz-se portan- to necessariaeconvemserinseridanapropriahistoriadapesquisa. 4. Porissomesmoopesquisadordevemostrar-sediferentedogrupopes- quisado. Seupapeldepessoadeforateraqueserafirmadoereafirmado. Naodeveenganarosoutros nemasiproprio. 5. Umaobservacaoparticipantenaosefazsemum Doc intermediarioque abreasportas edissipaasduvidasjunto aspessoasdalocalidade. Comotempo deinformante-chave passaacolaboradordapesquisa ecomelequeopesquisadoresclarecealgumasdasincertezasqueperma- neceraoaolongodainvestigacao. 6. Opesquisadorquasesempredesconhecesuapropriaimagemjuntoaogrupopesquisado. Seuspassosduranteotrabalhodecamposaoconhe- cidosemuitasvezescontroladospormembrosdapopulacaolocal. Opesquisadoreumobservadorqueestasendotodootempoobservado. 7. Aobservacaoparticipanteimplicasaberouvir escutar ver fazerusodetodosossentidos. Eprecisoaprenderquandoperguntarequandonaoperguntar assimcomoqueperguntasfazernahoracerta. Asentrevistasformaissaomuitasvezesdesnecessarias devendoacoletadeinforma- coesnaoserestringiraisso. Comotempoosdadospodemviraopes- quisadorsemqueelefacaqualqueresforcoparaobte-los. 8. Desenvolverumarotinadetrabalhoefundamental. Opesquisadornaodeverecuaremfacedeumcotidianoquemuitasvezessemostrarepeti- tivoedededicacaointensa. Mediantenotasemanutencaododiariodecampo fieldnotes opesquisadorseautodisciplinaaobservareanotarsistematicamente. Suapresencaconstantecontribui porsuavez paragerarconfiancanapopulacaoestudada. 9. Opesquisadoraprendecomoserrosquecometeduranteotrabalhodecampoedevetirarproveitodeles a medidaqueospassosemfalsofazempartedoaprendizadodapesquisa. Deve assim refletirsobreoporque deumarecusa oporque deumdesacerto oporque deumsilencio. 217UnidadeV OsmetodosdasCienciasSociais10. Opesquisadore emgeral cobrado sendoesperadauma devolucao dosresultadosdoseutrabalho. Paraqueserveestapesquisa Quebeneficioselatraraparaogrupoouparamim Massounspoucosconsultameseservemdoresultadofinaldaobservacao. Oqueficasaoasrelacoesdeamizadepessoaldesenvolvidasaolongodotrabalhodecampo. ComolembraValladares Whytedeixaclaroqueaobservacaoparti- cipantenaoeumapraticasimples eestasemprepermeadadedilemaste- oricosepraticosquecabeaopesquisadorgerenciar. Outracontribuicaoimportantedolivro ecujosensinamentossaodeextremarelevanciaaosestudossobrearealidadebrasileira eoensinamentodequeumapes- quisaqualitativabemconduzidaofereceumaimagemsobredeterminadarealidadebastantediferentedaquelaconhecidapelosensocomum queve asareaspobrespelachavedadegradacao docaosedailegalidade. Socieda- dedeesquinanosrevelaque atravesdaobservacaoparticipante opesqui- sadorpodeconstruirumpanoramamuitomaiscomplexo queenfatizaaexistenciadegrupossociaisvariadoselogicasdeorganizacaolocais. Nessesentido ganhamimportanciaasredesdeinteracaosocialque nastramasdocotidiano podemrevelarumarealidadedistintadaquelaexpressapelosensocomumoumesmoporpesquisasdeteorquantitativo. TemasparadiscussaoqDiscutacomodiferentescaracteristicaspessoaisdopesquisadorpodeminfluenciarsuainteracaocomos nativos. qApesardeapesquisadecampocomobservacaoparticipanteenvolverumsignificativograudecontatoeinsercaodopesquisadornogrupoes- tudado issonaosignificaqueelesetransformeemum nativo. Comoessasfronteirassemantememsituacoesemqueospesquisadoseos nativos saopartedeumamesmasociedade 218Introdu c ao a sCi e nciasSociaisSecaO30 Metodosquantitativosdepesquisa27Discutiremos nestecapitulo autilizacaodemetodosquantitativosemumtipoespecificodepesquisasocial aspesquisasdeopiniao. 28Voce certa- menteestafamiliarizadocomosresultadosdepesquisasquebuscamcaptara opiniaopublica poispesquisasdessetiposaodiariamenteanunciadaspelamidiaarespeitodosmaisdiferentestemas pesquisassobreintencaodevotonaseleicoes sobremudancasdecomportamentosocial sobreacontecimentospublicosrelevantesetc. Aspesquisasdeopiniaopodemseguirdiferentesmetodosetecnicas emfuncaodotipodeassuntoasertratado dopublico-alvooumesmoderestricoesdetempoouderecursosparasuaproducao. Vejamosoexemplodecomoa opiniaopublica ecaptadapelas pes- quisasporamostragem istoe aquelasqueseutilizamdequestionariosestruturadosecomentrevistasrealizadaspessoalmente diferentementedepesquisasqueseutilizam porexemplo detelefoneouinternet. Saopesquisasque nojargaodasCienciasSociais sechamamdesurveys. Elaspermitemoferecerumavisaorelativamenterapidasobrequestoesque deoutromodo demorariammuitoparaserrespondidas. Alemdisso ofatodenaosebuscaraopiniaopessoaldosindividuosmassuageneralizacaoparatodaumapopulacaoouparaum recorte especificodelapermitecontrolarmelhor emmuitoscasos oviesdasopinioessubjetivas. Comoa opiniaopublica semanifestanaspesquisas Ossurveysrepresentamaopiniaoqueosindividuosentrevistadostemnomomentoemqueasperguntassaofeitas. Osomatoriodessasopinioes consolidadaspelopesquisador representaa opiniaopublica arespeitodotemadaentrevista. Mas comogeneralizarsobrea opiniaopublica seesempreentrevistadoumnumeroreduzidodepessoasemrelacao a populacaogeral 27Textodereferencia Cheibub s. n. t. 28AgradecemosaMarcioGrijoVilaroucaaleituraatentadestecapitulo. 219UnidadeV OsmetodosdasCienciasSociaisVejamosoexemplodaspesquisasdeintencaodevoto. Ecomum emdisputaseleitorais candidatosmalcolocadosnegaremavalidadededeter- minadapesquisadizendo porexemplo que naoconhecemninguemquetenhasidoentrevistado ouque aunicaopiniaoqueinteressaeadasur- nas. Jaoscandidatosbemcolocadosouemascensaogeralmentevalorizamoresultadodaspesquisas vistocomouma tendencia positiva. Esseexemplonoslevaaconsiderarduascoisasimportantesemrelacao aspesquisasdeopiniaoemgeral. Emprimeirolugar oobjetivodapesquisanaoeconheceraopiniaoapenasdaspessoasentrevistadas masdapopu- lacaomaisampla oudedeterminado recorte dessapopulacao noqualestaoinseridos. Ouseja aquiloquesetemcomorespostasdealgunsindi- viduosentrevistadosdeverepresentarumacategoriaouclassemaisgeraldepessoasnamesmasituacao eumaamostradapopulacao oquenoscolocaaquestaomaisgeraldecomodefiniraamostragemnecessariaparaseterumbomresultado queseraabordadamaisadiante. Umasegundaobservacao emrelacaoaoexemplodapesquisadeinten- caodevoto equeseuresultado aomesmotempoqueefrutodaopiniaodeumgrupodepessoasrepresentativasdapopulacaoemgeral acabaporsuavezinfluenciandoapropria opiniaopublica quesequerrevelar. Issoporque atravesdadisseminacaodosresultadosnamidia porexemplo aspessoaspodem inclusive sesentirtentadasamodificarsuaopiniaoan- terior ouentaopessoasemduvidapodemdecidiroptarportalouqualrespostaemfuncaodaquiloqueapareceanunciadonamidia. Temosaqui portanto uma viademaodupla naqualaspesquisasdeopiniaoeopublicoquerepresentaaopiniaoquesequermediracabaminfluenciando-semutuamente. LimitesefontesdeerrodossurveysComojadissemos umsurveyregistraaopiniaodosindividuosnomomentoemqueaperguntaefeita. Essapergunta eimportantedestacar ealgoesti- muladopelopesquisador. Porcausadisso arespostaserasempreresultadodomodocomoaperguntaefeita docontextonoqualefeitaedotempo geralmentereduzido queoentrevistadotempararesponde-la. Asrespostas220Introdu c ao a sCi e nciasSociaisnaosaofrutodeumdebateoudeumareflexaoconjuntaentrepesquisadoreentrevistado masdereacoesrapidasaumaperguntaestimulada. Valedestacarquepartedostemasexploradosemsurveyspodemserpre- cedidosporentrevistasqualitativasemprofundidade queajudamaidenti- ficarquaisasquestoes dentrodeumgrandetema saorelevantesparaosentrevistados eque portanto auxiliamnaformulacaodasperguntas. Ouseja havariosesforcospossiveis naelaboracaodoinstrumentodepes- quisa nosentidodecontrolaralgumasfontesdeerros. Dessemodo eequivocadopensarqueosdadossao coletados pelopesquisador comosefossemcoisasprontas a esperadeseremregistradas. Naverdade osdadossaoconstruidos poisderivamdeumaformulacaoporpartedopesquisador. Nessesentido ossurveysdeopiniaopodemtambemserconsideradospesquisasqualitativascommetodosquantitativos. Naosao emsi mais objetivos doqueoutrosmetodosetecnicasdepesquisa. Muitasvezes usam-sediferentesmetodosetecnicasdepesquisadeformacomplementar. Assim surveysmuitasvezesajudama testar proposicoesoriundasdeinsightsqualitativos eentrevistasqualitativaspodemdemons- traroslimitesdeperguntasestruturadas. Umadasfontesdeerromaiscomunsemsurveyseaquestaodaamos- tragem inerenteaessemetodo. Outrosproblemascomuns porem asvezesmenosobvios referem-se a formacomoaperguntaefeita equepodeinfluenciararesposta eproblemasnainteracaoentreentrevistador-entre- vistado formadeabordagem entonacaodavozecriacaodeempatiaetc. quepodemigualmenteinfluirsobreoresultado. Mesmocomessesproblemas ossurveyssemostramcomoummetododepesquisavalidoebastanteapropriadoamuitassituacoes ao eviden- ciarematendenciadepensamentodoscidadaossobredeterminadotema nomomentoemqueforamrealizadasesobascondicoespossiveisdesuarealizacao Cheibub s. n. t. . Oimpactodaspesquisassobrea opiniaopublica Comojafoimencionado temosumaviademaoduplaentrepesquisa res- posta apresentacaodosresultadoseopiniaopublica aquiloqueemedido221UnidadeV OsmetodosdasCienciasSociaistambeminfluenciaoquesequermedir. Oimpactodepende principal- mente daformacomoosresultadossaoapropriadospelosatoressociais midia autoridades movimentossociaisetc. . Esseimpactovaidependerdeseremosresultadosacatadoscomo verdade ouseseraoapenasopontodepartidaparadebatessobreotema. Quandoumapesquisadeopiniao impoe umtema porexemplo osrespondentessemanifestamsobreumaagendapredefinidadeformaexogena. Oresultadopodeganhargranderepercussaoeinfluenciarpo- liticaspublicas semsernecessariamenteobjetodepreocupacaocentraldosentrevistados. A agendapublica nestecaso torna-se estimulada pelapesquisa. Valeobservarque emmuitoscasos osresultadosdediferentespesqui- sadorespodemserdivergentesealimentaradiscussaosobreosmetodosetecnicasutilizados aqualidadedaamostraedasperguntas aqualidadedaanalisedosdadosetc. Nestesentido muitasvezesainfluenciadaspes- quisassobreasociedadedependemaisdefatoresextrinsecos aspropriaspesquisas. TemasparadiscussaoqExamineexemplosconcretosdepesquisadeopiniao observando qcasosemquehaconvergenciaoudiscordanciaentreosresultadosdediferentespesquisas compareasamostrasutilizadaseocontextodaspesquisas qcomoelasforamapresentadaspelamidiaeinfluenciaramodebatepublicosobredeterminadotema. ReferenciasBECKER Howard. Marginaisedesviantes. In _____. Outsiders. RiodeJaneiro Zahar 2008. BERGER Peter LUCKMANN Thomas. Aconstrucaosocialdarealidade. 24. ed. Petropolis Vozes 2002. BOBBIO Norberto. Democraciaeditatura. In Estado governo sociedade. RiodeJaneiro PazeTerra 1987. p. 135-165. _____. Dicionariodepolitica. Trad. JoaoFerreira. Brasilia UniversidadedeBra- silia 1998. 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Apuntes
COLE Ç Ã OFGVUNIVERSITÁRIACOLE Ç Ã OFGVUNIVERSITÁRIAPROJETOGRÁFICOEARTE | aspectos | OUT-2014 | www. aspectos. com. brIntrodução àsCiênciasSociaisCELSOCASTROJULIAO'DONNELLAcoleçãoFGVUniversitáriareúnelivrosvoltadosparacursosdegraduaçãoemadministraçãodeempresaseeconomia. DesenvolvidosporprofessoresdaFundaçãoGetulioVargas, seustítulosoferecembaseteóricaatualizadaparaasdisciplinasligadastanto àsciênciasexatasquanto àsciênciashumanas, comclarezaeobjetividade. AcoleçãofoiidealizadaapartirdeumademandadoProgramadeCertificaçãodeQualidadeFGV, queprestaapoiopedagógicoacursosdegraduaçãodetodoopaís. LigadaaoInstitutodeDesenvolvimentoEducacional (IDE), ainiciativaalinha-se à premissadaFGVdeampliaroacessoaoconhecimentoecontacomoapoioacadêmicodetrêsrenomadasescolas: EscolaBrasileiradeAdministraçãoPública (Ebape), EscoladeAdministraçãodeEmpresasdeSãoPaulo (Eaesp) eEscoladeEconomiadeSãoPaulo (Eesp). Periodicamente, asinstituiçõescertificadassãoavaliadasemtrêsníveis: institucional, docenteediscente. AspublicaçõesdacoleçãoFGVUniversitáriacomplementamessesuporteeducacionaloferecidopelaFGVeavalizamacredibilidadedoensinodessasinstituições. Introdução àsCiênciasSociaisCELSOCASTROJULIAO'DONNELLRuaJornalis...
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